Dionisio
Eu estava na cama, rolando de um lado para o outro, pensando no que Apolo dissera a mim. Eu não era mau humorado por que sentia falta do vinho, muito menos de Ariadne. Talvez esse seja só o meu temperamento normal. De repente comecei a ouvir um barulho baixo. Eu levantei e coloquei a calça do meu terno o mais rápido possível e desci as escadas procurando de onde vinha aquele som. Qualquer pessoa acordada aquela hora já estaria passando do horário de recolher, e iria se ver comigo.
O som vinha de dentro de uma das arenas. A menor e mais afastada. Eu me aproximei e pude distinguir o tipo de música, era instrumental e bem forte, como se estivesse sendo tocada com raiva. Eu entrei na arena e me escondi na sombra. O que eu vi me chocou o bastante para eu não saber o que fazer. As luzes centrais estavam acenas e uma pessoa estava caída no meio da arena. Eu não sabia se era sonâmbula, ou simplesmente maluca. Poderia ser os dois. Filhos de deuses não tinham muita credibilidade, afinal.
Quando decidi me aproximar para acordar a pessoa, a música deu um pulo mais forte e grave e então ela levantou o rosto e é claro, era a filha de Apolo. Eu aguardei seus movimentos e ela foi se levantando devagar com os olhos fechados, como se sentisse a música andando por seu corpo. Ela começou a se movimentar e eu reparei em suas roupas. Roupas de dança, sapatilhas de balé. Ela estava dançando e ficava na ponta do pé enquanto seus braços se movimentavam devagar. Era bonito e triste, principalmente com aquela música.
Ela rodou e eu ouvi seu choro. Depois de um tempo a música simplesmente parou e ela continuou dançando e eu não sabia o que fazer, eu não movia um músculo, mas quando ela caiu no chão e ficou eu fui até ela.
-O que você está fazendo aqui?-ela perguntou confusa e assustada.
-Eu te pergunto a mesma coisa. Você está passando do horário de recolher. Vai virar comida de fúria desse jeito.
-Você estava me seguindo?
-O que eu ganharia seguindo você? Eu simplesmente ouvi um barulho e vim ver o que tinha acontecido.
-Desse jeito?-ela disse olhando para minha barriga.
-Não tive tempo de me vestir apropriadamente... A dança, era bem bonita, por sinal. Você criou esses passos?
-Eu iria dançar numa apresentação em Nova York, e hoje meu pai me disse que não vou mais, então, pensei em dançar para me distrair.
-Se você quiser eu posso ver com Argo para te levar no dia da apresentação.
-Não posso mais ir. Apolo disse que é perigoso demais. Mas mesmo assim, obrigada.
- Bom, eu sinto muito. Agora vamos, você precisa ir para seu chalé, e eu preciso dormir. Sem mais música.-disse pegando em sua mão e a ajudando a levantar. Eu olhava para seu rosto e não via traço algum de meu meio irmão insuportável. Ela tinha uma beleza diferente, não era óbvia, mas estava lá. Sem perceber eu juntei nossos lábios e quando percebi, nos separei, ela estava chocada e eu fiquei sem graça.
Ela me olhou nos olhos e o que antes era choque tinha se transformado em outra coisa, ela me puxou pelo pescoço e eu encontrei um caminho livre para seus lábios. Ela tinha gosto de hortelã na boca e passava as mãos pelo meu abdômen me arrepiando. Já tinha se passado um tempo desde que eu não ficara com alguém. Não é como se eu tivesse muito contato com mulheres da minha idade. Interrompi o beijo e Sofia estava sem ar, ela riu e cambaleou, quase caindo outra vez.
Depois de três dias em um lugar estranho, conhecer o pai e beijar um deus, talvez ela estivesse muito cansada mesmo. Peguei ela nos braços e ela dormiu, quando cheguei ao chalé, demorei para achar a cama dela e a deitei. Saí de lá pensando no que eu tinha feito, não sabia se ficava feliz pelo beijo correspondido ou se me odiava por beijar uma menina de apenas 19 anos.
Que necessidade de uma bebida agora, e não precisava nem ser vinho dessa vez.
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Sofia
Ele tinha me visto dançar. Ele me beijou e eu o beijara de volta. Eu não disse nada, mas tinha sentido alguma coisa quando nossas bocas se tocaram. Quando pensava nisso, me repreendia, Dionísio era um Deus e era quase tão velho quanto meu pai, mesmo que não parecesse. Agora ele nao me encarava e não disse nada sobre nosso pequeno encontro na arena.
Já tinham se passado semanas e ele em nenhum momento entrou no assunto comigo, muito menos veio falar alguma coisa. Nada. Um completo tratamento de silêncio. O que ele queria? Um pedido de desculpas? Ele me beijou primeiro então não daria esse gostinho a ele. Mesmo que eu o tenha beijado também, foi ele que começou. Eu tentei me afastar dessa idéia o bastante para me focar no acampamento.
Minhas habilidades no arco estavam muito melhores e eu tinha conhecido muita gente nova. O Sky tinha 12 anos, era filho de Deméter e era tão bobo quanto um adolescente poderia ser; Théia tinha 14 e era filha de Hefesto e era uma menina muito engraçada; Gustave tinha 9 e era filho de Afrodite e sempre via o melhor lado das coisas. Por eu ser a campista mais velha, eles vinham conversar comigo sobre qualquer coisa, e por eu ser a campista mais nova, pedia ajuda deles em todas as aulas e eles riam das minhas habilidade mínimas. Alguns até treinavam comigo e eu não parava de rir de suas brincadeiras. Sempre quis ter irmãos, e agora, sentia como se tivesse uma família enorme.
Quiron disse que faríamos uma viajem ao Olimpo e que apenas três campistas de cada chalé iriam. Os campistas passaram o dia inteiro enchendo o saco do centauro, que esperava enquanto Dionísio fazia a seleção. No final da tarde ele liberou a lista e lá estávamos nós, Wes, Ruby e eu. Daniel e Ash também iriam e fomos arrumar as malas. Iríamos partir na manhã seguinte e Argo nos levaria em sua van. Argo fez duas viagens para levar todos os campistas para Nova York e depois de três horas, estávamos todos de frente para o Empire State Building. Olimpo, aí vamos nós!
Doze campistas apertados no elevador, aquela ideia não era muito boa. Eu tinha ido com meus irmãos na primeira leva e quando o número acima da porta marcou 200° eu já não sentia meus braços. A musiquinha de fundo não era muito feliz e nós estávamos em completo silêncio. Mais alguns minutos e então, as portas se abriram. Algumas daquelas pessoas talvez já tivessem ido ao Olimpo antes e portanto, não estavam tendo a mesma reação que eu. Eu por outro lado estava totalmente maravilhada com tudo à minha volta.
As construções de mármore que brilhavam com cada raio de luz solar, as ruas, com suas pessoas andando e conversando como se nada demais estivesse acontecendo, é só o Olimpo. Lá atrás uma cachoeira que saía do nada e ia para lugar nenhum, tudo era lindo, colorido e muito brilhante, como uma luz que se você focaliza durante muito tempo te cega.
-Nossa, não acredito que estamos no Olimpo. - Disse andando pela rua devagar. Quiron disse para não nos afastarmos e esperarmos nosso pai que viria nos buscar.
—E então, o que achou?—Ruby perguntou sentada na beirada de uma cerca na rua.
—Simplesmente maravilhoso. Perfeito.—falei rindo e bagunçando o cabelo dela, Quiron ia se afastando com o segundo grupo.—Vem, vamos andando. Apolo já deve estar chegando.