o passado de Amélia

996 Words
Amélia O escritório de Maxin Sokolov estava mergulhado em penumbra. Do alto do hotel mais caro da cidade, ele observava as luzes distantes do Brasil como se esperasse que alguma delas o guiasse de volta ao passado. Mas era o passado de outra pessoa que lhe interessava agora. Era o passado de uma certa mulher que lhe deixará intrigado. Nikolai entrou no cômodo silenciosamente, como fazia sempre, mas havia tensão em seus ombros. Nas mãos, uma pasta parda marcada com um selo vermelho. Maxin virou-se para encará-lo, os olhos cinzentos impassíveis. — Descobriu algo? Pergunto ansioso. — Sim, senhor — respondeu Nikolai, pousando a pasta sobre a mesa. — Amélia Alves. Dezoito anos recém-completos. Brasileira. Sem registros oficiais antes dos nove anos, o que já é estranho. Maxin abriu a pasta. As primeiras páginas eram secas, burocráticas: certidão de nascimento, dados escolares, atestados. Mas ao virar as folhas, o conteúdo começou a mudar. Fotografias em preto e branco, relatórios de assistência social, boletins da polícia. Ele folheava com calma, mas os olhos se estreitavam a cada linha. — A mãe dela, Helena Alves. , foi assassinada quando Amélia tinha oito anos — explicou Nikolai. — Homicídio à queima-roupa. Três tiros no peito, um na cabeça. Sem sinais de roubo ou luta. Execução limpa, rápida. Profissional. — Trabalho de máfia — murmurou Maxin, passando os dedos sobre a foto da mulher morta. — Há alguma conexão? — Ainda não. Mas o padrão é claro. A mãe tinha uma pequena loja de antiguidades. Viveu durante anos acima do padrão que a renda declarada permitia. E, aparentemente, era uma mulher… “conhecida” no meio de alguns figurões. Políticos. Empresários. Maxin franziu a testa. Uma lembrança remota passou por sua mente: uma mulher com olhos tristes, que vendia artefatos em feiras clandestinas de São Petersburgo. Mas a imagem sumiu antes que pudesse agarrá-la. — E a menina? O que aconteceu depois? Nikolai continuou: — Foi levada por uma mulher que dizia ser tia. Não há provas de parentesco. Documentos forjados. O mais provável é que tenha sido uma golpista. Ela saqueou a conta bancária deixada pela mãe da garota. Todo o dinheiro sumiu em poucos meses. Maxin olhou para uma nova foto: Amélia aos nove anos, cabelos bagunçados, os olhos enormes e assombrados. Mesmo tão jovem, havia algo quebrado nela. — Aos quinze anos, Amélia denunciou o marido da “tia” por tentativa de estupro — continuou Nikolai, com a voz mais baixa. — A denúncia nunca chegou à delegacia. Porque ele morreu. Esfaqueado. O corpo foi encontrado na cozinha. Ela estava coberta de sangue. Maxin apertou os punhos. — Ela matou o desgraçado. — Legítima defesa, mas… como não havia provas de abuso, nem proteção familiar, ela foi internada em um reformatório estadual. Três anos ali. Sairia aos dezoito, o que aconteceu há pouco tempo. Houve um longo silêncio. Maxin se encostou na cadeira de couro, olhando fixamente para a foto recente de Amélia em frente ao restaurante, de uniforme. Ela estava sorrindo, mas seus olhos... seus olhos não sorriam. Ele conhecia aquele olhar. Era o mesmo que via no espelho todos os dias. Olhos de quem já tinha sido partido em pedaços. — Acha que ela sabe quem matou a mãe? — ele perguntou. — Duvido. Os registros indicam que ela sequer recebeu acompanhamento psicológico por tempo suficiente. A vida dela foi… sobrevivência pura. Uma criança largada, roubada, abusada e punida por reagir. Maxin ficou em silêncio. Dentro dele, algo se revirava. A obsessão inicial pela semelhança com Katharine agora se misturava a algo novo, mais denso, mais perturbador. Aquela menina não era apenas uma cópia da mulher que o traíra — ela era uma vítima do mesmo tipo de mundo que ele mesmo ajudou a construir. Mas havia um detalhe que Maxin Sokolov não mais ignoraria: ninguém sobrevive ao inferno sem se tornar fogo. — Continue investigando. Quero saber quem era a mãe dela. Quem a matou. E por quê. Se for gente nossa, ou ligada à nossa rede de aliados, eu quero os nomes. — Sim, senhor. — E… — ele parou, encarando novamente a foto de Amélia. — Ninguém encosta nela. Ninguém. Se eu descobrir que algum dos nossos chegou perto demais… eu mesmo corto a garganta. Nikolai assentiu, surpreso. Era raro Maxin demonstrar qualquer tipo de proteção por alguém. Mas ele conhecia bem o chefe. Quando algo entrava em sua mente — ou no coração, mesmo que negasse — ele não deixava escapar. — Vai se aproximar dela? — perguntou o braço direito, com cautela. Maxin demorou a responder. O céu lá fora estava escurecendo, e as luzes da cidade se acendiam lentamente. — Ainda não. Ela está assustada. Confusa. Mas eu já vi mulheres fracas… e ela não é uma delas. — Ele sorriu de lado, um sorriso sombrio. — Não se sobrevive a tudo isso e sai ilesa. Há força dentro daquela garota. Força crua. Selvagem. — Vai usar isso? — Talvez — disse Maxin, se levantando. — Ou talvez eu só queira saber quem ousou tocar no que era dela. Porque se há uma coisa que eu entendo… é vingança. — Ela tem olhos de alguém que deseja vingança, falo enquanto solto a suma do cigarro. E, naquele instante, Maxin Sokolov decidiu que a história de Amélia não terminaria como a da mãe. Não se ela estivesse sob seus olhos. Se o mundo queria roubar dela tudo mais uma vez, ele se colocaria no caminho — não por amor, não por compaixão. Mas porque, finalmente, ele havia encontrado alguém que entendia o gosto amargo da dor. E ele queria ver até onde ela era capaz de ir. Até onde Amélia iria para se vingar do assassino de sua mãe. Maxin Sokolov pensava que era apenas empatia que estava sentindo, mas a forte vontade de vê-la todo dia dizia o contrário, ele já tinha caído nas garras do amor. Agora era questão de tempo para ele se der conta disso.
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