Nerone não conseguia esconder o sorriso ao entrar no carro. O motorista não fez perguntas, apenas dirigiu em silêncio em direção à mansão de Ricardo. Havia muito tempo ele aprendera a ignorar os comportamentos estranhos das pessoas a quem servia.
Assim que entrou na mansão, Nerone ouviu o barulho de conversa vindo do terraço. Ao que parecia, a noite dos homens da Fênix ainda não havia acabado.
— Apenas confesse que você é um p*u mandado, Nico — dizia Charles.
— Olha quem fala: “preciso ir embora porque a Raira não dorme sem mim” — retrucou Nico, imitando Charles.
Os outros caíram na risada com aquilo. Em um dos lados, Klaus dava tapas nas costas de Max quando ele se engasgou com a cerveja.
— Vocês são todos crianças. Não sei por que ainda saio com vocês — disse Yuri, balançando a cabeça.
— Porque você é outro p*u mandado da Sofia e não vive sem a gente — respondeu Nico, jogando uma almofada nele.
Nerone observava, achando aquela conversa engraçada. A Fênix tinha o poder de transformar até o assunto mais banal em algo agradável.
— Não fique ouvindo a conversa dos outros, garoto. Venha se sentar conosco — disse Vito ao vê-lo parado na porta.
Nerone caminhou até eles, sentando-se em um canto mais afastado. Todos ali sabiam que ele não fazia por m*l; apenas gostava de manter certa distância dos demais.
— Está feliz? — perguntou Ricardo, olhando fixamente para ele.
— Sim, senhor — respondeu.
Não eram necessárias mais palavras para descrever o que Nerone sentia naquele momento. Todos ali já haviam passado por aquilo e sabiam o quanto era gratificante estar perto de alguém que se ama.
— Boa sorte para conquistar a fera, garoto. Vai precisar — disse Vito, erguendo o copo. Ele já havia presenciado brigas demais entre os dois para saber que Nerone teria trabalho.
Nerone não respondeu, mas o sorriso que se abriu em seu rosto dizia tudo.
— c*****o! O garoto está sorrindo mesmo? — disse Charles, surpreso.
— Isso é o poder do amor, meu amigo… o poder do amor — respondeu Nico, de forma dramática.
Nerone apenas balançou a cabeça. Ele gostava daquela conversa sem sentido da Fênix; aquilo o fazia se sentir vivo de uma forma impressionante. Um dos seus maiores prazeres era observá-los conversando.
O som estridente de um telefone tocando chamou a atenção de todos.
— Foi m*l, pessoal. É o meu — disse Aurélio, levantando-se do sofá.
— E desde quando você tem um toque tão gay de chamada? — perguntou Charles, rindo.
— Mais respeito com o Bruno Mars. E foi a Oksana que escolheu — respondeu ele, com um risinho.
— p*u mandado — disse Nico, balançando a cabeça.
Ao observar aquela cena, Nerone se perguntou se algum dia seu relacionamento com Amália seria daquela forma. Ele sabia que a sua noiva tinha um gênio difícil, mas não estava disposto a ceder a todas as suas vontades. É claro que iria cuidar dela e amá-la de uma forma que só ele poderia, mas Amália também teria que aprender o seu lugar ao lado dele.
O praguejar de Aurélio tirou Nerone dos seus pensamentos. Ao olhar para o irmão, percebeu que algo estava muito errado.
Rapidamente, levantou-se e foi até ele. Aurélio desligou o telefone e o encarou.
— Problemas — disse, antes que alguém perguntasse.
— O que houve? — perguntou Nerone.
— Lembram do Lorel? Ele está com problemas.
Todos ali se lembravam de Lorel, o mesmo homem que havia pedido ajuda à Fênix tempos atrás e ajudado a derrotar Pavini. Mas fazia tempo que ele não dava as caras e, ao que tudo indicava, estava metido em mais problemas do que se podia contar.
— Então vamos — disse Ricardo. Ele havia dado proteção a Lorel, e uma palavra da Fênix era lei em qualquer lugar.
— Não precisa. Eu vou — disse Nerone, chamando a atenção de todos.
— Achei que gostaria de passar essa semana com Amália — comentou Ricardo, com a sobrancelha arqueada.
— Ela vai ter que se acostumar com a minha ausência — respondeu ele.
Ricardo encarou a expressão do garoto e percebeu que ele estava decidido. Apenas assentiu.
— Tudo bem. Mas nos mantenha informados. E passe no laboratório para pegar um kit — disse, referindo-se ao kit de missões, que incluía várias armas, medicamentos de primeiros socorros e rastreadores.
Nerone apenas assentiu e partiu sem olhar para trás. Ele levava o seu trabalho a sério, e foi graças a isso que conseguiu avançar em seus treinamentos e acompanhar os outros.
— Alguém vai se arrepender do dia em que nasceu — disse Aurélio, caindo na risada. Conhecia bem o irmão para saber que aquele silêncio só podia significar uma coisa: morte.
Assim que chegou ao laboratório, Nerone abriu um dos kits e substituiu alguns itens por outros. Trocou de roupa, pegou a maleta e saiu. Na garagem, já havia um carro à sua espera. Quando o ligou, viu o GPS indicando uma coordenada. Suspirou ao perceber que teria que pegar um avião para chegar ao destino.
Ficar longe de Amália não era sua ideia naquele momento, mas não deixaria um trabalho inacabado por causa disso. Não que ela não compensasse — mas ele entendia que um trabalho bem feito significava mais segurança para as pessoas ao seu redor, e isso incluía Amália.
Ao chegar à pista de pouso, o jato de Aurélio já o aguardava com os motores ligados. Ele apenas pegou o GPS e sua maleta, entrou na aeronave sem dizer uma palavra, entregou o aparelho ao copiloto e se sentou, afivelando o cinto.
Naquele tipo de trabalho, palavras não eram necessárias. Apenas ordens eram dadas — e, quanto mais silenciosamente fossem cumpridas, melhor seria para a segurança de todos.
Nerone recostou-se no assento e deixou a mente descansar durante o voo curto. Mas, de alguma forma, a única coisa que surgia em sua memória era a imagem de Amália dormindo em seus braços.