Com os olhos fixos na tela do computador, Mikelli mantinha os dedos sobre o mouse, apreensivo e tenso. Fabriccio, Xavier e Jimmy estavam de pé atrás do amigo, todos muito atentos, na expectativa de que o amigo encontrasse o ultimo sniper escondido entre as construções.
- Corre cara, o círculo vai fechar de novo – Falou Fabriccio afoito.
- Deixa o cara se mover primeiro – Ponderou Xavier
- Olha lá
- Atira...
- ATIRA, p***a – Xavier gritou com as duas mãos na cabeça.
- Eu não acredito que você perdeu essa – Bufou Fabriccio revoltado – Ele estava na sua frente.
- E eu na frente dele – Zombou Mikelli ainda contrariado pela derrota.
- Vamos jogar outra partida – Disse Jimmy se sentando novamente na frente de seu notebook.
- Eu tô com fome – Falou Fabriccio abrindo a geladeira. A campainha tocou.
- Abre aí mano, deve ser o novo colega de apartamento – Falou Mikelli enquanto escolhia as munições que usaria durante a partida.
Pegando um pedaço do resto de pizza que tinha na geladeira, Fabriccio seguiu em direção a porta e a abriu. Por um breve momento o rapaz permaneceu parado, com a porta aberta sem dizer uma única palavra, apenas olhando embasbacado para uma garota loira de beleza exótica.
- Esse é o apartamento da Mikelli? – A garota perguntou com um sotaque pesado na voz.
- E aí mano, é o Danya? – Mikelli perguntou com o cenho franzido, olhando em direção a porta aberta, sem entender o que prendia a atenção de Fabriccio com tanta força.
Uma garota loira, naturalmente loira, com cabelos soltos e lisos que desciam até a curvatura da cintura delicada, olhos que mais pareciam duas safiras vivas, estava de pé diante de Fabriccio, que permanecia com a boca aberta e a pizza esquecida na mão.
- A Mikelli mora aqui? – A garota repetiu a pergunta ignorando Fabriccio.
- Não... quer dizer... Eu sou Mikelli. O Mikelli, não a Mikelli – Explicou se sentindo um i****a.
- O que foi? – Curioso, Xavier também se aproximou da porta e ao ver Danya empurrou os dois amigos e estendeu a mão para a moça – Eu sou Xavier Guerrero, tudo bem?
- Esse é o apartamento que aluguei ou não? – Danya perguntou ignorando a mão estendida de Xavier.
- É sim, mas eu achei que você fosse um rapaz... – Mikelli viu suas palavras morrerem na boca, quando a garota os ignorando entrou no apartamento e começou a avaliar a sala, onde um rapaz ruivo permanecia sentado com sua atenção no notebook a sua frente. A pia e a geladeira diziam que a cozinha e a sala se separavam apenas por uma mesa simples com quatro cadeiras e um jogo de sofá de couro preto, aparentemente velho e aconchegante.
- Você tinha dito que morava sozinho – Ela observou.
- Ah, eles não moram aqui.
- Qual é o meu quarto? – Ela perguntou olhando para as duas portas fechadas a sua frente.
- O da esquerda é meu – Mikelli coçou a cabeça sem saber como explicar para a garota que ela não podia ficar.
- Então esse deve ser o meu – Ela concluiu satisfeita, abrindo a porta do quarto, mas antes de entrar ela voltou-se na direção dos rapazes e olhou novamente para Mikelli.
- Você deveria especificar que era homem no anúncio. O seu nome parece de mulher – Dito isso ela entrou no quarto e fechou a porta.
Fabriccio era um italiano gordinho de vinte e três anos, a pele branca e os cabelos caracolados pretos e curtos.
- Ela é a garota mais linda que eu já vi na minha vida – Admitiu Fabriccio enfeitiçado.
- Ela não gosta de latinos? Não apertou a minha mão – Choramingou Xavier, um mexicano de um metro e sessenta, cabelos escuros lisos e espetados, sobrancelhas fartas, com traços indígenas bem-marcados.
- Como é que eu vou explicar pra ela que ela não vai pode ficar aqui? – Mikelli perguntou sem tirar os olhos da porta fechada.
Mikelli também era italiano, tinha vinte e dois anos. Era o mais alto ali, com seus 1,80 cm de altura, mas o porte físico magro não contribuía com sua aparência. Assim como Jimmy, o único que realmente era americano ali, Mikelli também usava óculos de grau, denunciando sua aparência de nerd. Os cabelos de Mikelli eram castanhos escuros, curtos e levemente ondulados.
Jimmy era ruivo e tinha sardas, era magro e desajeitado, ainda usava aparelho nos dentes e era o mais novo do grupo, com seus vinte anos.
- E aí, vocês não vão jogar? – Perguntou Jimmy olhando para os três amigos parados no meio da sala.
- Mikelli vai morar com a mulher mais gostosa que eu já vi na vida – Falou Xavier com um sorriso obsceno.
- Mulher? – Jimmy levantou da cadeira sem entender.
- Olha como fala i****a, a garota pode ouvir lá do quarto – Reclamou Mikelli com a voz baixa e impaciente.
- Não pode mandar ela ir embora cara – Fabriccio protestou – Ficou doido? Ela é nossa.
- Oi? – Mikelli fitou o amigo boquiaberto.
- Se ela foi mandada pra nós, isso quer dizer que é nossa, tipo, será de um dos quatro. Não podemos deixar que outro b****a da faculdade nos tome ela.
- É claro, é uma questão de honra. Já imaginou o b****a do Derek, ou o Mark entrando aqui no seu apartamento e dormindo com a garota embaixo do seu teto? – Perguntou Fabriccio com uma carranca, as sobrancelhas quase juntas, no rosto redondo.
- Isso não pode acontecer – Avisou Xavier – Se algum daqueles idiotas aparecerem aqui, nós nos juntamos e damos uma surra neles e depois espalhamos pra todo mundo.
- Qualquer coisa, a gente põe laxante nas cerveja deles – Sugeriu Jimmy.
- Parem de falar m***a, caramba. Vocês estão loucos? Essa garota não pode ficar aqui. Meus pais são judeus, se chegarem aqui e me encontrarem morando com uma mulher, eu serei deserdado.
- Ah, para com isso – Xavier bateu a mão no ar, sem acreditar no que estava ouvindo – Não tem três dias que você estava tentando comer a Lídia, sorriso de ferro.
- Eu iria para o inferno sorrindo, só para poder ficar cinco minutos olhando para aquela coisinha linda – Garantiu Fabriccio.
- Você é um b****a. Já te falei que só queria o caderno da garota emprestado – Mikelli fez uma careta para Xavier.
- Você é um i****a. Deixa de ser frouxo. Essa loirinha ai tem que ser sua.
- Talvez ela já tenha namorado – Alertou Xavier.
- Quem se importa? – Perguntou Fabriccio – Sua meta será conquistar essa garota – falou apontando para Mikelli que prontamente balançou a cabeça em negativa.
- Se quer dar em cima da garota, fica a vontade, fora desse apartamento, é claro. Eu já tenho noiva e não vou me meter em confusão.
- Uma noiva que você nunca segurou na mão – Zombou Xavier.
- Não me envolvo com garotas que não são da minha religião e não me importo com o que pensam.
- Conversa de perdedor – Acusou Xavier e tanto Fabriccio, como Jimmy concordaram.
- Vai dizer agora que nunca dormiu com uma garota que não fosse judia? – Xavier perguntou com cara de descrença e Jimmy com Fabriccio pareceram ansiosos pela resposta.
- Vão a m***a. Não sou obrigado a responder isso.
- Você não acha que sua noivinha é virgem, né? – Insistiu Xavier, provocando o amigo.
- É claro que não – Mikelli respondeu a contragosto, evitando o olhar zombeteiro de Xavier. Odiava quando se sentia um i****a, por tentar seguir a sua crença.
- Ela não é americana – Disse Fabriccio novamente olhado para a porta do quarto da novata.
- Talvez seja ucraniana.
- Ou sueca
- Acho que ela é russa – Falou Mikelli – O sobrenome dela é Zamarov.
- Uauuu... dizem que as russas adoram t*****r. Você vai precisar se alimentar melhor – Falou Xavier sorrindo.
- Conheço um cara que vende suplementos – Falou Jimmy.
- E elas não se importam em sair com caras feios – Garantiu Fabriccio animado – Lembram da Natasha? Aquela loirinha da faculdade de farmácia. Ela namora um china com cara de repolho passado.
- Sim – Concordou Xavier – O cara fede a peixe e dizem que ele não escova os dentes – Todos fizeram caretas.
- Mas o cara é estribado na grana – Ponderou Jimmy.
- Isso é o que ele diz, mas ele só anda com roupas da Chinatown – Disse Xavier.
- Eu não beijaria uma boca suja, nem por um milhão – Fabriccio disse com a boca repuxada para baixo, sentindo a pizza revirar no estomago cheio.
- Ah, para com isso. Homem que é homem chupa até xana suja – Garantiu Xavier.
- Cuidado com a língua i*****l – Mikelli deu um t**a na cabeça de Xavier.
- Uiuiuiu... Já está defendendo a fêmea dele – Fabriccio caiu nas gargalhadas – Cuidado com o Alfa galera.
A algazarra dos garotos seguiu enquanto eles arrumavam a bagunça do apartamento. Mikelli era o único que não morava em uma das repúblicas da faculdade, pois como havia chegado de viagem duas semanas depois do início do semestre, perdeu sua vaga para outro aluno, sendo assim obrigado a alugar um apartamento próximo a um dos campos da faculdade. Com a condição financeira regrada, ele se viu obrigado a dividir o aluguel do pequeno apartamento.
Os garotos eram todos alunos da turma de administração do terceiro ano da universidade de Harvard. Nerds e desajeitados, não eram o tipo de rapazes que atraiam a atenção das garotas da faculdade. Nenhum dos quatro tinha namorada, tão pouco saíam com garotas. Mikelli dizia ter uma noiva judia na Itália, mas não usava aliança e Xavier vivia falando de encontros clandestinos com uma garota que não podia apresentar aos amigos, alegando que o pai era muito ciumento e que ninguém podia descobrir o romance secreto. Ninguém sabia ao certo se acreditava, mas ele realmente parecia o mais experiente com as garotas.