A cidade estava iluminada pela chuva fina daquela noite.
Karolayne permaneceu em silêncio durante quase todo o caminho até o cinema, andando ao lado de Ruan enquanto tentava organizar a bagunça dentro da própria cabeça.
Mas era impossível.
As palavras de Demétrio ainda ecoavam nela.
> “Você é minha, Karolayne.”
E pior ainda:
> “Você perdeu esse direito no momento em que me deixou.”
Ela nunca tinha jogado aquilo na cara dele daquela forma.
Nunca.
Mas estava cansada.
Cansada de ser puxada e afastada ao mesmo tempo.
Cansada de sentir que Demétrio a queria… mas nunca o suficiente para assumir.
Ruan percebeu o silêncio dela desde o começo.
Claro que percebeu.
Quando entraram no cinema, ele segurou a porta para ela passar e perguntou baixo:
— Quer mesmo estar aqui?
Karolayne levantou os olhos lentamente.
A preocupação dele parecia genuína.
Leve.
Sem pressão.
Completamente diferente da intensidade sufocante que Demétrio causava nela.
E talvez fosse exatamente por isso que ela respondeu:
— Quero.
Ruan sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de sorrir de leve.
— Então hoje você vai esquecer tudo e só assistir um filme r**m comigo.
Ela soltou uma pequena risada pela primeira vez desde que saiu da faculdade.
E aquilo pareceu aliviar ele imediatamente.
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A sala do cinema estava quase vazia.
Luzes baixas.
Ar frio.
Cheiro de pipoca espalhado pelo ambiente.
Karolayne sentou na poltrona enquanto Ruan chegava equilibrando refrigerante, pipoca e chocolates exageradamente grandes.
— Você comprou comida pra um batalhão?
— Trauma de infância — ele respondeu sério. — Minha mãe dizia que filme sem comida dá azar.
Ela riu outra vez.
Mais leve agora.
Ruan sentou ao lado dela, apoiando o braço na divisória entre as cadeiras.
— Melhorou?
Karolayne olhou para a tela ainda apagada.
Depois soltou um pequeno suspiro.
— Um pouco.
Ruan observou ela em silêncio por alguns segundos.
E então perguntou:
— Foi ele que te deixou assim?
O coração dela apertou imediatamente.
Ela desviou o olhar.
— Ruan…
— Não precisa responder.
A voz dele saiu calma.
Sem insistir.
Mas havia algo diferente no olhar dele agora.
Algo mais sério.
Mais atento.
O filme começou logo depois, preenchendo a sala escura com luzes suaves e sons altos o suficiente para esconder parte do silêncio entre eles.
Karolayne tentou focar na tela.
Tentou mesmo.
Mas a mente continuava voltando para Demétrio.
Para o olhar dele quando ela saiu da sala.
Para a dor na voz dele.
Para o jeito que parecia destruído vendo ela ir embora com outro homem.
Ela fechou os olhos por um breve segundo.
E odiou perceber o quanto aquilo ainda mexia consigo.
— Você tá pensando nele de novo, né?
Karolayne virou o rosto rapidamente para Ruan.
A luz da tela iluminava parcialmente o rosto dele agora.
Sério.
Mas não irritado.
Só… sincero.
Ela demorou para responder.
Porque mentir parecia inútil naquele momento.
— Tá tão na cara assim?
Ruan soltou uma pequena risada baixa.
Sem humor.
— Só pra alguém que tá olhando pra você faz tempo.
O coração dela acelerou levemente.
Ruan pegou um chocolate da pipoca e estendeu na direção dela.
— Come isso antes que eu me arrependa de ter gastado dinheiro.
Karolayne riu baixinho e pegou o chocolate dos dedos dele.
Mas, quando seus dedos se tocaram—
Ela percebeu.
Percebeu o jeito que Ruan estava olhando pra ela agora.
Diferente.
Mais intenso.
A sala escura pareceu diminuir ao redor deles.
O filme virou apenas ruído distante.
Ruan aproximou-se um pouco mais devagar.
Sem pressa.
Dando espaço para ela recuar.
Mas Karolayne não se afastou.
Talvez porque estivesse cansada demais de lutar contra sentimentos.
Talvez porque quisesse esquecer Demétrio por alguns minutos.
Ou talvez porque parte dela soubesse que Ruan estava começando a sentir algo real por ela.
— Karol… — ele chamou baixo.
A respiração dela falhou levemente.
Porque ela sabia exatamente o que estava prestes a acontecer.
Ruan ergueu a mão lentamente até tocar seu rosto.
Gentil.
Cuidadoso.
Nada intenso como Demétrio.
Nada desesperado.
Era diferente.
Mais calmo.
Mais seguro.
E talvez isso fosse ainda mais perigoso.
Porque, pela primeira vez…
Karolayne não sabia qual dos dois estava machucando mais seu coração.