III
A defesa dos oprimidos
É óbvio que eu não tinha esquecido os livros da minha mãe. Espero Claire e Bridget irem dormir e pego os livros sob o meu colchão. Na fraca luz do abat-jours, as frases começam a clarear para mim. O título do primeiro livro que peguei é A Herança, de M.G. Morrison, uma autora desconhecida no meu tempo e, certamente, aposentada ou morta. As primeiras frases já me cativam. Ela discorre sobre uma mulher empoderada, dona do próprio nariz e que decide se hospedar em um hotel fazenda no Texas. Obviamente, um homem maravilhoso já aparece no primeiro capítulo e a descrição de seu corpo e jeito me fascinam. Então, eram esses os livros que mamãe quis queimar? Mas restaram muitos. Perco a hora lendo e, algumas vezes, relendo algumas frases no silêncio do quarto. Sinto um frio na barriga cada vez que o tal j**k aparece, com seus músculos a mostra, sobre um cavalo chucro e o sorriso de dentes brilhantes que ele mostra.
Então era assim que as mulheres na época da minha mãe queriam que os homens fossem? Mas, na verdade, a aventura e fantasia sensual se limitavam aos livros. Os homens não são confiáveis. Aprendi isso com a minha mãe e as colegas da escola, logo quando pequena. O que me incomoda é que muitas mulheres também não me parecem confiáveis. O Feminismo que se tornou conteúdo importante em Ética no ano de 2.040, nos ensina que nossos direitos são iguais aos dos homens e que somos muito importantes, apesar de em maior número no mundo. Por isso, há muitos bancos de sêmem, caso alguma mulher se interesse em ser mãe, se puder pagar a taxa ao governo.
E porquê eu tenho tanta curiosidade em saber como é um homem de verdade? Passo horas pensando nisso quando não estou trabalhando. Eu penso em ser mãe, apesar das opiniões contrárias. Todas dizem que deforma o corpo, que só dá despesa, que já somos muitos. Sinto-me triste de saber que posso morrer sem deixar um descendente do meu sangue no mundo.
Desde que os vírus nos afetaram muito há 32 anos, passamos a nos relacionar menos com as pessoas. Quando finalmente a Humanidade e as grandes farmacêuticas conseguiram erradicar o vírus, nos reproduzimos como coelhos. O Baby Boom levou vários países como o meu, a adotar uma medida de controle de natalidade tão severa que fomos separados. Não existem mais casamentos, os nascimentos são controlados pelo governo e as ondas de notícias sobre o quanto é caro o imposto para casar assustam a todos. Minha mãe costumava contar o quanto eram bonitos os casamentos na igreja, os vestidos brancos de noiva e a felicidade de ter uma outra pessoa do gênero oposto dividindo a cama de noite. Porém eu nasci na época do medo. Por isso, aquele homem ali, presente na lavanderia me representou perigo. Algumas feministas radicais e que foram até presas por suas ideias também nos disseram que o homem é perigoso e que devemos ter cautela ao lidar com um. Os espaços são divididos nos restaurantes, metrôs, ônibus e qualquer lugar onde possam coexistir homens e mulheres. Como eu poderia me tornar mãe numa atmosfera daquelas? Porém isso não impediu que Brian, o homem da lavanderia, me mostrasse um lindo sorriso ontem. Nada disso me impediu de retribuir seu lindo sorriso, com o coração aos pulos no peito, sem saber de onde vinham aquelas sensações.
Eu não posso mais perder o meu tempo pensando se eu o verei de novo. Ou em como fazer para vê-lo outra vez. Se o acaso quisesse, eu o veria de novo. Resolvo dormir, só para acordar pela manhã sabendo que sonhei com Brian e seu sorriso brilhante como o do cowboy do livro. Faço o café para todas. Claire ainda dorme, mas Bridget está acordada, olhando para fora da cozinha, com uma xícara de café fumegante em mãos. Ela olha para a cidade cheia daquela neve que começa a derreter nas calçadas, deixando tudo sujo e escorrregadio.
— Precisamos limpar a frente do prédio hoje, é nossa vez. — Diz ela, em tom amargurado, jogando o resto do café pia abaixo.
— Triste hoje?
Ela me olha com um olhar furioso. Os olhos verdes faiscam. É impressionante como puxou a mamãe com aquele jeito militar de nos tratar. A sensação que eu tinha ao observá-la é que tem muitas coisas por baixo daquela camada de p******o.
— Eu nunca estou triste, Kim, estou cansada dessa neve. Ainda bem que está derretendo. Logo as máquinas vêm para jogar sal nessa neve, ainda bem.
— Hum...
É o que me limito a responder, rumando para buscar uma caneca de café para acordar do sonho que ainda estava em minha mente. Ela sai pela porta para pegar pás no porão do prédio e eu caminho para meu quarto, para um novo dia de trabalho. Mas eis que a porta do quarto de Bridget está aberta e eu olho para dentro despretensiosamente enquanto passo. Vejo um livro da mamãe sobre sua cama. Detenho meu passo e olho para trás. Adentro seu quarto com cuidado e vejo que é um livro de Literatura Feminina do baú de nossa mãe. O que me faz questionar do porquê Bridget brigou tanto comigo se pegou livros também? Ela gosta de fazer tudo escondido, no silêncio de seu quarto e nunca sei qual Bridget vou encontrar de manhã. Hoje encontrei uma Bridget que mente para nós. Sinto raiva pela sua dissimulação, mas ouço passos na escada e saio rapidamente de seu quarto em direção ao meu. Por sorte, ela não me vê.
Fecho a porta e me sento na cama, indignada e enganada. Decido nunca mais contar nada às minhas irmãs. Não importa o quanto eu me explique, elas sempre me darão sermões que não seguem, visto por aquele livro na cama da mais velha. Pego o livro e olho sua capa mais uma vez. M. G. Morrison. Ela pode estar viva, ter sobrevivido às pandemias e ainda ser jovem o suficiente para me contar como era aquela época. Ouço passos no corredor, enfio o livro debaixo das minhas pernas. Bridget abre minha porta.
— Já busquei as pás, vou acordar a Claire e vamos limpar logo essa frente, levanta daí.
— Acorda ela primeiro, eu já vou.
Ela ainda fica alguns segundos me observando e fecha a porta. Pego o livro sob minha perna e folheio as páginas iniciais para encontrar algum endereço que possa me levar a M. G. Morrison. Há um endereço da Editora. Já pode ter falido há tempos, assim como quase tudo daquela época. Ouço Claire acordando e caminhando pelo corredor em direção a cozinha. Visto minhas pantufas quentes e um casaco pesado para sair á rua. Guardo o livro sob o colchão novamente e saio do quarto. Quando passo pela porta do quarto de Bridget, o livro não está mais sobre a cama, mas o olhar dela é de culpa. Rapidamente, minha irmã passa por mim e me entrega uma pá quase me empurrando.
— Vamos logo com isso, pois preciso trabalhar. Claire! — Ela dá um grito que quase me ensurdece.
Pego a pá de sua mão com raiva. Desde quando minha irmã ficou no lugar de minha mãe? Eu não tenho qualquer obrigação de obedece-la, sou apenas quatro anos mais nova que ela. O que não é nada. Desço as escadas do prédio enfurecida e alcanço a rua. Há montes e montes de neve na frente do prédio e aquilo precisa ser removido. Em uma reunião entre moradores, ficou acordado que teríamos turnos para fazê-lo. É nosso dia na semana de remover parte da neve. Que trabalho maçante! Pessoas passam por mim, em sua maioria mulheres. Não é novidade para elas que fazemos isso, pois quase todos fazem em sistema de rodízio e o que mais me alegra é que a neve está derretendo já que a Primavera está chegando. É Janeiro. O clima mundial enlouqueceu um pouquinho nos últimos anos, com uma elevação de mais 2 graus na crosta terrestre. Nada foi feito para barrar o aquecimento global, há pouco gelo nas geleiras do Ártico, o que significa que só conhecemos agora os ursos polares por fotografias e zoológicos. As algas marinhas tomaram conta do fundo dos oceanos. Elas não dependem das águas geladas como as morsas e ursos. A floresta amazônica, uma das fontes de oxigênio puro do planeta foi quase devastada. Isso impacta minha vida diretamente? Claro, eu preciso remover tanta neve com uma pá da calçada porque o clima está tão louco que neva intensamente em algumas partes, por mais de dez dias no mês enquanto em outras partes do planeta, há inundações e queimadas. Nós precisamos mesmo cuidar da super população. 11 bilhões de seres humanos nesse planeta não é aceitável. Todos querem ter de tudo. Iphones de última geração, notebooks sem teclado, televisões de plasma que ocupam metade de uma parede, entre outras coisas caras que nos divertem da nossa realidade. Estamos morrendo. Sufocados. Porém ninguém faz nada. Assistimos passivamente nossa lenta morte. Eu sou uma única pessoa que faz o seu dever, separo o lixo reciclável, compro o necessário à minha existência e procuro não pensar em supérfluos. Contudo, sei que nem todos são assim. E a única arma do governo para nos parar é o controle de natalidade. Quanto menos gente no planeta, menos gasto. Mas porque só pensaram nisso na minha geração? Estou com raiva. Quero saber como era a vida antes do caos. Enfiei na cabeça que preciso conhecer aquela escritora, pois os mais velhos não conversam comigo. Retiro toda a neve da parte que me cabe na calçada e a empurro para o meio-fio, já que a prefeitura vai jogar sal para derreter mais rapidamente. Claire faz tudo lentamente, com sono e uma certa depressão. Bridget é agitada. Ela termina e já sobe para o apartamento para começar a trabalhar. A responsável pelo almoço hoje é Claire.
Quando estou quase terminando meu trabalho, ouço gritos na rua. Olho para trás, assim como Claire e vemos duas pessoas correndo de um grupo de pessoas, que grita “Assassinos”, “vocês vão pagar”! Eu me assusto com aquilo, porém os dois se detém bem em frente a nosso prédio, só que do outro lado da rua. A turba de umas vinte pessoas para perto deles, ainda gritando. Eles ficam mais nervosos e raivosos. Claire pega meu braço, me puxa para entrar, mas comenta.
— Deve ser um casal, devem ter sido pegos! Vamos entrar.
O absurdo da situação me choca. Como as pessoas podem querer atacar outras por serem um casal? Eles tem o direito de viver suas vidas e pagar o preço por isso. Quando vejo duas mulheres tentarem bater na moça, solto meu braço das mãos de Claire e atravesso a rua. Ela grita muito alto.
— Hey! Hey! Vocês não tem vergonha?! Deixem eles em paz!
— Garota, volta para casa, ela precisa aprender uma lição!
— Bater nela vai ensinar uma lição? O que são vocês agora?! A polícia?!
— Cala a boca, traidora! — Grita uma delas.
O rapaz me olha com ar assustado, porém surpreso.
— Não fizemos nada, eu só conversei com ela no parque! Conversei!
— Conversou com intenções!
— Não! — A moça gritou.
Não houve jeito. A bela moça ruiva, que aparenta uns 19 anos, recebe um puxão de cabelos da mulher mais raivosa do grupo. Os demais se limitam a gritar. O rapaz intervém, eu intervenho, levo um soco no rosto. Claire se mete e me puxa da confusão. A polícia chega rapidamente com sirenes ligadas. Policiais saltam do carro com cassetetes nas mãos e armas de choque.
— Todos! Para suas casas! Agora!
Os agressores começam a se afastar do casal. Porém, o pior acontece, a polícia passa a interrogar o rapaz. Ele está tremendo muito.
— Senhor, queremos saber se os senhores tem uma relação pública.
— Não! — Ele ergue a cabeça e os encara — Eu apenas conversei com ela no parque, eu disse isso a eles e ela também!
— Não se pode conversar com mulheres no parque e sabe disso, a multa por abordar mulheres na rua...
O policial saca um celular e pergunta o email do rapaz. A multa é de 120 dólares.
— Como vou pagar isso? Trabalho em uma lanchonete!
— Não queremos saber disso, da próxima vez repense suas atitudes.
Claire me puxa. O rapaz vai embora me olhando, certamente achando que eu sou uma h*****a por ter impedido uma surra no meio da rua. Bridget me alcança. A polícia continua.
— A senhorita está bem? Ele a tocou? — Pergunta o policial para a moça perseguida.
— Não, ele não me tocou!
Ela também está irritada e sai andando em outra direção. Ela me olha e agradece com um movimento de cabeça. Bridget puxa meu braço, eu me deixo puxar. A situação é tão inconcebível que m*l posso acreditar no que presenciei.
— Você é louca? Gosta de ser revolucionária? — Pergunta minha irmã.
Solto meu braço com força.
— Talvez eu goste!
— Vai se juntar aos idiotas revolucionários que ficam nos guetos falando para as pessoas que elas não devem obedecer o governo?!
— Eu devia fazer isso! Porque não sei quando nos tornamos pessoas que agridem as outras porque querem se relacionar!
Os olhos de Bridget chispam de ódio. Ela inteira se treme. Eu sei que quer meu bem, mas não pode escolher por mim. Ela não pode determinar a minha vida. Ela não é o governo, ela não é minha mãe.
— Melhor ser revolucionária do que hipócrita! — Aquela frase dura salta da minha boca.
— Do que está falando, Kim? — Pergunta Claire — A vizinhança está nos olhando. Vamos entrar?
— Ela sabe do que eu falo. E se faz de santa. — Retruquei baixo.
Bridget deve ter se lembrado do livro, pois era aquele livro em sua cama a que eu me referia. Subo as escadas com pressa e com raiva. Ainda ouço Claire me chamar, mas não tenho a menor vontade de responder ao chamado da minha irmã. Tranco-me em meu quarto, com raiva e busco o livro sob o colchão. Procuro a página com o endereço da Editora e a r***o. Começo, então a me vestir, ouvindo minhas irmãs batendo em minha porta. Quando abro a porta, elas me olham de cima a baixo.
— Onde vai?
— Eu vou sair!
— Não vai não! — Grita Bridget começando a chorar. Quando ela não ganha as discussões no grito, apela para nosso lado emocional — Onde você vai?
— Conhecer uma amiga que fiz na internet.
Saio de casa sentindo o coração palpitar. Fecho a porta atrás de mim pronta para desbravar o mundo. É muito difícil sair de casa. Tudo é muito caro, há neve e nunca fui ao outro lado da cidade. Respiro fundo, tentando me acalmar. Olho para minhas botas. Não sei porque olhar minhas botas me acalma. Talvez seja o fato de que elas estão no chão. O chão que é real e que aquieta minha ansiedade. Olho para a porta do outro apartamento e vejo que alguém me olha pela fresta.
— Seu lábio está sangrando. — Diz a vizinha Greta, de vinte anos.
Toco meus lábios com a luva e me certifico de que o que ela diz é verdade.
— Eu recebi um soco. — Sussurro para Greta.
— Eu vi tudo. — Ela murmura.
Logo ouço sua mãe a chamar e dizer que não deve falar comigo. Pouco me importa se todos viram que eu impedi um linchamento. Pouco me importa se ninguém faria nada para impedir uma injustiça. E pouco me importa se escolhem falar comigo ou não. Eu não dependo da aprovação de vizinhos para viver minha vida.
Finalmente saio do prédio, morta de ansiedade, porém seguindo o sonho de achar aquela escritora e ouvir um pouco do passado.