O motor do avião cortava o céu com um ronco constante, tranquilo, como os pensamentos de Nerone naquele momento, ele não poderia estar mais satisfeito.
A cabine estava silenciosa — o avião era pequeno, funcional, feito exclusivamente para não chamar a atenção naquele trecho. Nada além do necessário. Eles não queriam atenção desnecessária, e tinha presa em resolver as coisas.
Sentado próximo à janela, ele observava a tela do celular com atenção incomum, algo que pouco fazia. Um vídeo rodava mais uma vez.
Silas. Desesperado. Coberto de sangue.
O momento exato em que ele despertava, confuso, tentando entender o que havia acontecido, enquanto o terror tomava conta dos seus olhos.
Um sorriso curvou lentamente os lábios de Nerone, raro e perigoso. Iago tinha comprido a missão que ele tinha dado com perfeição.
Ele assistiu novamente. E novamente, como se saboreasse cada segundo. E sim, aquele vídeo lhe dava um prazer indescritível. Silas estava recebendo apenas uma parte do seu ódio, muito mais viria em breve, e o homem lamentaria o dia que tinha cruzado o seu caminho.
— Já assistiu isso quantas vezes? — a voz de Calebe quebrou o silêncio. Nerone já tinha até mesmo esquecido que o soldado estava com ele naquele avião.
Nerone não desviou o olhar da tela.
— O suficiente. — Responde de forma tranquila.
Calebe se aproximou, inclinando o corpo para observar melhor. O vídeo ainda rodava. Um sorriso curva os lábios dele ao ver o que o garoto tinha aprontado. Ele realmente era um Donati.
— Admito… ficou bem feito.
— Foi ideia da Oksana — disse Nerone, casual, como se comentasse sobre o clima.
— Claro que foi — murmurou Calebe, com um meio sorriso. — Aquela russa tem bons metodos.
Desde que Oksana tinha entrado para a família Donati os soldados não apenas a temia, mas tinha profunda admiração com as coisas que ela fazia. Eles pensavam que seu chefe era c***l, mas mudaram de ideia depois que conheceram a dama da máfia Donati.
— Ela é eficiente, até de mais. — Diz Calebe com um suspiro.
— Ele precisa entender. — Disse Nerone com a voz baixa.
— Entender o quê? — Perguntou Calebe surpreso pelo garoto estar falando tanto.
— Que já está morto.
Calebe sustentou o olhar por um segundo, depois soltou um leve riso nasal.
— Você sempre foi direto… mas isso aqui — apontou para o celular — é outra coisa.
— Ele ultrapassou o limite.
Não havia raiva na voz de Nerone. Era apenas a constatação de uma realidade, e quem mexia com quem não devia pagava o preço, um preço mais alto do que poderia suportar.
— E agora? — perguntou Calebe, cruzando os braços. — Vai brincar mais um pouco ou vai acabar logo com isso?
Nerone inclinou a cabeça levemente, pensativo.
— Ainda não está na hora dele morrer. Quero que ele implore por isso. — Responde com olhos sombrios
— Coitado — disse Calebe, sem qualquer traço de pena real. — Vai enlouquecer antes de você encostar nele.
— Esse é o objetivo.
O silêncio voltou por alguns segundos, preenchido apenas pelo som constante das turbinas.
— Nosso vizinho? — Pergunta Nerone, travando a tela do celular e o guardando. — Já sabe quem é?
— Uma organização menor. Cresceram rápido demais… e ficaram corajosos demais.
Nerone descruzou as pernas, ajustando-se no assento. Aquilo era trabalho de rotina para ele. Já tinha perdido as contas de quantas organizações havia enfrentado nos últimos anos, e essa seria apenas mais uma em sua lista.
O avião começou a perder altitude suavemente.
Do lado de fora, o azul do oceano se estendia até onde a vista alcançava, quebrado apenas pela silhueta da ilha que surgia no horizonte. Um ponto estratégico. Um dos pilares do império de Aurélio.
— Chegamos — disse Calebe, olhando pela janela.
Nerone acompanhou o olhar. A ilha se aproximava rapidamente, nenhuma mudança visível desde a última vez que ele tinha estado ali. Tudo parecia normal na superficie.
— Vamos resolver isso rápido — disse, com calma.
Calebe sorriu de lado.
— Rápido, gosto dessa ideia. — Os pensamentos de Calebe se voltaram para Dandara com aquelas palavras e em como ele queria estar perto da sua esposa naquelas ultimas semanas der gestação. Dandara estava grávida de um menino, e a cada dia que passava o amor de Calebe por ela aumentava ainda mais.
O avião tocou o solo. E, naquele instante, alguém naquela ilha — ainda sem saber — já tinha o destino selado.
Assim que a porta se abre Nerone e Calebe encontra o sorriso de Guilherme, aquele lá nunca mudava, mesmo que anos tenham se passado. Ele continuava o mesmo de sempre, animado e sorridente.
— Bem vindos senhores, já faz um tempo desde a última vez. — Diz ele os cumprimentando.
— Verdade, e você não mudou nada. — Diz Calebe.
— Mudei sim, senhor Calebe. Eu me casei agora. — Diz ele mostrando a aliança no seu dedo com alegria.
— Isso é bom, fico feliz por você. E lembre-se de tratar bem a sua esposa, não vai querer uma visita nossa. — Diz Calebe em advertência.
— Jamais senhor, amo aquela mulher. — Diz ele rapidamente.
— Vamos ao que interesa. — Diz Nerone interrompendo a conversa.
— Claro senhor Donati, me acompanhem por favor.
Eles andam pela vila em direção à casa do chefe, era ali que resolviam o que precisavam. Com o passar dos anos a vila também tinha mudado, ficado mais moderna. Ainda era um lugar pequeno, mas agora tinha uma estrutura de primeira, com escola, mercado e tudo o que eles precisavam. Aurélio tinha levado ao pé da letra sua palavra anos atrás, e o povo daquele lugar era grato por isso.
— O senhor Donati e o senhor Calebe, Eloy. — Diz Guilherme abrindo a porta do escritório para eles entrarem.
Eloy ergue o seu rosto para os rezem chegados com um brilho de esperança no olhar. Com eles ali tudo seria resolvido muito mais rápido.