apenas você me acalmar

1027 Words
Amélia O quarto estava silencioso, banhado pela luz suave do amanhecer que invadia através das cortinas entreabertas. O ar ainda carregava o perfume do quarto luxuoso misturado ao cheiro de lençóis usados, de pele, suor e desejo. Amélia acordou devagar. Seu corpo doía em lugares desconhecidos, e o peso de um braço forte sobre sua cintura a manteve imóvel por alguns segundos. Sentiu a respiração quente no seu pescoço e o coração acelerou. Maxin. Ela se lembrava de tudo. Da forma como ele a olhou durante o jantar. Do toque suave que virou desejo, do beijo que queimava, dos suspiros entrecortados, do momento em que disse “sim” com o corpo inteiro. E agora, ali, deitada nos braços dele, sentia uma avalanche de emoções caindo sobre si. Arrependimento. Medo. Confusão. E uma estranha paz. Virou-se lentamente, observando o rosto dele. Maxin dormia, mas mesmo assim parecia tenso. Como se nunca descansasse por completo. Os cabelos escuros bagunçados, a barba por fazer. Ele parecia mais humano naquela posição vulnerável — e ainda assim carregava em si o peso de algo perigoso e incontido. “O que eu fiz?”, ela pensou. A lembrança da noite anterior vinha em flashes: os beijos, as palavras baixas, o cuidado com que ele a tocou quando percebeu que era sua primeira vez. Aquilo o mudou. Ela viu. Maxin não esperava isso. E agora… algo estava diferente. No ar. Nela. Nele. Tentou se mover devagar, mas ele apertou o braço ao redor de sua cintura, ainda dormindo, puxando-a de volta para si, como se seu corpo soubesse que ela pensava em fugir. — Já está tentando escapar de mim? — ele murmurou, com a voz rouca do sono. Amélia congelou. — Eu não sou sua. — Não? — ele abriu os olhos devagar, olhando diretamente nos dela. — Então por que ainda está aqui? Ela desviou o olhar, sentindo a vergonha crescer. — Eu não devia ter vindo. Isso… não devia ter acontecido. Maxin se ergueu um pouco, apoiando-se no cotovelo, e passou os dedos pelo rosto dela. — Você se arrepende? Ela não respondeu. Porque não sabia. Porque o coração queria dizer “não”, mas a razão gritava “sim”. — Você foi a minha primeira vez — disse, por fim, num sussurro. Os olhos dele se fixaram nos dela. Um brilho estranho — quase possessivo — surgiu nas profundezas cinzentas. — Eu sei — respondeu ele. — Eu senti. E agora... Ele a puxou mais para perto. — Agora você é minha. — Eu não sou de ninguém, Maxin — rebateu, com raiva contida. Ele sorriu de lado, como se aquilo fosse uma brincadeira. — Eu sei o que você está sentindo. Confusão. Medo. Mas é porque, pela primeira vez, você não tem controle. E isso te assusta. Ela tentou se afastar, mas ele a segurou com mais firmeza, ainda sem machucar. — Você me envolveu, Amélia. Desde o primeiro olhar. Mas essa noite… essa noite mudou tudo. Você entregou a mim algo que ninguém nunca teve. E isso me deu o direito de te proteger. De te manter perto. — Você agora é minha, toda minha e não vou deixar você fugir, ele fala possessivo. — Isso é errado. Eu não sou um objeto. — E eu não sou um homem comum — ele disse, sério agora. — Eu sou um homem da máfia. Faço o que for preciso para proteger o que considero meu. — E você Amélia é minha. Ela se levantou da cama num movimento brusco, puxando o lençol consigo. Estava nervosa, trêmula. Mas determinada. — Você está me aprisionando com palavras bonitas, Maxin. Você diz que me protege, mas me vigia, me segue, me investiga. Isso não é amor. Isso é controle. Ele se sentou na cama, nu da cintura para cima, o corpo forte coberto de cicatrizes que ela não havia notado antes. — Você quer que eu finja ser um homem normal? Um cavalheiro? Eu matei, Amélia. Eu roubei, torturei, destruí famílias. Eu sou temido em três países. Mas por você… eu sou fraco. Pela primeira vez em anos, eu sinto. E não sei o que fazer com isso. Ela o olhou com olhos marejados. Aquilo era muito para ela. Muito rápido. Muito intenso. — Eu não pedi pra ser sua salvação. Eu só queria ter paz. Ter uma vida nova. Eu fugi de tudo que me feriu. E agora me deito ao lado do perigo, como se tivesse esquecido quem sou. — Você é minha — ele repetiu, com a voz mais baixa. — Não porque eu te possuo, mas porque você me completa. Você me acalma. — Você é minha metade que falta. Amélia sentiu uma lágrima escorrer. Porque, no fundo, parte dela se sentia exatamente assim: em paz ao lado do caos. Mas isso não podia ser certo. Ela pegou as roupas e começou a se vestir em silêncio, mesmo tremendo por dentro. Maxin não tentou impedi-la. Só a observou. — Se sair por aquela porta, eu não vou atrás agora — disse ele. — Mas saiba que não vou desistir de você porque você é minha . Nem fingir que não aconteceu nada. Ela terminou de se vestir, engolindo em seco. — Eu sou livre, Maxin. Só preciso que me respeite. E me deixe decidir quem quero ser... sem me aprisionar com o seu passado. Ele assentiu, calado. Ele acende um cigarro e observava Amélia sair do quarto, como um animal assustado. Amélia saiu do quarto sem olhar para trás, o coração em pedaços. Sabia que havia uma parte dela que ainda queria correr de volta. Que queria ouvir ele dizer “fica”. Mas ela precisava respirar. Precisava pensar. Porque, mesmo que o corpo ainda lembrasse do toque dele como um incêndio que não apagava, o coração sabia que amar alguém como Maxin poderia significar se perder para sempre. Quando finalmente chegou na rua deixou as lágrimas caírem, ela sabia que estava presa aquele, ter se entregado a ele foi impulsivo e irresponsável, agora não tinha mais volta. Mas o pior disso tudo que ela queria este destino. Amélia estava completamente apaixonada.
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