Capítulo 19

1217 Words
P Narrando Aquelas palavras no bilhete queimavam os meus olhos. "Bastardo". Era assim que o desgraçado me chamava. Amassei o papel com força, sentindo a adrenalina percorrer cada veia do meu corpo. O PH se aproximou, olhando para o carro e depois para mim. — Qual é a visão, JP? — ele perguntou, já com a mão no fuzil. — O verme tá querendo brincar de fantasma, PH. Mas ele esqueceu que eu sou o dono do cemitério. — Joguei o papel amassado no chão. — Quero guarda dobrada em todas as entradas. Ninguém sobe, ninguém desce sem eu saber. E manda o Henrique rastrear de onde veio esse carro. Agora! Subi para casa com a cabeça a mil por hora. Eu precisava de respostas, e só tinha uma pessoa que poderia me dar a peça que faltava nesse quebra-cabeça: o "velho", o pai da Luna e do Menor. Se ele sabia da verdade sobre o Menor, ele sabia o que tinha acontecido na época do meu pai. Quando entrei em casa, o clima estava calmo, um contraste bizarro com a tempestade que estava dentro de mim. Luna estava sentada no tapete com a Juju, tentando ensinar a pequena a encaixar uns blocos. Ela me olhou e, na mesma hora, percebeu que o bagulho tinha ficado doido. — Que foi, JP? — ela levantou, entregando a Juju para a Lua, que estava por perto. — Preciso falar com o Menor. Agora. — Peguei o rádio. — Menor, encosta na minha goma. É pra ontem, tlgd? Menor Narrando Eu m*l tinha chegado em casa, tentando processar que a Luna era minha irmã, quando o rádio chiou. A voz do JP estava estranha, uma mistura de ódio com pressa. Nem tirei a bota, só montei na moto e voei para lá. Quando entrei na sala, o JP estava andando de um lado para o outro. A Luna estava com os braços cruzados, encostada no balcão da cozinha. — Fala, JP. Que fita é essa? — perguntei, sentando no braço do sofá. JP me jogou o bilhete. Eu li devagar. O sangue subiu para a cabeça. — Esse filho da puta... "terminar o que começou com teu pai"? O que isso quer dizer, mano? — Quer dizer que a morte da minha coroa não foi só uma invasão qualquer. Foi pessoal. E esse cara acha que pode mexer com a minha família de novo. — JP parou na minha frente. — Menor, onde tá o teu pai? O verdadeiro. Eu travei. A lembrança do velho me contando a verdade ainda ardia. — Ele sumiu depois que falou comigo. Disse que a missão dele era só me contar a verdade. Mas eu sei onde ele costuma ficar quando tá bebendo. É um barraco lá no final da Baixada, perto do lixão. — Então vamos lá. Agora. Luna, tu fica. — JP falou, já pegando a chave da moto. — Nem morta! — Luna deu um passo à frente. — É do meu pai que vocês estão falando. É da minha vida. Se tem alguém que vai tirar a verdade daquele velho, sou eu. JP ia discutir, eu vi na cara dele, mas ele olhou para a Luna, viu a determinação nos olhos dela e apenas assentiu. A gente sabia que não dava para segurar a Luna, ainda mais agora. Luna Narrando O caminho até a Baixada foi silencioso. Eu ia na garupa do Menor, sentindo o vento gelado cortar o meu rosto. Eu estava com medo? Estava. Mas o ódio era maior. Eu precisava saber por que a minha vida tinha sido destruída, por que eu tinha sido criada por um monstro enquanto o meu irmão estava a poucos quilômetros de mim. Chegamos num barraco que parecia cair aos pedaços. O cheiro de cachaça e mofo vinha de longe. JP deu um chute na porta, que se abriu com um rangido h******l. Lá no canto, sentado num colchão sujo, estava o homem que eu chamei de pai a vida toda. Ele estava mais magro, com os olhos fundos, segurando uma garrafa de 51. — Olha só... a família reunida. — Ele deu uma risada rouca, que terminou num ataque de tosse. — Cala a boca e escuta bem. — JP foi até ele, o levantou pelo colarinho e o prensou contra a parede de madeira podre. — Quem é o cara? Quem matou a minha mãe e tá vindo atrás da Luna? O velho olhou para o JP com deboche. — Tu é igualzinho ao teu pai, Jhonathan. Valente, mas burro. Tu acha que o poder se sustenta só com fuzil? O nome dele é Antenor. Ele era o braço direito do teu pai, o cara que ele mais confiava. O silêncio na sala foi absoluto. Eu olhei para o Menor, que estava tão chocado quanto eu. — O Antenor morreu na invasão. O meu pai viu o corpo dele! — JP gritou, apertando ainda mais o pescoço do velho. — O que o teu pai viu foi um corpo queimado com o anel do Antenor. — O velho tossiu sangue. — Ele armou tudo. Ele entregou a tua mãe para os rivais em troca de ficar com a gerência do morro vizinho. Ele sempre quis o trono do teu pai. E ele usou a Luna... ele me pagou para levar ela, para manter ela por perto como uma garantia. Se o teu pai descobrisse a verdade, ele matava a menina. Eu senti as minhas pernas fraquejarem. O Menor me segurou por trás. Toda a minha infância de dor, os abusos, a fome... tudo tinha sido um plano de negócios? — Onde ele tá? — Minha voz saiu fria, quase irreconhecível. O velho olhou para mim, e pela primeira vez vi um pingo de arrependimento naqueles olhos turvos. — Ele tá voltando, Luna. Ele nunca saiu de perto. A Kátia trabalhava para ele. Ela era os olhos dele aqui dentro. Ele quer o morro, JP. E ele vai usar o sangue de vocês para batizar o trono dele. JP soltou o velho, que caiu como um saco de batatas no chão. O ódio no rosto do JP era algo que eu nunca tinha visto. Não era mais só sobre o morro. Era sobre vingança. — Vamos embora. — JP falou, virando as costas. — E o que a gente faz com ele? — Menor perguntou, apontando para o velho. — Deixa ele aí. A cachaça termina o serviço. Temos uma guerra para ganhar. — JP saiu do barraco. Quando chegamos na moto, JP me puxou para um abraço apertado. Eu tremia toda. — Ele vai pagar, Luna. Por cada lágrima tua, por cada gota de sangue da minha mãe. O Antenor vai descobrir por que eu sou o dono dessa p***a. O rádio do Menor tocou. Era o PH, a voz desesperada: — JP! INVADIRAM A TUA GOMA! LEVARAM A LUA E A JUJU! O mundo parou. O bilhete não era um aviso. Era uma distracção. — NÃO! — Eu gritei, sentindo o ar fugir dos pulmões. — A JUJU NÃO! JP montou na moto com o olhar de um demónio. — Menor, chama todo mundo. Quero cada homem armado. A gente vai descer o inferno hoje. A guerra não estava mais chegando. Ela já tinha entrado pela porta da frente.
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