O sol da manhã banhava os vinhedos da propriedade Donati quando Nerone estacionou a caminhonete perto da plantação. O cheiro de terra úmida e uvas maduras preenchia o ar, misturado ao vento fresco que descia das colinas.
Amália desceu do carro devagar, os olhos percorrendo as intermináveis fileiras de videiras. Ela estava maravilhada com aquilo; jamais tinha visto algo tão belo antes.
— Isso tudo pertence à sua família? — perguntou, impressionada.
— Sim. — respondeu Nerone, fechando a porta com força. — O vinho Donati nasceu aqui. O irmão já ganhou vários prémios internacionais pelo vinho que fazemos.
Amália caminhou lentamente entre as vinhas, passando os dedos pelas folhas verdes. O lugar era bonito e lhe dava uma sensação de paz que ela não imaginava encontrar ali.
Ela olhou para ele de canto. Vestia uma camisa preta de mangas dobradas até os antebraços, calça escura e botas. O tapa-olho n***o com a fênix parecia ainda mais sombrio sob a luz do dia. Havia algo nele que contrastava brutalmente com a calmaria daquele lugar.
Algo perigoso.
Nerone percebeu o olhar dela.
— O que foi?
— Nada. Só estava tentando imaginar você cuidando de uvas.
Ele soltou uma risada baixa pelo nariz. Amália era perspicaz e já sabia para que aquele parreiral servia.
— Eu não cuido das uvas, tampinha.
— Não?
— Você sabe que não. Acho que uvas e armas automáticas não combinam. — disse ele com um olhar mais carregado em sua direção.
Amália sabia do que ele falava, mas ainda gostava de ouvi-lo responder. Ela sabia que havia uma máfia escondida atrás de paisagens bonitas e de tudo o que pudesse cobrir os seus rastros.
Nerone observava Amália em silêncio enquanto ela andava entre as videiras. O vestido claro balançava com o vento, revelando as pernas dela por alguns segundos.
Ela parecia delicada naquele cenário, doce até. Mas ele sabia do vulcão que tinha nos braços. Vê-la tão solta fazia o seu peito arder. Ela era sua, aqueles risos eram seus e apenas os seus. Nerone queria poder esconder a sua pequena dos olhos de todos; ela era delicada e gentil demais para que outros a vissem da forma como ele a enxergava.
Nerone nunca havia sido um homem gentil. Crescera cercado de sangue, violência e homens que resolviam problemas enterrando corpos. Aprendera cedo que sentimentos eram fraquezas exploráveis. Mas também tinha aprendido que não havia nada mais precioso do que um amor verdadeiro, alguém que o aceitasse como ele era e ajudasse a apaziguar seus fantasmas, e essa pessoa, para ele, era Amália.
Pequena.
Teimosa.
Cheia de pintinhas.
E agora ele precisava controlar os próprios instintos para não destruir qualquer um que ousasse olhar para ela por mais de dois segundos.
— Você está me encarando outra vez. — comentou Amália sem se virar.
— E você gosta.
Ela olhou sobre o ombro, sorrindo.
— Convencido.
Nerone aproximou-se lentamente até parar atrás dela.
— Não preciso de convencimento quando se trata de você. — A voz grave deslizou pela pele dela como pecado.
— Esse lugar é maravilhoso. — disse ela ao observar tudo com olhos brilhantes.
— É apenas um lugar, mas sim, é muito bonito. — disse ele sem parecer se importar muito com aquilo.
Para Nerone, ver aquele lugar era a única conexão de lar que ele tinha. Foi ali que ele e o irmão viveram os seus melhores momentos e realmente se conheceram.
Amália o observava, sabendo que os seus pensamentos estavam longe pela forma como o seu olhar se perdia ao horizonte. Agora ela conhecia parte do passado dele e se perguntava o que atormentava a sua mente naquele momento.
— Posso te fazer uma pergunta? — disse ela enquanto pegava algumas uvas de um cacho próximo.
— Faça. — respondeu ele enquanto caminhava ao lado dela.
— E o seu pai, Nerone?
Amália observou o rosto dele escurecer e um suspiro irritado deixar os seus lábios. Ao que parecia, aquela era a pergunta errada a se fazer.
— Sabia que um dos motivos pelos quais Pavini me torturava era ele? — perguntou Nerone com um sorriso triste nos lábios. — Ao que parece, eu e o irmão somos muito parecidos com ele, e Pavini o odiava.
Amália engoliu em seco. Ela não esperava aquela resposta.
— Desculpe, eu não sabia. — disse em voz baixa.
— Não me importo. Por mais que me incomode falar dessas coisas, tudo está no passado. — disse ele com um suspiro pesado. — E, respondendo à sua pergunta, eu não me lembro do meu pai.
Amália ficou surpresa.
— Não se lembra?
— Não. Nem dele, nem da minha mãe. — Nerone havia discutido aquilo em uma de suas muitas sessões forçadas de terapia, e a terapeuta dissera que ele provavelmente tinha bloqueado as lembranças por causa do trauma. Então, tudo o que tinha era uma foto do pai; da mãe, não tinha nada.
— Isso é estranho. — disse ela.
— O irmão me deu uma foto do nosso pai, então sei que o que Pavini dizia era verdade. Mas o irmão se parece mais com ele.
— Você parece não se importar com isso. — comentou Amália, observando como ele havia ficado mais tranquilo.
— Hoje já não me importo. Eu já o odiei por isso um dia, por ter deixado eu e a mamãe, por tudo o que aconteceu. Mas, depois que encontrei o irmão, pude entender que nunca foi desejo do nosso pai nos deixar. Ele só queria nos proteger e, infelizmente, fez isso da forma errada.
Nerone entendia que todos tinham cargas, fardos pesados para carregar, e seu pai não tinha sido diferente. Ele passou muitos anos o odiando, mas, depois que entendeu o que havia acontecido, achou melhor deixar tudo para trás. Não compensava desenterrar mais um defunto para atormentar a sua vida. E, enquanto observava Amália, entendia que havia feito a escolha certa.