Capítulo 2 — Linhas Invisíveis

459 Words
Karolayne tentou prestar atenção na aula. Tentou mesmo. Mas cada palavra que saía da boca de Demétrio parecia distante, como se sua mente estivesse presa em outro lugar… em outro tempo. Nele. No passado. No que ele fez. Ou melhor… no que ele não explicou. Ela apertou a caneta entre os dedos, respirando fundo. Não ia deixar aquilo afetá-la. Não mais. — Senhorita Karolayne. O coração dela falhou uma batida. Lento. Pesado. Ela levantou o olhar devagar, encontrando o dele já fixo nela. A sala inteira virou na mesma direção. — Sim? A voz saiu firme. Mais do que ela esperava. Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios de Demétrio. Não era simpático. Não era gentil. Era… provocação. — Já que parece tão concentrada — ele disse, apoiando-se na mesa — talvez possa explicar para a turma o conceito que acabei de mencionar. Alguns alunos riram baixo. Karolayne estreitou os olhos. Ele estava fazendo aquilo de propósito. Claro que estava. Ela se levantou lentamente, sustentando o olhar dele sem hesitar. — Posso, sim. Ela repetiu exatamente o que ele havia dito minutos antes, com clareza, segurança… e um leve desafio na entonação. Silêncio. Demétrio inclinou a cabeça, analisando-a com atenção. Interessado. — Correto — respondeu, a voz mais baixa agora. Mas o olhar? O olhar desceu por um segundo além do necessário… antes de voltar ao rosto dela. Lento. Calculado. Como se quisesse lembrá-la de algo que só os dois sabiam. Karolayne sentiu o calor subir pelo corpo — raiva… ou outra coisa que ela se recusava a nomear. — Algo mais, professor? — ela perguntou, cruzando os braços. A sala ficou em silêncio absoluto. Demétrio deu um passo à frente. — Cuidado com o tom — disse, calmo demais. — Aqui dentro, existem limites. As palavras eram profissionais. Mas o subtexto? Nada profissional. Nada mesmo. Karolayne deu um pequeno sorriso. Desafiador. — Engraçado — ela respondeu, inclinando levemente a cabeça. — não parecia se preocupar tanto com limites da última vez. O ar mudou. Pesado. Tenso. Perigoso. Demétrio travou o maxilar. Por um segundo — só um — o controle dele vacilou. E ela viu. Viu exatamente o efeito que ainda tinha sobre ele. — Sente-se — ele disse, seco. Karolayne obedeceu… mas não sem antes sustentar o olhar dele por mais um segundo. Um aviso silencioso. Ela não era mais a mesma. E ele também não. A aula continuou. Mas nada ali era realmente sobre a matéria. Era sobre eles. Sobre o que ficou m*l resolvido. Sobre o que ainda queimava por baixo de cada palavra, cada olhar, cada silêncio. E, acima de tudo… Sobre uma linha invisível que ambos sabiam que não deveriam cruzar. Mas que, aos poucos… Parecia cada vez mais fácil de ignorar.
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