Capítulo 16 — Controle

816 Words
Karolayne percebeu que alguma coisa estava errada na segunda atividade seguida. Ela encarou a folha sobre a mesa, franzindo a testa ao ver a nota marcada em vermelho no canto superior. Baixa. Muito baixa. Baixa demais. — Isso não faz sentido… — murmurou. Ela tinha estudado. Muito. Mais do que qualquer outra matéria naquela semana. Ao redor da sala, os alunos comentavam normalmente sobre as notas enquanto Demétrio permanecia sentado atrás da mesa, organizando alguns papéis com uma calma irritante. Karolayne levantou-se imediatamente. Precisava entender aquilo. Ou talvez só precisasse de uma desculpa para falar com ele. Quando parou na frente da mesa, Demétrio ergueu os olhos lentamente. O olhar dele demorou um segundo além do necessário sobre ela. Como sempre. — Algum problema, senhorita Karolayne? Ela colocou a atividade na frente dele. — Minha nota. Demétrio analisou rapidamente a folha. Calmo demais. — O que tem ela? Karolayne estreitou os olhos. — Tá baixa. — Porque seu desempenho caiu. Direto. Frio. Ela soltou uma pequena risada incrédula. — Você tá falando sério? Demétrio apoiou-se na cadeira, observando-a atentamente. — Extremamente. Karolayne cruzou os braços. — Então você quer me convencer que isso aqui merece essa nota? Ele sustentou o olhar dela sem hesitar. — Quero convencer você a voltar a focar na minha matéria. O silêncio caiu imediatamente entre os dois. E Karolayne entendeu. Aquilo não era sobre desempenho. Era ciúmes. Ela se aproximou um pouco mais da mesa, abaixando a voz. — Você tá fazendo isso de propósito. Demétrio inclinou levemente a cabeça. — Cuidado com as acusações. — E você com a obsessão. Aquilo acertou em cheio. Ela percebeu no mesmo instante pelo jeito que o maxilar dele travou discretamente. Mas Demétrio não perdeu a postura. Nunca completamente. — Já que está tão preocupada com a nota — ele disse calmamente — vou dar uma oportunidade extra. Karolayne desconfiou imediatamente. — Que oportunidade? Ele puxou uma folha da pilha ao lado. — Trabalho complementar. Individual. Ela pegou o papel devagar. E arregalou os olhos. — Isso aqui tá enorme. — É pra recuperar sua média. Karolayne soltou o ar lentamente. Claro. Mais trabalho. Mais tempo ocupada. Mais longe de Ruan. Ela voltou o olhar para ele. — Você não é nada discreto. Demétrio apenas sustentou o olhar dela. Frio por fora. Mas perigosamente intenso por dentro. — Prazo até sexta. Ela pegou a folha com irritação e virou-se para sair. Mas antes que alcançasse a porta— — Karolayne. A voz dele saiu mais baixa dessa vez. Ela parou sem querer. Demétrio observou-a por alguns segundos antes de completar: — Não me dá motivos pra me preocupar. O coração dela acelerou imediatamente. Mas ela não respondeu. Só saiu da sala antes que ele percebesse o efeito que ainda causava nela. --- Nos dias seguintes, a situação piorou. Demétrio parecia encontrar qualquer desculpa possível para enchê-la de tarefas. Atividades extras. Pesquisas complementares. Correções absurdamente rígidas. E Karolayne sabia exatamente o motivo. O problema era que Ruan também percebeu. Na terça-feira à noite, ela estava sentada sozinha na biblioteca cercada de livros e folhas espalhadas pela mesa. Exausta. Irritada. E completamente perdida em um dos trabalhos absurdos que Demétrio tinha passado. — Tá estudando ou escrevendo um TCC inteiro? A voz de Ruan a fez levantar os olhos imediatamente. Ela soltou um suspiro cansado. — Acho que meu professor decidiu acabar com a minha paz. Ruan puxou a cadeira ao lado dela e sentou-se naturalmente. — Então ainda bem que você tem eu. Karolayne riu baixo. E aquilo bastou para fazer o ambiente parecer mais leve outra vez. Ruan pegou alguns dos papéis dela. — Tá… isso aqui realmente tá exagerado. — Eu falei. — Quer ajuda? Ela hesitou. Mas acabou assentindo. E foi assim durante toda a semana. Ruan aparecia todos os dias na biblioteca. Levava café. Chocolate. Marcadores coloridos porque “os seus eram sem graça”. E sempre ficava até tarde ajudando ela com os trabalhos. Karolayne começou a esperar pela presença dele sem perceber. Porque, no meio do caos que Demétrio estava criando… Ruan era a única parte fácil. A única leve. Mas Demétrio começou a perceber isso também. Na quinta-feira à noite, ele entrou na biblioteca procurando um livro específico. E parou imediatamente ao vê-los juntos. Karolayne estava rindo baixinho enquanto Ruan falava alguma coisa perto demais dela. Os livros espalhados sobre a mesa já tinham sido esquecidos fazia tempo. Porque os dois pareciam completamente envolvidos um no outro. E então aconteceu. Ruan pegou um pequeno bombom da mochila e colocou na boca dela com um sorriso divertido. Karolayne riu imediatamente. Natural. Íntima. Confortável. O peito de Demétrio apertou na mesma hora. Forte. Violento. Algo escuro queimando dentro dele. Porque, pela primeira vez… Ele percebeu que talvez tivesse cometido um erro enorme. Enquanto tentava afastar Karolayne de Ruan… Acabou fazendo exatamente o contrário. Estava empurrando ela diretamente para ele.
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