Episódio 2

1276 Words
Mariana BANG. Caio e eu estávamos assistindo aos fogos de artifício no céu estrelado da noite quando o primeiro tiro ecoou. Tiros não eram tão incomuns em Niteroi, a cidade onde eu morava. Além disso, era quase impossível ouvir um tiro em meio ao caos dos fogos de artifício que marcavam o ano novo. Agora, quando digo que estávamos assistindo aos fogos de artifício, o que quero dizer é que ele me prensou contra a parede de um beco, o meu vestido levantado na altura dos meus quadris enquanto fazíamos os nossos próprios fogos de artifício. É. A qualquer momento seríamos pegos, mas, caramba, aquele homem me fez querer fazer coisas que eu nunca faria com mais ninguém. Os seus lábios nos meus, o sabor da cerveja e da vodka se misturando nas nossas bocas enquanto nos movíamos num ritmo constante. Eu gemi na sua boca enquanto ele fazia algo com os quadris que me dava prazer. Uma cama teria sido um pouco mais confortável, mas, apesar de eu ter dezenove anos, o meu pai havia me proibido de trazer meu namorado para casa. Meu pai odiava meu namorado. Isso só fez com que eu amasse Caio ainda mais. BANG. Inclinei a cabeça para o lado por um instante, sem entender o que tinha ouvido. BANG. BANG. O meu coração afundou quando empurrei Caio para longe de mim. Eu sabia como soavam tiros e, de alguma forma, desta vez, eu sabia que as balas carregavam o meu nome. Caio parecia confuso, mas obviamente conseguia ver o terror no meu rosto. Em vez de protestar, ele ajeitou a calça jeans, enquanto eu ofegava e puxava o meu vestido preto para baixo, cobrindo as minhas coxas. — Amor. Sussurrei com urgência. — Tem alguém atirando perto daqui, você ouviu? Aos dezenove anos, eu não deveria saber como soavam tiros, muito menos estar intim*amente familiarizada com eles, mas eu não era uma garota comum. Eu havia nascido numa vida de terror e violência. Imagens do meu pai surgiram de repente na minha mente, e o meu coração acelerou consideravelmente. Meu pai era um homem complexo, com uma vida complexa, e quando eu ouvia tiros, geralmente era por causa de algo que ele tinha feito, ou por algo que ele estava punindo alguém por ter feito. Caio passou a mão pelos cabelos escuros, cacheados nas pontas por causa da umidade, enquanto se abaixava para pegar o seu celular e acender a lanterna. Peguei o meu celular e saí da escuridão e da relativa privacidade. A luz que vinha de um grande aparelho de ar condicionado me permitiu observar cautelosamente o beco. A rua além estava lotada de pessoas concentradas nos brilhantes pontos de cor que iluminavam o céu noturno. Caio me puxou para mais perto e sorriu com firmeza, os seus olhos cor de avelã brilhando à luz tênue das lanternas enquanto se dirigia a mim em espanhol. — Não se preocupe, amor. Provavelmente é só um idi*ota atirando para o céu.) Contanto que nenhuma bala caia sobre nós, rezei em silêncio. — Caio! Repreendi. — Em inglês! Lembra? Revirando os olhos, o seu sorriso tranquilo me acalmou, e a tensão se dissipou momentaneamente. — Amor, você só termina a faculdade daqui a três anos. Temos bastante tempo para praticar o inglês. Ele pronunciou cada palavra em inglês lento e deliberadamente, as palavras fluindo suavemente dos seus lábios curvados. Qualquer um perceberia que não era sua língua nativa. E os nossos planos de fugir do Brasil não seria tão perfeito. Caio não teve o privilégio de frequentar uma escola americana como eu. Caio não teve o privilégio de frequentar muito a escola depois dos quinze anos, quando precisou sustentar a família trabalhando. E assim, eu estava ajudando ele a aprender Inglês. O nosso plano era fugir para a Florida. O meu pai sempre me dava de presente uma viagem no meu aniversário e essa é a oportunidade perfeita. Balancei a cabeça em desafio. — Vamos conseguir. Eu disse. — Vamos conseguir realizar o nosso sonho. Na minha mente, me permiti um breve devaneio. Vi a praia, um píer e senti a areia sob os meus pés. Quase podia sentir o gosto da liberdade que ir embora do país poderia me oferecer. Longe dos olhares suspeitos e do alcance brutal das facções impiedosas, e da intromissão do meu pai problemático. BANG. BANG. BANG. O meu olhar se voltou para o do Caio, e qualquer esperança, por mais tênue que fosse, se dissipou. BANG. BANG. BANG. BANG. Arrepiei-me, olhando por cima do ombro. Os tiros estavam ficando mais altos. Mais perto. — Deveríamos ir. Caio disse lentamente, com os olhos fixos na rua. Embora alarmada, eu ainda tinha esperança de que os estampidos altos fossem apenas bêbados atirando no nada. Quando os gritos começaram, o meu coração afundou. De repente, não conseguia respirar direito. Um trio de homens fortemente armados irrompeu pela multidão na extremidade aberta do beco e eu quase caí. Pareciam ferozes e entediados ao mesmo tempo, se é que isso era possível. Vestidos inteiramente de preto, camisas e calças cargo pesadas, carregavam armas de aparência impressionante. Os meus joelhos fraquejaram por um instante. Engasguei com a respiração. Eu os reconheci. — Temos que sair daqui. Eu disse, me virando e puxando o pulso do Caio. Um tiro ecoou, muito perto de mim desta vez, e de repente o peso do Caio me arrastou para baixo, para o chão. Lutei para enxergar o que estava acontecendo na escuridão. O celular do Caio havia caído, e quebrado, e eu ergui minha própria lanterna para ver. Engasguei ao ver uma mancha vermelha se espalhando no seu peito, encharcando rapidamente a sua camiseta azul brilhante. — Caio! Gritei, de joelhos ao lado dele. Peguei as suas mãos e as pressionei contra o seu peito, tentando estancar o fluxo de sangue que subia e borbulhava pelas suas laterais. O tiro provavelmente o matou instantaneamente. Essa era a parte racional da minha mente, fazendo uma observação, e eu a reprimi, horrorizada. Não. Ele não estava morto. Ele não podia estar morto! Uma dormência invadiu o meu peito. Os seus olhos vidrados permaneciam abertos e sem expressão, e uma palidez estranha engolia qualquer cor da sua pele bronzeada. M*erda. O que eu poderia fazer? A raiva me consumiu quando me virei bruscamente para encarar o desgraçado que havia atirado no homem que eu chamava de meu amor há quatro anos. O único. Eles o mataram. Lutei contra uma violenta vontade de vomitar. Estávamos tão perto de sair desta vida, longe do Brasil, longe do meu pai. Tão perto. Não perto o suficiente. Tremendo, levantei-me e cerrei os punhos. — Vocês atiraram nele! Gritei, com a garganta ardendo pelo esforço repentino. A minha raiva me deu uma falsa bravata enquanto eu disparava uma série de palavrões para os três homens. Eles permaneceram praticamente impassíveis enquanto apontavam as suas armas para o meu peito. Isso não podia estar acontecendo. Encarei o atirador do meio e o fuzilei com um olhar furioso. — Vamos lá, valentão! Gritei, pressionando o meu peito contra o cano do seu fuzil. — Vai atirar em mim também? Vai em frente, puxa essa po*rra do gatilho, idi*ota. Que dia*bos você está esperando? Por um instante, achei que ele fosse atirar, até que ele ergueu a coronha do fuzil e bateu na minha cabeça com um estalo alto. Estrelas rodopiaram diante dos meus olhos e eu desabei no chão como uma boneca de pano. Tudo ao meu redor desapareceu em câmera lenta enquanto eu me derretia, involuntariamente, num abismo feito apenas de escuridão e dor agonizante. Eles o mataram. E nada jamais seria como antes.
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