O dia de Silas havia sido estranho. Ele tinha a sensação constante de estar sendo observado, embora não tivesse visto ninguém além de Bernardo. Essa inquietação só aumentava à medida que as horas passavam — e algo, em especial, o deixava profundamente surpreso: Nerone não havia aparecido para arrancar o seu couro.
Tudo estava esquisito, e ele não sabia se agradecia ou temia aquele silêncio. Aquilo não podia ser bom, não para ele ao menos.
Silas caminhou até o pequeno hospital da organização, onde Daniel ainda estava internado. Ao entrar no quarto, encontrou o amigo conversando tranquilamente com uma das enfermeiras. Assim que ela o viu se aproximar, se retirou rapidamente.
— O pai dela te mata se te pegar de gracinha com ela — disse Silas, sentando-se em uma cadeira próxima.
— Ela é solteira, eu sou solteiro. Não há motivo para o pai dela impedir qualquer coisa — respondeu Daniel de forma tranquila.
— Há, sim… se você não falar com o chefe e com ele antes — retrucou Silas, arqueando a sobrancelha. A organização tinha suas regras e elas eram para todos.
O pai da garota não era ninguém menos que Davi, um dos treinadores de Ricardo. Um homem insano em combate — e Daniel sabia muito bem o que o aguardava caso não pedisse autorização.
— Vou falar com ele. E você, está bem? — perguntou Daniel.
— Mais ou menos.
— Conheço essa cara… o que você aprontou dessa vez, Silas? — perguntou, recostando-se na cama.
— Chamei Amália para fugir comigo — disse ele, vendo os olhos do amigo se arregalarem. — Ela não quis. E, para piorar, o cão de Dom Aurélio ouviu tudo.
Daniel ficou em choque. Por um instante, parecia incapaz de processar o que havia acabado de ouvir.
— Você enlouqueceu! O Donati vai te matar, Silas!
Ficava claro que Silas ainda não compreendia a gravidade do que havia feito — e Daniel já conseguia imaginar a reação de Ricardo quando soubesse.
— Eu a amo, Daniel. Só queria que ela me escolhesse. Seríamos felizes juntos — disse, com o rosto abatido.
— Ela não te ama, seu i****a! Crescemos juntos. Você acha que eu não saberia se ela sentisse alguma coisa por você?
Diante do estado do amigo, Daniel já não via o soldado capaz que conhecia. Via apenas alguém cego por uma obsessão.
— Ela me amaria se tivéssemos mais tempo… eu sei disso — insistiu Silas.
— Você está procurando um jeito de morrer, porque é exatamente isso que vai acontecer se continuar com essa ideia.
Daniel não era t**o. Sabia que o Donati amava Amália profundamente. O fato de ele estar naquele hospital já era prova suficiente disso. Mas Silas ainda se agarrava a uma ilusão.
— Posso morrer, mas não vou desistir dela.
— Porque você é um i****a. Não se força sentimento, Silas. E quanto antes você entender isso, melhor.
— O tempo dirá — respondeu ele, levantando-se. Não queria permanecer ali ouvindo aquilo.
O céu já escurecia quando Silas caminhava de volta para casa. Não podia reclamar — Ricardo era generoso quando estava satisfeito com os seus homens, e ele havia sido um dos privilegiados a ganhar uma casa. Aquele lugar era seu refúgio, onde tentava esquecer a própria insignificância.
Tomou um banho demorado, comeu algo rápido e se deitou. Queria apagar aquele dia da memória — especialmente a rejeição de Amália.
O sono veio rápido, mas não foi tranquilo. Era pesado, inquieto, sufocante. No meio da madrugada, ele despertou assustado quando algo frio o atingiu com força.
O gosto metálico que invadiu a sua boca foi o primeiro indício.
Sangue.
Ele limpou o rosto como pôde, tateando no escuro até encontrar o interruptor. Quando acendeu a luz, o choque o paralisou.
O seu corpo — e toda a cama — estavam cobertos por um líquido vermelho de odor forte.
Sangue humano.
O pânico percorreu as suas veias enquanto tentava entender o que havia acontecido. Ao erguer o olhar para a parede, encontrou a mensagem pintada:
“Estou chegando.”
O coração de Silas disparou. Aquilo não era um aviso qualquer — era uma sentença. E ele sabia exatamente de quem vinha.
Nerone não estava indiferente.
O Donati o estava chamando para o acerto de contas.
Desesperado, começou a vasculhar o quarto em busca de qualquer sinal de invasão. Não havia nada. Nenhum rastro, nenhuma pista.
Então pensou em Bernardo.
A raiva o atingiu como um golpe.
Ainda coberto de sangue, saiu pelas ruas em direção ao lugar onde sabia que o encontraria. O som das muletas ecoava na noite silenciosa, mas ele não se importava. Não seria feito de i****a.
Ao chegar à casa de Amália, encontrou Bernardo sentado, conversando com um dos soldados da ronda noturna.
— Espero que tenha se divertido com a sua brincadeira — cuspiu Silas, com o maxilar travado.
Bernardo ergueu os olhos lentamente.
— Pelo visto, você não anda precisando dos dentes, Silas… ou não falaria comigo desse jeito.
— Apenas admita que foi você! Que fez isso para aquele maldito! — retrucou, exaltado.
Antes que pudesse reagir, a mão de Bernardo já estava em seu pescoço, apertando com força.
— Tenha mais cuidado ao se referir a um Donati — disse ele, com frieza. — E, se fosse eu… não seria o sangue de outros. Seria o seu, escorrendo até não sobrar nada.
Bernardo o soltou.
Silas caiu no chão, tossindo, levando a mão ao pescoço.
— Se não foi você… então quem foi? — perguntou, ainda ofegante.
— Os Donati têm as suas sombras — respondeu Bernardo, com um sorriso frio. — E, se uma delas te encontrou… você já sabe o que te espera.
Medo e pavor tomam conta do rosto de Silas, ao perceber o que reaalmente estava acontecendo.