A conversa entre a Fênix e o líder da Toca tinha sido um sucesso, e todos pareciam mais tranquilos após o diálogo entre Álvaro e Ricardo. Todos ali tinham família e pessoas que desejavam proteger, então era vital que mantivessem um bom relacionamento.
O burburinho elegante do salão seguia constante, mas atento — como se todos pressentissem que algo maior estava prestes a acontecer. As conversas cessaram aos poucos quando Álvaro avançou alguns passos, ocupando o seu lugar de destaque no palco do salão. Não foi necessário mais do que isso.
O silêncio caiu.
Os olhos se voltaram para ele — aliados, rivais, curiosos. Todos.
Nerone observava, curioso, as pessoas se afastarem de Álvaro, abrindo espaço. Alguns m*l erguiam os olhos para encará-lo, o que demonstrava o tipo de influência que ele exercia sobre todos naquele lugar.
— Senhores… — começou Álvaro, com a voz firme, ecoando pelo salão com autoridade natural. — Hoje não é apenas uma noite de celebração. É uma noite de reconhecimento.
Ao lado dele, Nerone manteve a postura, embora sentisse cada olhar sobre si como uma lâmina silenciosa. Ele não temia as pessoas naquele lugar; estava ali por um motivo e o cumpriria.
— Este jovem — continuou Álvaro — provou o seu valor. Não apenas em feitos, mas em caráter, lealdade e força.
Alguns murmúrios baixos surgiram, rapidamente contidos.
— E, por isso… — ele prosseguiu, mais incisivo — eu o tomo, diante de todos aqui presentes, como meu afilhado.
Todos já esperavam aquela declaração, mas ouvi-la da boca do próprio Cobra tinha um peso diferente. Mesmo entre os mais experientes, aquilo não era um gesto comum vindo de um dos maiores líderes do submundo.
— A partir deste momento — sua voz endureceu — Nerone está sob a minha proteção. E deixo claro… — Álvaro deu um passo à frente, como se desafiasse qualquer um ali — qualquer atentado contra ele será considerado um atentado direto contra a minha família.
Silêncio absoluto.
— E será respondido… à altura.
A mensagem não era um aviso. Era uma promessa de que ninguém escaparia da fúria do Cobra.
Ao fundo, Ricardo observava em silêncio, os olhos atentos, absorvendo cada movimento. Aquilo mudava o jogo.
Então, como já era esperado, um padre surgiu entre as figuras do salão. Os seus passos eram calmos, quase solenes, contrastando com o peso daquela reunião.
Ele carregava consigo um pequeno recipiente e, sem dizer uma palavra, aproximou-se de Nerone.
A água foi derramada sobre a sua cabeça.
O gesto não era apenas religioso — era simbólico. Um renascimento. A aceitação de que os destinos de Nerone e do Cobra estavam agora entrelaçados.
O padre então ergueu um punhal. A lâmina reluziu sob a luz dourada do salão. Ele o estendeu a Nerone.
— Ofereça o seu sangue. — disse, em tom grave.
Nerone pegou o punhal sem hesitar.
A lâmina cortou sua palma, e algumas gotas de sangue escorreram, caindo dentro do cálice que o padre sustentava.
O vermelho se espalhou lentamente.
Em seguida, Álvaro tomou o punhal e repetiu o gesto.
Depois, Félix fez o mesmo, sem perder o sorriso — embora seus olhos carregassem algo mais sério agora.
O padre observou o cálice por um instante, murmurando uma breve oração.
— Está feito.
O silêncio tornou-se ainda mais pesado.
— A partir deste momento… vocês compartilham o mesmo sangue. São família.
O salão irrompeu em aplausos. Nerone observava tudo ao seu redor, enquanto Álvaro exibia um sorriso satisfeito.
— Agora somos irmãos mesmo. — disse Félix, aproximando-se e abraçando Nerone. — Mandei fazer algo para nós.
Com cuidado, Félix retirou um estojo do terno. Dentro, acomodadas sobre cetim preto, estavam duas pulseiras de couro com uma pequena placa de prata, onde algumas runas estavam gravadas.
— Está em uma língua antiga, significa “irmãos”. Mas você não é obrigado a usar. — disse ele, ficando sem graça pela primeira vez.
— Você é louco, Félix. — disse Nerone, pegando a pulseira e colocando-a no pulso. — É barulhento e, às vezes, chato… mas, por alguma razão, eu gosto de você.
Nerone realmente gostava de Félix. Eles eram diferentes em muitos aspectos, mas também semelhantes — e isso o fazia entender o comportamento dele. Era como se Félix fosse uma versão mais jovem de Aurélio: imprudente e desbocado.
— Sabia que você iria gostar. — disse Félix, convencido.
— Gostaria de entregar algo à sua noiva, Nerone. — disse Álvaro, segurando uma caixa. — Ela também fará parte da nossa família, e quero que se sinta querida e valorizada.
Nerone percebeu, pelo olhar de Álvaro, que não havia segundas intenções. Ele apenas queria fortalecer os laços.
— Vou chamá-la, padrinho. — disse Nerone, afastando-se. Ele estava ansioso para ver sua Tampinha.
Amália estava com as mulheres da Fênix quando Nerone a encontrou. Usava um vestido branco de renda que marcava sua cintura e se abria suavemente até os joelhos. Estava encantadora.
— Venha, o padrinho quer te conhecer. — disse ele, estendendo a mão.
Amália segurou a sua mão e o acompanhou pela multidão.
— Vamos conversar depois sobre essas pernas à mostra. — murmurou ele em seu ouvido, guiando-a.
— Você não manda em mim. — respondeu ela, com um sorriso.
— Vou fazer você engolir essas palavras de um jeito bem prazeroso, tampinha. — disse, apertando levemente a sua cintura.
Quando Amália encontrou o olhar de Álvaro, hesitou, travando por um instante — mas Nerone a guiou até ele.
— Esta é Amália, padrinho. Minha noiva. — disse ele, com naturalidade. Havia orgulho em sua voz.
— É um prazer conhecê-la, Amália. Eu sou Álvaro, padrinho do Nerone. — disse ele, com a voz mais suave. — Em breve você também fará parte da nossa família, e desejo que se sinta bem-vinda. Por isso, preparei um presente para você.
Álvaro estendeu a caixa.
Amália o encarou, surpresa, sem esperar aquelas palavras. Um pouco hesitante, pegou o embrulho e o abriu, revelando um conjunto de joias deslumbrante — capaz de tirar o fôlego de qualquer um.
— Esse conjunto foi feito por um designer misterioso e é único no mundo. Espero que goste.
Nerone olhou para as joias com reconhecimento.
Era um dos seus primeiros trabalhos.
Quando ergueu os olhos para Álvaro, encontrou um sorriso de canto.
De alguma forma… ele sabia.