A mesa estava posta, e todos estavam sentados ao redor dela. Amália observava a quantidade de pratos com os olhos brilhando. Ao que parecia, eles levavam as refeições muito a sério naquela mansão.
— Ela é tão linda, menino. — dizia a babá, aproximando-se de Amália. — Mas está muito magra, então hoje fiz mais algumas coisas. Espero que ela goste.
Amália ouvia as palavras da senhora com carinho. Ela parecia uma avó amorosa.
— Não precisava, senhora. — responde ela.
— Precisava sim, e pode me chamar de babá, igual aos outros. Você é da família também, querida. — responde ela.
— Esqueça, Amália, apenas aceite o cuidado da babá. Ela não vai te deixar em paz. — diz Aurélio com um sorriso no rosto.
— Diz isso porque se deita até hoje no colo dela. — responde Oksana.
— Você faz o mesmo. — rebate ele.
— Sim, mas você sempre rouba o meu lugar. — diz ela, fazendo-os rir.
Amália observava aquela conversa com alegria. Ela vê a velha senhora se sentar à mesa ao lado de Aurélio. Ele serve o prato dela assim como fazia com Oksana, e ela percebe que o carinho que ele tinha pela mulher era muito maior do que o de um patrão por uma funcionária.
— Ela é como uma mãe para ele… para todos nós, na verdade. — diz Nerone, observando o olhar de Amália. — A babá está com o meu irmão desde que ele era pequeno, então ela é da família.
Amália conseguia perceber isso. Via que todos naquela mesa amavam a velha senhora, até mesmo os pequenos sempre davam um jeito de estar perto dela.
— Para quando é o bebê, Dandara? — pergunta Amália.
Aurélio havia chamado Calebe para o jantar. Dandara estava com uma barriga enorme, e Calebe permanecia ao lado dela como um protetor incansável.
— Para as próximas semanas. — responde ela com um sorriso.
— Já sabem o que é? — pergunta Amália.
Mas, antes que Dandara pudesse responder, a risada de Aurélio ecoa pela casa.
Amália olha para ele sem entender. Ao se virar para Calebe, encontra o olhar sombrio do homem direcionado ao chefe.
— Vamos, Calebe, diga a ela o que é o bebê. — provoca Aurélio, ainda rindo.
— Menina. — responde ele entre os dentes.
Amália não entendia por que ele parecia tão bravo.
— Não queria que fosse menina? — pergunta curiosa com o comportamento dele.
— Calebe não liga para isso, senhorita. — diz Dandara com um sorriso. — Já temos uma menina, e ele é um pai maravilhoso.
— Então não entendo. — responde Amália.
— Ele não gosta dos pedidos de casamento que chegam para a filha. — explica Nerone tranquilamente enquanto comia.
Amália volta o olhar para Calebe, mas agora o encontra mais controlado, uma das mãos descansando suavemente sobre o ventre inchado de Dandara.
— Ninguém será bom o bastante para a minha menina. — diz ele.
— Eles nunca serão, meu amigo, mas ela terá que escolher alguém, e quanto antes isso acontecer, melhor será. — comenta Aurélio.
Aurélio sabia exatamente o que o amigo sentia, porque enfrentava o mesmo quando o assunto era sua família. Mas ele tinha aprendido a lidar com aquilo com mais calma… isso depois de ameaçar alguns e torturar outros.
— Quero me casar com o mano, papai. — diz Mili enquanto comia tranquilamente.
Os olhos de todos se voltam para Zion, que deixa o garfo cair no prato de forma audível. O menino estava branco como papel enquanto percebia os olhares sobre ele.
— Eu… eu nunca tocaria nela, senhor. — diz ele apressado.
— Eu sei, Zion. Se tem alguém em quem eu confio, é em você. — responde Aurélio com um suspiro.
Aurélio sabia que teria que escolher alguém para suas filhas. Ao menos, se fosse alguém que cresceu sob os seus olhos, ele se sentiria mais confortável.
— Então ele pode se casar comigo, papai? — pergunta a menina animada, os olhos azuis brilhando.
— Você ainda é muito pequena, meu bebê. Mas, se no futuro ainda quiser se casar com Zion, e ele também aceitar, não vou negar um pedido seu.
— Eba! — comemora ela animada. — Viu, Zion? Agora você é meu.
A mesa explode em risadas com as palavras da menina, mas Zion não sorria. Na verdade, ele parecia completamente apavorado ao ouvi-las.
— Não se preocupe, dê tempo ao tempo. Ela muda de ideia. — diz Nerone mais baixo, apenas para o menino ouvir.
Zion respira mais aliviado e volta a comer, ignorando o que tinha acontecido segundos antes.
Amália observava aquela interação com atenção. Pela primeira vez, estava conhecendo os Donati de verdade, fora da fachada que carregavam, e percebeu que eles não eram tão diferentes de qualquer família comum.
O restante do jantar foi tranquilo. Comeram, riram e conversaram. Amália descobriu muitas coisas que não sabia sobre eles. Quando terminou de comer, retirou-se da mesa e foi se sentar do lado de fora. O céu estava bonito, e havia uma brisa agradável no ar.
Em silêncio, Nerone se senta ao lado dela sem dizer nada, apenas desfrutando daquele momento tranquilo.
— O que você disse a ele? — pergunta Amália depois de alguns minutos de silêncio.
— Que não precisava se preocupar com as palavras da Mili por agora.
Aquilo a deixa confusa. Ela se vira para Nerone e encontra o olhar dele perdido no céu.
— Por quê? — insiste.
Nerone se vira para ela, encontrando seu olhar curioso.
— Zion é filho adotivo do meu irmão. Ele foi resgatado há alguns anos, quando estava sendo leiloado.
Aquela informação deixa Amália estarrecida. Ela não imaginava que o menino tivesse um passado tão sombrio em tão pouca idade.
— Eu não sabia.
— Não costumamos falar sobre isso. Ele é um Donati agora, e isso é tudo o que importa.
— Sim, você está certo. — Amália tinha visto durante o jantar o quanto o menino era querido por todos.
— Ele teve um passado difícil, algo sobre o qual se recusa a falar. Então é normal que não deseje ter uma família, ao menos por agora. Se Mili realmente o quiser no futuro, vai ter que lutar contra as sombras dele.