Capítulo 5 — Distância Impossível

648 Words
Karolayne decidiu. Precisava se afastar. Sem desculpas, sem recaídas, sem olhar para trás. Era simples. Ou pelo menos… deveria ser. Assim que a aula terminou, ela foi a primeira a se levantar. Guardou o caderno rápido demais, quase derrubando a caneta no processo, e saiu da sala antes mesmo que alguém pudesse falar com ela. Sem olhar para ele. Sem dar chance. Corredor. Ar. Espaço. Ela respirou fundo, tentando acalmar o coração. “É isso. Acabou”, repetiu mentalmente, caminhando mais rápido. “Sem conversa, sem contato, sem—” — Karolayne. A voz. Atrás dela. Grave. Controlada. E impossível de ignorar. Ela fechou os olhos por um segundo. “Não para… continua andando.” Mas os passos desaceleraram. Traidores. Quando ela se virou, Demétrio já estava perto demais. Como sempre. — O que foi? — ela perguntou, firme… ou tentando parecer. Ele a observou por alguns segundos antes de responder. — Está me evitando. Não era uma pergunta. Karolayne soltou uma pequena risada sem humor. — Não. Só estou seguindo em frente. — Mentira. Simples. Direto. Ele deu mais um passo. Ela recuou. Outro. Até sentir as costas encostarem na parede fria do corredor. Sem saída. O ar mudou. Ficou mais pesado. — Isso não pode continuar — ela disse, olhando direto para ele. — Eu não vou… passar por aquilo de novo. Algo no olhar de Demétrio mudou. Menos provocação. Mais intensidade. — Então me diz como você quer que eu finja que nada aconteceu — ele rebateu, a voz mais baixa agora. Karolayne engoliu seco. — Fingindo — ela respondeu. — Como você fez da outra vez. Silêncio. O impacto foi imediato. Ela viu. Viu no jeito que ele travou o maxilar. Viu no olhar que escureceu. Mas, dessa vez… Ele não recuou. Pelo contrário. Demétrio apoiou a mão na parede, ao lado do rosto dela, impedindo qualquer fuga. — Eu não fui embora porque quis — ele disse, mais perto agora. — E você sabe disso. O coração dela disparou. — Eu não sei de nada — ela retrucou, mas a voz já não era firme como antes. — Sabe, sim. Mais perto. Mais baixo. Mais perigoso. Karolayne desviou o olhar, tentando encontrar força em qualquer lugar… menos nele. — Isso não importa mais. Ela tentou se mover. Ir embora. Acabar com aquilo. Mas a mão dele segurou suavemente o braço dela. Não forte. Mas suficiente. Suficiente para fazê-la parar. — Importa pra mim — ele disse. E havia algo ali. Algo real. Sem jogo. Sem provocação. E isso… Isso era ainda pior. Karolayne levantou o olhar devagar. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Respirações próximas. Sentimentos confusos. Tudo embolado entre passado e presente. — Você não pode fazer isso — ela sussurrou. — Não agora… não desse jeito. Demétrio não soltou o braço dela. Mas também não puxou. Só ficou ali. Como se estivesse lutando contra algo dentro dele. — Então me diz pra ir embora — ele disse, quase em um desafio. — Olhando pra mim. Silêncio. Karolayne abriu a boca. Mas nada saiu. Porque ela não conseguia. Não quando ele estava ali. Não quando tudo dentro dela ainda reagia a ele. Demétrio soltou o ar lentamente. E, por um instante, o controle dele pareceu falhar. — É isso que eu pensei — murmurou. Ele soltou o braço dela. Deu um passo atrás. Mas o olhar… O olhar ainda estava nela. — Você pode tentar se afastar — ele disse. — Mas isso… — fez um pequeno gesto entre os dois — não acabou. Karolayne sentiu o coração apertar. Porque, no fundo… Ela sabia. Ele virou-se e foi embora pelo corredor. Sem olhar para trás. E, dessa vez… Ela não o seguiu. Mas também não foi embora. Ficou ali. Encostada na parede. Tentando convencer a si mesma de algo que já não parecia mais verdade. Que ela conseguiria resistir.
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