Minha mãe estava fazendo o almoço e já tinha uns dias que ela tinha notado o quanto eu estava diferente, ela disse que eu estava transformado.Bom, eu não sei se poderia usar uma palavra dessas, porque eu continuava o mesmo, não tinha mudado em nada.Apenas tinha me revoltado com tanta injustiça acontecendo diante dos meus olhos.
_Que mochila é essa, Marcos?_ela perguntou, me olhando da cozinha enquanto eu subia as escadas.
_Nada mãe, é do Léo.
_Sei, nunca vi nem você e nem muito menos o Léo com essa mochila._Deixei ela falando sozinha e fui para o quarto.Abri a mochila correndo e tirei as duas pistolas de dentro.Eram prateadas e brilhavam como se fossem pedras preciosas.Na real, eu não sabia muito bem como iria usar aquilo, mas nada que muitos anos assistindo filmes e jogando não pudessem resolver.Talvez isso pudesse soar ridículo, mas era a minha realidade então não tinha muita opção.
Quando segurei uma das duas na mão, a sensação foi indescritível.Parecia que eu poderia fazer qualquer coisa que eu quisesse só por causa daquilo.Eu não queria aquela vida para mim, eu queria uma vida decente.Uma situação estável para a minha mãe, a minha meta sempre havia sido essa.Mas a minha cabeça não conseguia mais pensar em outra coisa a não ser matar o AK, devolver a liberdade da Marcela e consertar as coisas de uma vez por todas.
_Onde você vai, Marcos?_Minha mãe perguntou.
_Mãe, fica tranquila.Vou resolver uma coisa, tudo bem?Eu já volto._dei um beijo em sua testa e ela segurou a minha mão.
_Pense bem no que está fazendo, meu filho.Se cuida._parecia até que ela já sabia exatamente o que eu iria fazer, por mais bizarro que isso pudesse parecer.
Saí pela porta e subi o morro pensando em um jeito de abordar o AK sem que ele estivesse com aqueles 50 homens cercando ele.Ao chegar próximo da casinha onde ele geralmente ficava e produzia suas drogas, eu observei.Talvez pelo horário eles estavam bem despreocupados e alguns até desceram o morro, ou seja, não tinha ninguém cercando o lugar como de costume e essa era a chance que eu tinha de ir até lá.
_O AK está por aí?_perguntei ao único cara que estava parado na porta do lugar.
_O que tu quer com ele?
_Chama ele pra mim, tem como?_ele ergueu a sobrancelha e virou de costas indo até a parte interna da casa.Ele apareceu na porta e veio andando em minha direção, era um cara cheio de tatuagens e enorme, muito maior do que eu.Mas eu não estava ali para ter medo de nada, então aguardei ele chegar até mim.
_E aí, pode falar._ele disse, olhando para os lados.
_Eu quero falar contigo sobre a Marcela._falei, ríspido e pronto para pegar a arma caso fosse necessário.
_Quer falar o que da minha mulher, mano?Não vai me dizer que ela tá me traindo?Vou meter a porrada nela!
_Não mano, o que tu tá fazendo com a garota é desumano.Ta ligado?Obrigar a vender droga, a ficar presa aí dentro contigo.Que p***a é essa?Ela não merece isso, cara!
_E você é quem, o defensor das meninas indefesas? Não tô entendendo._ele disse encostando no muro com os braços cruzados.
_Eu sou o ex namorado dela e me preocupo, não é por nada não, mas o mundo não hora em torno de você e dos seus fetiches, cara.
_Você mora aqui no morro?Vai fazer o que em relação a isso?
_Eu tô te avisando, só deixa a garota ir embora em paz e vai ficar tudo suave._eu disse já ficando cada vez mais irritado, enquanto ele só debochava da minha cara.
_Você simplesmente tá ameaçando o dono do morro por causa de uma b****a?Tu tá de s*******m com a minha cara, não tá ?
_Marcela, cadê você!_comecei a gritar em direção a área interna da casa e nada dela aparecer.
AK já estava puto comigo e eu sabia que isso iria acontecer, mas eu estava preparado.Ele gritou seus comparsas que rapidamente vieram correndo pela viela em minha direção.
_Algum problema, chefe?_perguntou um deles.
_Acho que o amigo aqui não tá entendendo muito bem como funcionam as coisas por aqui._ele disse sacando sua arma.
_Ak, abaixa essa arma!_escutei a voz de Marcela, ela estava vindo em nossa direção com os olhos marejados.O que ele tinha feito com ela?
_Marcela, você está bem?_eu perguntei, chegando perto dela sem nem pensar duas vezes.
_Sai de perto dela, moleque!_ele gritou com raiva.
_Você não é o dono dela!_gritei de volta e ele veio em minha direção, apontando sua arma.
_Eu já perdi muito tempo aqui escutando sua tentativa de ser um super herói, tu não tá vendo que ela não quer ir embora, seu i****a?_Olhei para Marcela que abaixou a cabeça e me olhou como se estivesse implorando para que eu entendesse.
Como assim ela não queria ir embora?Ela havia me pedido ajuda um dia antes e agora ela simplesmente queria continuar ali com aquele canalha que só faltava mata-la?Puxei instintivamente a arma da minha cintura e ficamos frente a frente, um apontando sua arma para o outro.
_O que você está fazendo MC?_Marcela gritou, desesperada.
_Tu é um canalha, mano!_o ódio estava subindo por mim e eu senti que tinha perdido todo o controle da situação.Os comparsas de Ak ficaram assustados, esperando uma ordem do mesmo que me olhava, como se estivesse me desafiando.Para ele, eu era um Zé ninguém.
Eu sabia onde aquilo daria, provavelmente um de nós dois iria morrer.Tudo por causa de mulher, minha mãe diria, se soubesse que eu tinha acabado de levar um tiro do dono do morro por causa da Marcela.E talvez ela tivesse razão, eu não devia me meter em toda aquela confusão, eu deveria ser como os outros caras que simplesmente viam as coisas acontecendo e não faziam nada pra ajudar.
_Se tu for esperto, vai abaixar essa arma agora mesmo._ele disse, mas eu permaneci ali mirando nele, enquanto o ódio me consumia.
_Tu acha que pode fazer o que quiser aqui, mas o mundo não gira ao teu redor.
_MC, vai pra casa._Marcela disse, quase suplicando.
_Ele quer dar uma de herói, deixa ele, vou mostrar o que acontece quando alguém mexe comigo._ele iria apertar o gatilho, nesse momento tudo aconteceu muito rápido.
O grito da Marcela, os caras sem reação, eu só me deu conta de que tinha atirado nele primeiro quando o vi estirado no chão bem na minha frente.
Ele estava morto.
Eu não sabia exatamente como, mas eu tinha acertado no meio do seu rosto.
_MC, o que você fez?!_ela gritou, histérica e eu não sabia se ela estava me agradecendo ou me repreendendo pela minha atitude.
_Eu não sei, Marcela, eu..._não sabia o que dizer, eu estava tremendo.Olhei para os comparsas dele que estavam conversando entre si e permaneci calado, eu já estava com a certeza de que iria ser o próximo a morrer ali mesmo.
_Qual seu nome?_perguntou um deles.
_MC, eu sou conhecido assim aqui no morro.
_MC, ok...E o que a gente faz agora?
_Como assim "o que a gente faz?"?_perguntei, sem realmente entender absolutamente nada do que ele estava dizendo.
_Tu acabou de matar o chefe, o dono de tudo.Isso aqui, significa que agora o chefe é você.Tu tomou o morro dele.
_Isso não é sério, é?O MC não é um bandido!_Marcela disse, assustada e eu, mais ainda.Eu não sabia que as coisas funcionavam dessa forma ali, nunca nem tinha imaginado.
_Então isso significa que..._eu disse, olhando aquele corpo estirado no chão.
_Significa que a gente quer saber o que fazer agora, chefe._elee estavam ali, esperando uma ordem minha e isso era completamente louco para mim.Engoli em seco ao ver que enquanto eu não falasse nada, eles não sairiam dali.Estavam realmente esperando uma ordem minha.
_Bom...precisamos tirar esse corpo daqui.
_Vamos lá então, arrumem essa bagunça, são ordens do MC._disse o mesmo cara, fazendo sinal para os outros._Venha comigo, vou te levar pra conhecer o palácio._ele fez um sinal para que eu o seguisse e eu o fiz, puxando a Marcela junto comigo.
Entramos na viela e no fim dela, me deparei com um casarão luxuoso de dois andares que eu nem imaginava que podia existir ali.No meio daquela favela, todo aquele luxo parecia desproporcional.
_O AK construiu o império dele aqui durante esses anos em que ficou, agora você vai construir o teu._disse o cara abrindo a porta da casa e dando espaço para que eu entrasse.Aquilo ainda não estava fazendo muito sentido na minha cabeça.
_Isso tudo é meu?
_Sim, chefe.A partir de agora sim.
_É simples desse jeito? Ele mata o AK e fica com tudo?_Marcela perguntou, desconfiada.Não podia negar que eu também queria perguntar o mesmo.
_Desde que o morro é o morro as coisas funcionaram desse jeito, você acha que o AK conquistou o poder como?_ele riu._Antes dele, quem comandava o morro era o meu pai.
_Seu pai?_perguntei.
_Meu pai era muito respeitado aqui e ainda se dava muito bem com todo mundo.
_E o que aconteceu com ele?
_Ele e o AK tiveram uma discussão, por um motivo absurdo: um copo de cerveja.Eles estavam num pagode aqui no morro que meu pai tinha organizado e aí a briga foi feia.
_E mesmo depois disso você continuou trabalhando para o AK?_perguntei.
_Trabalho é trabalho e nessa vida ganha quem é o mais forte, não tem jeito.