Laís
Laís se olhava no espelho do banheiro do restaurante pela terceira vez naquela noite. O batom vermelho vibrante destacava ainda mais o brilho em seus olhos castanhos. Vestia um vestido justo, preto, discreto, mas com a f***a lateral que ela sabia usar com perfeição. Estava animada, nervosa e curiosa. Nikolai era diferente de todos os homens com quem já havia saído: reservado, educado, com aquele ar misterioso e uma presença que fazia os outros desaparecerem ao redor.
— Se eu não voltar, é porque fugi com um russo gostoso — brincou para Amélia, antes de sair às pressas.
Nikolai a esperava na frente do restaurante, de pé, impecável num terno cinza escuro. Abriu a porta do carro com gentileza. Laís sorriu, surpresa com o cavalheirismo. Aquilo não acontecia com frequência no mundo real.
— Pronta? — ele perguntou, com a voz grave e o sotaque carregado.
— Sempre.
O jantar foi em um restaurante caro, discreto, escondido entre árvores e paredes de vidro. Laís não sabia como ele descobrira aquele lugar, mas se sentiu em outro mundo. Conversaram pouco — ele era de poucas palavras — mas olhava nos olhos dela com uma atenção que a desarmava. Não parecia o tipo de homem que elogia, mas quando disse “você é linda”, ela sentiu o coração saltar no peito.
Depois do vinho, do jantar sofisticado e da conversa carregada de tensão não dita, ele a levou para o hotel onde estava hospedado. Um prédio luxuoso, onde até o silêncio tinha cheiro de poder. No elevador, os olhos dele a fitaram com intensidade, e Laís soube que não havia mais volta.
Quando entraram no quarto, não houve palavras.
Foram mãos.
Toques.
Beijos.
A noite se desenrolou como uma melodia intensa, e por horas Laís se esqueceu de tudo: do restaurante, da vida difícil, até mesmo de Amélia. Só havia aquele homem estranho e perigoso, que a beijava como se conhecesse seus medos e a tocava como se quisesse apagá-los.
Ela adormeceu nos braços dele, envolta em lençóis de linho branco e a ilusão doce de um romance proibido.
Mas foi ao acordar, sozinha na cama, que a realidade começou a se deformar.
Nikolai estava no sofá, de costas, falando em russo no celular. Sua voz estava mais fria. Profissional. Quando ela se mexeu, ele desligou na mesma hora, mas o que Laís ouviu foi o suficiente para acender um alerta dentro dela:
“Ela não sabe de nada ainda. Mas se mantiver confiança, consigo tirar mais sobre a menina.”
O coração de Laís acelerou. Ela não era estúpida. Aquela “menina” só podia ser Amélia. E ela já ouvira os rumores no restaurante — sobre o homem que vinha todos os dias só para encarar a amiga, sobre os olhos de gelo e o comportamento estranho. Maxin.
— Com quem você estava falando? — perguntou ela, tentando manter o tom leve.
— Negócios — respondeu ele, rápido demais.
Ela se sentou na beira da cama, enrolando o lençol no corpo. Agora o quarto parecia frio, estranho, perigoso.
— Que tipo de negócio?
Nikolai não respondeu de imediato. Ficou de pé, andando lentamente até a janela. Depois suspirou, como se já soubesse que a verdade não podia mais ser adiada.
— Eu trabalho para um homem chamado Maxin Sokolov Um… empresário russo. Ele está interessado em alguém. Uma garota chamada Amélia.
— Interessado como? — perguntou Laís, a voz falhando.
— Ele acha que ela tem conexão com algo do passado. Algo que precisa entender.
Laís se levantou num salto, apavorada.
— Você está me usando pra espionar minha amiga?
— Laís, ouça…
— Não! Você me levou pra cama pra arrancar informações?! — sua voz agora era quase um grito.
Nikolai a segurou pelos ombros.
— Não foi só isso. Eu juro. No começo, sim. Eu precisava saber quem ela era, o que escondia. Mas você... você me pegou de surpresa.
Ela tentou se soltar, mas ele não a machucou. Apenas segurava com firmeza, como se sua voz não fosse o suficiente para que ela acreditasse.
— Desde o momento em que você sorriu pra mim no restaurante… eu comecei a esquecer porque estava aqui. Eu só queria ver você de novo. Ouvir sua risada. Você me fez sentir coisas que eu achei que não existiam mais em mim.
Laís o encarou, ofegante. Uma parte dela queria acreditar. Queria mesmo. Mas a outra parte estava cheia de medo.
— Maxin é perigoso, não é?
Nikolai hesitou. E isso foi tudo que ela precisava para confirmar.
— Se ele encostar um dedo na Amélia, eu denuncio vocês — disse, fria.
— E você acha que a polícia pode protegê-la? — retrucou ele, baixo. — Esse mundo… você não entende o que acontece nas sombras. A sua amiga está em perigo mesmo sem saber. Eu não estou aqui para machucá-la. Estou aqui pra descobrir por quê ela atraiu o olhar dele.
Laís afastou-se, pegando suas roupas espalhadas pelo quarto. Vestia-se com mãos trêmulas.
— Eu não confio em você, Nikolai. Eu posso até ter dormido com você… mas isso não te dá o direito de brincar com a minha vida, nem com a da Amélia.
Ele caminhou até ela, devagar.
— Eu não vou machucá-la. E juro por tudo que tenho… eu não vou deixar ninguém machucar você também.
Ela o olhou nos olhos e, por um momento, viu sinceridade. Mas era tarde.
O encanto da noite tinha se quebrado. E, em seu lugar, restava apenas o medo de que tudo fosse muito mais profundo — e mais perigoso — do que do que ela possa imaginar.
Laís saio correndo do hotel com o coração partido, mas uma vez foi enganada, mas uma vez um homem só queria usar seu corpo.
Lágrimas corria dos seus olhos enquanto o táxi levava ela de volta ao restaurante.
— Talvez eu deva fazer igual a Amélia e não se envolver com homens, Laís pensava enquanto observa os primeiros raios de sol pela janela do carro.
O veículo deixou ela em frente do restaurante que ainda estava fechando, Laís suspira aliviada.