CAPÍTULO 7
DUDA NARRANDO
Meu coração quase saiu pela boca no segundo em que a ligação foi atendida.
— É… é o Purga?
Quando ouvi a resposta do outro lado, grave, calma demais, senti um frio subir pela espinha.
— É sim. Pode falar.
Engoli seco. Minha mão suava tanto que quase deixei o celular cair.
— Meu nome é Eduarda… a Simone me passou seu contato. — falei rápido, com medo de perder a coragem se pensasse demais. — Ela disse que vocês… que você tava procurando alguém pra cuidar de uma criança.
Teve um pequeno silêncio. Não daqueles constrangedores. Daqueles que analisam.
— Tô sim. — ele respondeu. — Você tá ligando porque tem interesse?
Fechei os olhos por um segundo. A imagem da minha mãe, do aluguel atrasado, do remédio acabando, tudo veio junto.
— Tô. — respondi. — Mas eu preciso ser sincera. Eu nunca subi em um morro. Nunca trabalhei pra… pra gente como vocês.
— Aqui a gente gosta de sinceridade. — ele disse. — Já é um ponto.
Respirei fundo.
— Eu sou formada em magistério. — continuei. — Tô cursando pedagogia a distância. Já trabalhei como estagiária em creche. Sei lidar com criança difícil. Mas… — hesitei — eu tenho medo.
Ele soltou um meio riso curto do outro lado.
— Se não tivesse, eu desconfiava. — falou. — Medo é normal. Ainda mais pra quem vem de fora.
Ficamos em silêncio por um instante. Depois ele falou, direto, sem rodeio:
— O menino tem seis anos. Perdeu a mãe cedo. A avó morreu recentemente. É agressivo, responde m*l, testa limite o tempo todo. Não é um trabalho fácil. Mas tu pode ser que aguente ele.
Meu peito apertou. Não pelo medo. Mas pela criança.
— Criança não nasce difícil. — falei sem perceber. — Ela fica.
Do outro lado, o silêncio voltou. Mais longo dessa vez.
— Você fala bonito. — ele disse por fim. — Mas aqui não é sala de aula, não. É a casa do Rei da Penha.
O nome bateu pesado.
— Eu sei. — respondi baixo. — E eu não tô atrás de luxo. Eu tô atrás de trabalho.
— E coragem. — ele completou.
— Também. — concordei.
Ouvi um barulho, como se ele estivesse se movendo, talvez andando.
— Seguinte, Duda. — ele falou. — Eu não contrato ninguém por telefone. O Torresmo também não. Se quiser, você sobe amanhã. Conversa comigo primeiro. Depois, se fizer sentido, conversa com ele.
Meu estômago revirou.
— Amanhã… — repeti.
— Amanhã. — confirmou. — De manhã. Eu te busco na contenção. Só chegar lá e mandar um dos vapor me chamar no radio. Você não sobe sozinha.
Aquilo me deu um mínimo de alívio.
— E se eu não aguentar o menino e não quiser ficar? — perguntei, sendo honesta.
— Ninguém vai te obrigar a ficar. — ele respondeu. — Mas se entrar, entra sabendo onde tá pisando.
Olhei ao redor da casa. Pequena. Silenciosa. Minha mãe tossiu no quarto ao lado. A decisão já tava tomada fazia tempo. Eu só precisava aceitar.
— Eu vou. — falei.
Do outro lado, ele ficou em silêncio por um segundo.
— Certo. — respondeu. — Amanhã, nove horas.
— Tá bom.
A ligação caiu.
Fiquei sentada na cama, celular na mão, sentindo o coração bater descompassado. Medo. Ansiedade. E uma estranha sensação de que minha vida tinha acabado de virar numa esquina que eu nunca planejei cruzar. Fui até o quarto da minha mãe. Ela dormia leve, respirando com dificuldade.
Sentei na beira da cama e acariciei o cabelo dela.
— Amanhã… — sussurrei. — Amanhã eu vou tentar mudar tudo.
Não sabia se tava fazendo a coisa certa. Só sabia que, pela primeira vez em muito tempo, alguém tinha dito “vem” em vez de “vamos ligar”.
E isso já era o suficiente pra eu ir.
Fiquei mais uns segundos parada, olhando pro celular apagado na minha mão, como se ele fosse voltar a tocar sozinho e dizer que era tudo brincadeira. Que eu não precisava subir morro nenhum. Que o aluguel tinha sido pago. Que a vida ia dar um respiro.
Mas nada aconteceu.
Levantei devagar e fui até a cozinha. O piso gelado me deu um choque nos pés descalços. Peguei o copo no armário, enchi de água da torneira e bebi tudo de uma vez, como se aquilo fosse apagar o nó na garganta. A água desceu, mas o aperto ficou.
Encostei na pia, respirei fundo e encarei meu reflexo no vidro da janela. Cara de cansada. Olheira funda. Mas os olhos… os olhos tavam diferentes. Assustados, sim. Mas acesos.
Peguei o celular de novo e abri a conversa da Simone. Fiquei alguns segundos com o dedo parado sobre o teclado, pensando em como escrever. No fim, fui simples. Do jeito que dava.
“Amiga, falei com ele. O Purga. Vou subir amanhã de manhã pra conversar. Tô com medo pra caramba, mas vou.”
Enviei antes que desse tempo de desistir.
Coloquei o celular sobre a mesa e fiquei ali, ouvindo o barulho baixo da casa, o relógio marcando o tempo que nunca espera ninguém. Do quarto, veio a tosse da minha mãe de novo. Meu peito apertou na hora.
Voltei pra perto dela, ajeitei o cobertor, fiquei observando aquele peito subir e descer com esforço. Foi por isso. Sempre foi por isso. Não era coragem. Era necessidade misturada com amor.
— Vai dar tudo certo… — murmurei, mais pra mim do que pra ela.
Quando o celular vibrou na cozinha, meu coração disparou. Fui quase correndo pegar.
Mensagem da Simone.
“Tu é doida, Duda. Mas é forte. Qualquer coisa me chama. Confia em você.”
Soltei um suspiro que nem percebi que tava prendendo.
Guardei o celular, voltei pro quarto e deitei sem apagar a luz. O sono demorou a vir. Na cabeça, mil perguntas. Na barriga, um frio constante. No fundo do peito, uma certeza estranha: amanhã nada ia ser igual. E, gostando ou não, eu já tinha dado o primeiro passo.
Deitei na cama e apaguei a luz, mas o escuro não trouxe descanso nenhum. Só deixou tudo mais alto dentro da minha cabeça.
Virei pro lado esquerdo. Nada.
Pro direito. Pior ainda.
O colchão rangia baixinho a cada movimento, como se denunciasse minha inquietação. O lençol grudava na pele suada, e eu puxava, largava, puxava de novo, tentando achar uma posição que acalmasse o corpo. Não achei.
Fechei os olhos com força, mas as imagens vinham mesmo assim. Um morro que eu nunca subi. Um homem de voz firme demais. A palavra Rei ecoando na minha mente como aviso. E uma criança. Sempre ela. Pequena, perdida, carregando uma dor grande demais pra idade.
Meu coração batia rápido, irregular. Medo puro. Daqueles que não gritam, só apertam.
Virei de barriga pra cima e encarei o teto escuro, contando as respirações, tentando lembrar de tudo que já enfrentei até ali. Falta de dinheiro. Humilhação. Doença dentro de casa. Gente fechando porta na minha cara. E eu ainda tava ali.
— Você aguenta… — sussurrei no vazio.
Mas a voz saiu fraca. Quase não me convenci.
O barulho da rua lá fora parecia distante demais, e ao mesmo tempo perto. Um carro passando. Um latido. O mundo continuando enquanto eu me sentia parada, presa naquela decisão que já não tinha mais volta.
Pensei na minha mãe. Pensei no aluguel. Pensei no menino que eu nem conhecia, mas que já pesava dentro de mim como responsabilidade. E, sem perceber, comecei a chorar baixo, em silêncio, pra não acordar a minha mãe.
As lágrimas escorriam pro travesseiro, quentes, misturadas com o medo e com a esperança. Porque, no meio de tudo, tinha isso também. Uma pontinha teimosa de esperança que não queria morrer.
Rolei de novo, abracei o travesseiro contra o peito e fiquei ali, respirando curto, esperando o sono chegar como quem espera socorro.
Ele demorou.
Mas em algum momento, entre um pensamento e outro, o cansaço venceu o medo.
E eu dormi. Mesmo que leve. Mesmo que com o coração em alerta.
Continua.....
Deixem bilhetinhos ❤️📚❤️