Capítulo 23

1015 Words
Amália acorda no dia seguinte de mau humor. Nerone havia sumido do nada depois da festa e ainda tivera a ousadia de nem ao menos ligar para avisar aonde tinha ido. Não que ela se importasse — porque não importava, ao menos era isso que tentava repetir para si mesma. Na cabeça de Amália, Nerone estava apenas brincando com ela ao se afastar daquela forma. — Que cara é essa? — pergunta Luz quando a filha desce para tomar café da manhã. — Nada — responde, enquanto mordia de forma dramática um pãozinho e resmungava. Luz olha para o marido, e os dois começam a rir da expressão chateada da filha. Ela sabia que aquilo se devia ao fato de Nerone ter sumido por alguns dias. — Do que estão rindo? — pergunta Amália, com um vinco na testa. — De você, e de como não consegue assumir que está chateada porque um certo italiano de olhos azuis não veio te procurar — diz Luz, vendo com prazer os olhos da filha se arregalarem. — Mãe! — exclama, levantando-se, consternada. — Não dá para ter uma conversa decente com vocês hoje. Amália sai de casa batendo o pé. A cada passo em direção ao trabalho, resmunga um pouco mais. Sua mãe só podia estar ficando louca se pensava que ela sentia falta de Nerone. Mas, de forma inconsciente, ela se pega pensando nele — na maneira como aquele único olho a encarava, como se pudesse desvendar a sua alma, enxergar lugares que nem ela mesma alcançava. Amália não sabia o que ele havia passado ao longo da vida; sabia apenas que tinha sido algo terrível, algo que todos protegiam com afinco. Se você não fosse parte do grupo de amigos, jamais saberia a verdade — e, nesse quesito, ela se encaixava. Por mais que já tivesse perguntado, nunca lhe haviam dito o que realmente acontecera com ele. — Falando sozinha? — pergunta alguém, aproximando-se. Amália se vira e encontra o olhar de Silas — os mesmos olhos castanhos que sempre a encararam com tanto carinho, agora inchados e arroxeados devido à surra que levara de Nerone. Amália precisava admitir: o seu noivo tinha um punho pesado e fizera um bom estrago no soldado. — Não devia chegar perto de mim, ou vai acabar se machucando de novo — diz ela, desviando o olhar. Amália não era tola a ponto de não perceber o interesse de Silas por ela. Gostava dele, sim — mas apenas como um bom amigo, um ombro para chorar, se precisasse. — Ele já foi embora, então acho que não tem problema se eu te acompanhar até o complexo — diz ele, dando de ombros, como se o fato de ter levado uma surra e estar andando de muletas não significasse nada. — Ele vai saber. Ele sempre sabe — responde ela, com um suspiro cansado. Olhando para o tênis gasto, Amália só pensava em como tudo havia mudado. Não era mais uma garotinha e entendia bem como aquela sociedade funcionava. No fundo, era grata por estar em um lugar onde as pessoas realmente se preocupavam umas com as outras. — Se você quiser, posso dar um jeito nisso — diz ele, olhando-a de forma sugestiva. — Posso te levar para um lugar onde ele não te encontre, onde... Amália é rápida em tapar a boca de Silas com a mão. Olha ao redor, desesperada, temendo que alguém pudesse ter ouvido o que ele dissera. Aquilo era uma regra da família: não se tocava nas mulheres de outros homens. E Silas estava desafiando diretamente as ordens de seu chefe ao fazer aquela sugestão — mais do que isso, poderia ter um fim trágico se aquelas palavras chegassem aos ouvidos de Nerone. — Ficou louco? — sussurra, retirando a mão da boca dele. — Não, eu... — Ele te mata, Silas! Você sabe disso melhor do que eu. Sem contar que Ricardo te caçaria até os confins da terra. Sabe o quanto o chefe preza pela lealdade — você seria visto como um traidor. Assim como eu! Amália puxa o ar com força. Queria esquecer que ele sequer havia dito aquilo — era a única forma de garantir a segurança dele. — Sei que está preocupado comigo, e agradeço por isso, mas o chefe me garantiu que não serei maltratada por ele. Então ficarei bem. As leis funcionavam dos dois lados. Assim como Silas poderia perder a vida por sugerir aquilo, ela também seria implicada. Mas Amália jamais faria algo assim. Confiava em seu chefe e nas pessoas ao seu redor. Aceitaria o próprio destino como devia — embora não tivesse a menor intenção de tornar as coisas fáceis para Nerone. — Amália... — diz ele, segurando a mão dela e a fazendo parar no meio do caminho. Ela encontra o olhar de Silas e se assusta com o que vê ali. Não estava pronta para lidar com o sentimento que, aparentemente, o amigo nutria por ela. — Não, Silas — diz, apressada. — Vem comigo, Amália. Eu posso te fazer feliz. Mais feliz do que ele — insiste. Amália puxa a mão de volta rapidamente, dando um passo para trás. — Pare, Silas. Não é certo o que você está dizendo. — Realmente não é. A voz surge de repente, fazendo os dois se sobressaltarem. Bernardo aparece diante deles. Pelo visto, Nerone não estava tão paranoico quanto pensaram ao mandá-lo, no meio da madrugada, vigiar Amália. — Você... — diz Amália, sem reconhecer o homem à sua frente. — Sou Bernardo, senhorita — responde ele, desviando o olhar. — Nerone me pediu para cuidar da senhora. Os olhos de Bernardo escurecem ao se voltarem para Silas. O homem à sua frente acabara de ganhar um inimigo mortal. Bernardo desprezava homens que não respeitavam as mulheres dos outros. — Pelo que vejo, ele pegou leve com você — diz, dando um passo à frente. — O garoto não está aqui, mas eu estou. E o que ele pode fazer com você, eu também posso. Duvido que alguém me impediria depois do que ouvi.
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