Capítulo 27

967 Words
O dia de Silas havia sido estranho. Ele tinha a sensação constante de estar sendo observado, embora não tivesse visto ninguém além de Bernardo. Essa inquietação só aumentava à medida que as horas passavam — e algo, em especial, o deixava profundamente surpreso: Nerone não havia aparecido para arrancar o seu couro. Tudo estava esquisito, e ele não sabia se agradecia ou temia aquele silêncio. Aquilo não podia ser bom, não para ele ao menos. Silas caminhou até o pequeno hospital da organização, onde Daniel ainda estava internado. Ao entrar no quarto, encontrou o amigo conversando tranquilamente com uma das enfermeiras. Assim que ela o viu se aproximar, se retirou rapidamente. — O pai dela te mata se te pegar de gracinha com ela — disse Silas, sentando-se em uma cadeira próxima. — Ela é solteira, eu sou solteiro. Não há motivo para o pai dela impedir qualquer coisa — respondeu Daniel de forma tranquila. — Há, sim… se você não falar com o chefe e com ele antes — retrucou Silas, arqueando a sobrancelha. A organização tinha suas regras e elas eram para todos. O pai da garota não era ninguém menos que Davi, um dos treinadores de Ricardo. Um homem insano em combate — e Daniel sabia muito bem o que o aguardava caso não pedisse autorização. — Vou falar com ele. E você, está bem? — perguntou Daniel. — Mais ou menos. — Conheço essa cara… o que você aprontou dessa vez, Silas? — perguntou, recostando-se na cama. — Chamei Amália para fugir comigo — disse ele, vendo os olhos do amigo se arregalarem. — Ela não quis. E, para piorar, o cão de Dom Aurélio ouviu tudo. Daniel ficou em choque. Por um instante, parecia incapaz de processar o que havia acabado de ouvir. — Você enlouqueceu! O Donati vai te matar, Silas! Ficava claro que Silas ainda não compreendia a gravidade do que havia feito — e Daniel já conseguia imaginar a reação de Ricardo quando soubesse. — Eu a amo, Daniel. Só queria que ela me escolhesse. Seríamos felizes juntos — disse, com o rosto abatido. — Ela não te ama, seu i****a! Crescemos juntos. Você acha que eu não saberia se ela sentisse alguma coisa por você? Diante do estado do amigo, Daniel já não via o soldado capaz que conhecia. Via apenas alguém cego por uma obsessão. — Ela me amaria se tivéssemos mais tempo… eu sei disso — insistiu Silas. — Você está procurando um jeito de morrer, porque é exatamente isso que vai acontecer se continuar com essa ideia. Daniel não era t**o. Sabia que o Donati amava Amália profundamente. O fato de ele estar naquele hospital já era prova suficiente disso. Mas Silas ainda se agarrava a uma ilusão. — Posso morrer, mas não vou desistir dela. — Porque você é um i****a. Não se força sentimento, Silas. E quanto antes você entender isso, melhor. — O tempo dirá — respondeu ele, levantando-se. Não queria permanecer ali ouvindo aquilo. O céu já escurecia quando Silas caminhava de volta para casa. Não podia reclamar — Ricardo era generoso quando estava satisfeito com os seus homens, e ele havia sido um dos privilegiados a ganhar uma casa. Aquele lugar era seu refúgio, onde tentava esquecer a própria insignificância. Tomou um banho demorado, comeu algo rápido e se deitou. Queria apagar aquele dia da memória — especialmente a rejeição de Amália. O sono veio rápido, mas não foi tranquilo. Era pesado, inquieto, sufocante. No meio da madrugada, ele despertou assustado quando algo frio o atingiu com força. O gosto metálico que invadiu a sua boca foi o primeiro indício. Sangue. Ele limpou o rosto como pôde, tateando no escuro até encontrar o interruptor. Quando acendeu a luz, o choque o paralisou. O seu corpo — e toda a cama — estavam cobertos por um líquido vermelho de odor forte. Sangue humano. O pânico percorreu as suas veias enquanto tentava entender o que havia acontecido. Ao erguer o olhar para a parede, encontrou a mensagem pintada: “Estou chegando.” O coração de Silas disparou. Aquilo não era um aviso qualquer — era uma sentença. E ele sabia exatamente de quem vinha. Nerone não estava indiferente. O Donati o estava chamando para o acerto de contas. Desesperado, começou a vasculhar o quarto em busca de qualquer sinal de invasão. Não havia nada. Nenhum rastro, nenhuma pista. Então pensou em Bernardo. A raiva o atingiu como um golpe. Ainda coberto de sangue, saiu pelas ruas em direção ao lugar onde sabia que o encontraria. O som das muletas ecoava na noite silenciosa, mas ele não se importava. Não seria feito de i****a. Ao chegar à casa de Amália, encontrou Bernardo sentado, conversando com um dos soldados da ronda noturna. — Espero que tenha se divertido com a sua brincadeira — cuspiu Silas, com o maxilar travado. Bernardo ergueu os olhos lentamente. — Pelo visto, você não anda precisando dos dentes, Silas… ou não falaria comigo desse jeito. — Apenas admita que foi você! Que fez isso para aquele maldito! — retrucou, exaltado. Antes que pudesse reagir, a mão de Bernardo já estava em seu pescoço, apertando com força. — Tenha mais cuidado ao se referir a um Donati — disse ele, com frieza. — E, se fosse eu… não seria o sangue de outros. Seria o seu, escorrendo até não sobrar nada. Bernardo o soltou. Silas caiu no chão, tossindo, levando a mão ao pescoço. — Se não foi você… então quem foi? — perguntou, ainda ofegante. — Os Donati têm as suas sombras — respondeu Bernardo, com um sorriso frio. — E, se uma delas te encontrou… você já sabe o que te espera. Medo e pavor tomam conta do rosto de Silas, ao perceber o que reaalmente estava acontecendo.
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