— Deixe-o em paz, Tess. Ele não está aqui para sua diversão — diz Kalil, ignorando as palavras da mulher à sua frente.
Nerone observa quando Tess se levanta e caminha até ele. Ela realmente era bem pequena. Os seus olhos de jabuticaba o encaram fixamente antes de estender a mão.
— Muito prazer, eu sou Tess. Controlo o sistema de segurança e investigação de Lorel — apresenta-se.
Nerone apenas assente, sem tocar nela. Tess recolhe a mão com um sorriso de canto; havia gostado do homem à sua frente e faria dele seu desafio favorito.
— Não devia estar me contando assuntos da sua organização — diz Nerone.
— Se Kalil te trouxe aqui, é porque é confiável — responde ela, voltando ao seu lugar.
— Entregue o equipamento a ele — ordena Kalil, colocando uma bolsa aos pés de Nerone. — Algumas coisas que você pode precisar.
— Já tenho o que preciso — retruca, pegando um dispositivo das mãos de Tess.
— Tem mãos fortes. Gosto disso em um homem — provoca ela, piscando.
Nerone apenas desvia o olhar. Não cairia nas provocações da mulher à sua frente. Os seus olhos se fixam nos rostos exibidos no dispositivo; toda a informação que precisava estava ali. Sem hesitar, guarda-o no bolso e sai do escritório.
— Tomem cuidado — diz Lorel, jogando uma chave para Kalil.
Eles entram no carro e partem. Não passou despercebido a Nerone os olhares que Kalil lhe lançava de vez em quando; estava claro que ele estava ali para avaliá-lo, ao que parecia Lorel não confiava nele o suficiente para o deixar ir sozinho naquela missão.
Algum tempo depois, chegam a uma propriedade imponente. O nível de segurança era avançado, e Nerone sorri diante do desafio. Ele desce do carro rapidamente, pega a sua maleta, abre-a e retira um pequeno aparelho, colocando-o em contato com a parede. Em segundos, uma imagem se forma. Ele segue a indicação e encontra um painel oculto. Conecta outro dispositivo, decodifica a senha e abre uma porta.
— Mas como... — murmura Kalil, surpreso.
— Tecnologia da Fênix — responde apenas.
No momento em que entram, Kalil perde Nerone de vista. Ele havia desaparecido na noite, deixando-o para trás.
Nerone sorri ao pensar em como foi fácil se livrar de Kalil. Não gostava de companhia em trabalhos de infiltração. Encontrar o alvo também não foi difícil, e a missão não parecia tão impossível quanto Lorel fizera parecer. Pelo visto, ele contava com uma equipe pouco treinada.
— Quem é você? — pergunta o homem sentado no escritório ao notar a sua presença.
— Você não precisa saber — responde Nerone. Não era do seu feitio conversar com os seus alvos, ele gostava apenas de cumprir a sua missão sem interferências.
Os olhos do homem o examinam com cautela, mas não veem nada além de um olhar azul intensamente vivo. Nerone havia tomado cuidado ao entrar; não havia como reconhecê-lo.
— Foi o Lorel, estou certo? — diz o homem, impassível, enquanto continua analisando os documentos à sua frente. — Sempre soube que esse dia chegaria, e não me arrependo das informações que roubei. Um homem deve se responsabilizar por suas ações.
Ele se levanta com calma.
— Se sabia o que iria acontecer, por que roubou as informações? — pergunta Nerone, curioso.
— Porque eu precisava. Entenda, vivemos em um mundo c***l, e nele fazemos o que for necessário para conseguir o que queremos — responde, sacando uma arma rapidamente.
Nerone age mais rápido. Um disparo atinge o ombro do homem, derrubando-o contra a cadeira.
— Você é rápido — diz ele, com um sorriso triste.
— Como você disse, vivemos em um mundo c***l — retruca Nerone, aproximando-se e observando o seu rosto pálido.
— Diga a Lorel que o verei no inferno — murmura, ainda sorrindo.
— Darei o recado.
O tiro seguinte acerta a sua testa.
Rapidamente, Nerone acessa o computador do homem e insere um pen drive, copiando tudo o que encontra. Em seguida, instala um vírus que se espalharia pela rede e destruiria qualquer rastro. Com tudo concluído, arranca a cabeça do homem e deixa o escritório sem pistas.
Ao sair da residência, encontra Kalil, furioso, à sua espera no carro.
— Você fez de propósito... — começa ele, mas Nerone joga a cabeça do homem em seu colo, silenciando-o.
— Apenas dirija. Tenho compromisso — diz, entrando no carro. Nerone não queria perder mais do seu tempo naquele lugar.
Kalil encara a cabeça com nojo e desprezo. O jovem à sua frente cumprira o seu papel — e com uma eficiência assustadora. Nenhum alarme havia sido acionado, nenhuma sirene soara. Ainda não sabiam o que tinha acontecido.
Ele muda a forma como o enxerga.
Não era um menino.
Era um homem — e mais letal do que imaginava.
Kalil guarda a cabeça no porta-malas e entra no carro sem dizer nada. Dirigem pela noite até chegar à mansão de Lorel.
— Chegaram cedo — comenta Lorel, conferindo o relógio.
— Treine melhor a sua equipe. Vai poupar muito do meu tempo — diz Nerone, estendendo o pen drive. — Aqui estão as informações que queria.
Lorel o encara, incrédulo. Mas, ao ver Kalil entrar com uma caixa, levanta-se rapidamente. Ao olhar o conteúdo, o seu semblante muda Nerone havia cumprido a palavra.
— Devo admitir que foram bem rápidos — diz, sem esconder a surpresa.
— Ele foi rápido. Não consegui acompanhá-lo — admite Kalil, a contragosto.
— Obrigado pela ajuda. Agradeça a Ricardo por mim.
— Será feito — responde Nerone, já se virando para sair.
— Espere! Descanse aqui esta noite. Sei que deve estar cansado de tudo o que houve — diz Lorel, em um tom mais brando.
— Não. Tenho alguém me esperando.
E parte.
Tudo o que Nerone queria era ver Amália novamente. Havia sido apenas um dia longe, mas o peito já se apertava de saudade da sua “Tampinha”.