Karolayne decidiu.
Precisava se afastar.
Sem desculpas, sem recaídas, sem olhar para trás.
Era simples.
Ou pelo menos… deveria ser.
Assim que a aula terminou, ela foi a primeira a se levantar. Guardou o caderno rápido demais, quase derrubando a caneta no processo, e saiu da sala antes mesmo que alguém pudesse falar com ela.
Sem olhar para ele.
Sem dar chance.
Corredor. Ar. Espaço.
Ela respirou fundo, tentando acalmar o coração.
“É isso. Acabou”, repetiu mentalmente, caminhando mais rápido. “Sem conversa, sem contato, sem—”
— Karolayne.
A voz.
Atrás dela.
Grave. Controlada.
E impossível de ignorar.
Ela fechou os olhos por um segundo.
“Não para… continua andando.”
Mas os passos desaceleraram.
Traidores.
Quando ela se virou, Demétrio já estava perto demais.
Como sempre.
— O que foi? — ela perguntou, firme… ou tentando parecer.
Ele a observou por alguns segundos antes de responder.
— Está me evitando.
Não era uma pergunta.
Karolayne soltou uma pequena risada sem humor.
— Não. Só estou seguindo em frente.
— Mentira.
Simples. Direto.
Ele deu mais um passo.
Ela recuou.
Outro.
Até sentir as costas encostarem na parede fria do corredor.
Sem saída.
O ar mudou.
Ficou mais pesado.
— Isso não pode continuar — ela disse, olhando direto para ele. — Eu não vou… passar por aquilo de novo.
Algo no olhar de Demétrio mudou.
Menos provocação.
Mais intensidade.
— Então me diz como você quer que eu finja que nada aconteceu — ele rebateu, a voz mais baixa agora.
Karolayne engoliu seco.
— Fingindo — ela respondeu. — Como você fez da outra vez.
Silêncio.
O impacto foi imediato.
Ela viu.
Viu no jeito que ele travou o maxilar.
Viu no olhar que escureceu.
Mas, dessa vez…
Ele não recuou.
Pelo contrário.
Demétrio apoiou a mão na parede, ao lado do rosto dela, impedindo qualquer fuga.
— Eu não fui embora porque quis — ele disse, mais perto agora. — E você sabe disso.
O coração dela disparou.
— Eu não sei de nada — ela retrucou, mas a voz já não era firme como antes.
— Sabe, sim.
Mais perto.
Mais baixo.
Mais perigoso.
Karolayne desviou o olhar, tentando encontrar força em qualquer lugar… menos nele.
— Isso não importa mais.
Ela tentou se mover.
Ir embora.
Acabar com aquilo.
Mas a mão dele segurou suavemente o braço dela.
Não forte.
Mas suficiente.
Suficiente para fazê-la parar.
— Importa pra mim — ele disse.
E havia algo ali.
Algo real.
Sem jogo.
Sem provocação.
E isso…
Isso era ainda pior.
Karolayne levantou o olhar devagar.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.
Respirações próximas.
Sentimentos confusos.
Tudo embolado entre passado e presente.
— Você não pode fazer isso — ela sussurrou. — Não agora… não desse jeito.
Demétrio não soltou o braço dela.
Mas também não puxou.
Só ficou ali.
Como se estivesse lutando contra algo dentro dele.
— Então me diz pra ir embora — ele disse, quase em um desafio. — Olhando pra mim.
Silêncio.
Karolayne abriu a boca.
Mas nada saiu.
Porque ela não conseguia.
Não quando ele estava ali.
Não quando tudo dentro dela ainda reagia a ele.
Demétrio soltou o ar lentamente.
E, por um instante, o controle dele pareceu falhar.
— É isso que eu pensei — murmurou.
Ele soltou o braço dela.
Deu um passo atrás.
Mas o olhar…
O olhar ainda estava nela.
— Você pode tentar se afastar — ele disse. — Mas isso… — fez um pequeno gesto entre os dois — não acabou.
Karolayne sentiu o coração apertar.
Porque, no fundo…
Ela sabia.
Ele virou-se e foi embora pelo corredor.
Sem olhar para trás.
E, dessa vez…
Ela não o seguiu.
Mas também não foi embora.
Ficou ali.
Encostada na parede.
Tentando convencer a si mesma de algo que já não parecia mais verdade.
Que ela conseguiria resistir.