Dante Castellini
Depois do jantar, Charlotte me lançou aquele olhar que eu já conhecia bem. Ela cruzou os braços e inclinou a cabeça, com aquele sorriso insinuante.
- Que tal aproveitarmos a noite, amor? – ela perguntou, deixando claro que tinha outros planos em mente.
Respirei fundo. Eu sabia onde isso iria dar. Olhei para ela e falei, calmo, porém firme.
- Charlotte, eu vou ficar com o Lucca. –
a expressão dela mudou na hora, o sorriso desaparecendo como se eu tivesse acabado de dizer algo absurdo.
- Dante, você sempre dava a atenção devida pra mim. Agora tudo mudou... –
cruzei os braços, cansado dessa conversa.
- Eu sempre fui assim, Charlotte. Desde o início, você sabia que o Lucca é minha prioridade. O que mudou é que agora você está vendo problema nisso.
Ela abriu a boca para retrucar, mas eu ergui a mão, encerrando a discussão.
- Por que você não vai para casa? Amanhã conversamos.
Charlotte recuou, surpresa com a minha frieza. O rosto dela se contorceu em uma mistura de frustração e decepção, mas, como sempre, ela se recompôs.
- Eu só queria um tempo com você, amor. Desculpa se pareceu cobrança... – ela se inclinou para me dar um beijo, e eu deixei, mas não correspondi.
- Amanhã a gente conversa, Charlotte.
Ela me olhou por um momento, como se esperasse que eu mudasse de ideia. Mas, quando percebeu que eu estava decidido, pegou a bolsa e foi embora.
Assim que a porta se fechou, suspirei.
Tudo parecia virar uma cobrança ultimamente. Charlotte sabia desde o início que o Lucca vinha em primeiro lugar na minha vida, e eu nunca escondi isso. Ela decidiu ficar comigo, então não podia agora agir como se não soubesse onde estava se metendo.
Subi as escadas em direção ao quarto do meu filho, sentindo o peso da responsabilidade, porém, também o conforto que só ele me trazia. Ao abrir a porta, encontrei Lucca sentado no tapete, brincando com alguns blocos coloridos enquanto Clara o observava.
- Ei, campeão. – chamei, com um sorriso. – O que acha de passar um tempo comigo agora?
Os olhos dele brilharam na mesma hora, e ele veio correndo para o meu colo, se jogando em mim com aquele jeito desajeitado e cheio de amor que só uma criança consegue ter. Ele gargalhou quando eu o segurei firme e o joguei levemente para cima.
- Clara, pode descansar. Eu cuido dele agora.
Ela sorriu, assentiu e saiu do quarto.
Carreguei Lucca até o meu quarto, onde ele se acomodou na cama, abraçado ao seu cobertor favorito.
- Quer ver um desenho enquanto eu tomo banho, campeão? – perguntei.
Ele assentiu, já completamente absorvido pela animação colorida na tela. Deixei a porta do banheiro entreaberta e liguei o chuveiro. A água quente escorria pelas minhas costas, mas, enquanto tentava relaxar, meus pensamentos voltaram para a entrevista mais cedo.
Lia. Havia algo nela. Uma sensação estranha, como se eu a conhecesse de algum lugar. Aqueles olhos... eles eram tão familiares. Por mais que eu tentasse afastar esse pensamento, ele continuava voltando, incômodo e persistente, como uma memória à beira de se revelar.
Sacudi a cabeça, tentando afastar essa sensação. Talvez fosse só impressão. Talvez fosse cansaço. Ou talvez fosse mais do que isso.
Fechei o chuveiro e me enrolei na toalha, indo para o closet. Peguei uma calça de moletom e a vesti sem camisa. Voltei para o quarto e me deitei ao lado de Lucca, que ainda assistia ao desenho com olhos fascinados.
Ele se virou para mim, apoiando o queixo no meu peito.
- Papai... – começou, em sua vozinha curiosa. – Aquela moça, a Lia... ela vai ser minha nova babá?
Sorri, achando graça na forma direta como ele perguntava as coisas.
- Ainda não sei, filho. Por que está perguntando?
Lucca fez uma pausa, como se estivesse pensando bem antes de responder.
- Eu gostei dela. – ele finalmente disse, com uma seriedade adorável para uma criança de quatro anos. – E ela tem um cheiro bom.
Tentei segurar o riso. A inocência dele sempre me desmontava.
- É mesmo? – perguntei, acariciando seus cabelos. – Você quer que ela seja sua babá?
Ele assentiu, os olhos brilhando de expectativa.
- Quero.
Meu peito se apertou com a sinceridade e o afeto na voz dele. Era raro o Lucca gostar de alguém logo de cara. Ele era mais reservado com estranhos, e, ainda assim, com Lia, ele se sentiu à vontade quase que imediatamente.
- Vou pensar nisso, campeão. – prometi, abraçando-o.
Ele se aconchegou contra mim, segurando o meu braço como se eu fosse a coisa mais segura do mundo para ele. Enquanto eu o mantinha em meus braços, um pensamento desconfortável voltou a me atormentar: um dia, Lucca iria me perguntar sobre a sua mãe. E eu não fazia ideia do que dizer a ele.
Meu avô sempre me dizia que eu nunca me importei em guardar memórias dela, que joguei fora qualquer lembrança que tivesse quando terminamos. Mas, depois do acidente, tudo se tornou um borrão. O pouco que talvez eu lembrasse dela desapareceu com o tempo, e isso me deixava frustrado. Como eu poderia explicar para Lucca sobre uma pessoa que eu mesmo não conseguia lembrar?
Ele merecia respostas, e eu não tinha nenhuma.
- Papai... – a voz dele veio baixinha. – Você vai dormir comigo?
- Claro que sim, campeão. Estou aqui.
Ele sorriu, fechando os olhos com aquele ar tranquilo de quem sabe que está seguro. Apertei-o mais um pouco contra mim, sentindo seu corpinho relaxar. Havia algo sagrado nesses momentos com ele. Nada no mundo importava mais do que isso.
Enquanto ele adormecia nos meus braços, meu pensamento voltou para Lia. Por que ela parecia tão familiar? Por que Lucca se conectou com ela tão rápido? Essas perguntas me deixavam inquieto, mas agora não era hora de pensar nisso.
Desliguei a tv, apaguei o abajur, e fechei os olhos e me permiti aproveitar o momento. Amanhã seria um novo dia, com novas decisões para tomar. Mas, por enquanto, tudo o que importava era que eu estava com o meu filho.
E isso era suficiente!