Capítulo 75

1028 Words
O olhar dele era tranquilo, sereno até mesmo, sem nenhum indício de malícia. Parecia que o que ele estava fazendo era algo natural, como se eles tivessem feito aquilo a vida toda. A mão de Nerone acariciava lentamente a perna de Amália, sentindo seu corpo se arrepiar com o seu toque. Amália era seu tesouro, e, no seu coração, ele apenas desejava protegê-la com tudo o que tinha. Ela estava com o rosto corado, e aquela inocência só fazia com que o desejo no peito dele aumentasse ainda mais. — Não me enrole, Nerone, sabe o que quero. — diz ela com a mão em seu peito, os olhos fixos nos dele. Aquele azul a encantava. Amália se perguntava como alguém poderia ter aquele tom nos olhos. Era vibrante, com um brilho que chegava a hipnotizá-la, e ela poderia passar dias olhando para ele sem se cansar. — Até onde eu me lembre, sempre vivi no porão de Pavini. — diz ele com o maxilar trincado. Ele não queria relembrar aquilo, mas entendia a necessidade de Amália de conhecer o seu passado, algo que nunca tinha contado a ela e que, se não fosse sua insistência, jamais contaria. — Quem é Pavini? — pergunta ela em um sussurro, sentindo o quanto aquele nome o desestabilizava. — O avô paterno do meu irmão. — responde a contragosto. — Quando a mãe do meu irmão faleceu em uma emboscada, ele o culpou por isso e acabou me sequestrando para obrigar meu irmão a fazer o que ele queria. Tem poucos anos que ele conseguiu me libertar. Amália tinha os olhos arregalados ao ouvir aquilo. Ela não imaginava que Nerone tivesse passado por tudo aquilo ainda tão jovem. Agora entendia por que ele sempre tinha aquela sombra nos olhos. Nerone não falava muito, não fazia brincadeiras nem ria, e Amália agora compreendia o motivo do comportamento dele. Ela podia ver o tormento se formando em seus olhos ao contar o que tinha acontecido. — Ele era louco, não pode culpar uma criança pelo que houve. — diz indignada. — Ele era louco. — diz ele com um sorriso de canto. — Você o matou. — diz Amália. Ela olha para Nerone esperando medo ou repulsa pelo que ele tinha feito, mas não havia nada. Era loucura, mas Amália compreendia o motivo de ele ter feito aquilo. — Sim. Ele me torturou por anos naquele lugar maldito! — diz com o maxilar trincado, o corpo tremendo levemente ao se lembrar de tudo o que tinha sofrido. — Sabe como eu perdi esse olho, Amália? Amália olha para Nerone surpresa com a pergunta. Ele odiava que falassem do seu olho e, naquele momento, estava incentivando justamente o contrário. Ela sentia o quanto aquela conversa estava custando a ele, mas não queria que ele parasse; precisava saber o que tinha acontecido. — Não. — diz com um suspiro. — E o pessoal nunca me contou, sempre diziam que a história não era deles para compartilhar. O peito de Nerone se enche de gratidão ao ouvir aquilo. Saber que seus amigos se preocupavam com ele era o melhor presente que poderia receber. — Eu sou grato por isso. — responde ele. — Como você perdeu o seu olho, Nerone? — pergunta ela enquanto levantava a mão e tocava de forma gentil o tapa-olho que ele usava. — Pavini. Ele arrancou meu olho com um alicate. Aquelas palavras caíram nos ouvidos de Amália como uma bomba. Ela podia ouvir o zumbido ao fundo enquanto processava o que ele tinha dito. Seu peito gela e seu coração dispara quando sua mente recria a cena sem sua permissão. O estômago de Amália embrulha, e ela sente o gosto ácido do vômito em sua boca. Crueldade. Ela pensava em como um ser humano poderia ser tão c***l com uma criança. Mas, ao que parecia, Pavini não podia ser considerado humano. — Que horror! — diz ela, chocada. — Aquele maldito! Ainda bem que está morto, ou eu mesma acabaria com ele. Nerone observa a reação de Amália com curiosidade. Ela estava feroz enquanto fechava o punho na frente do rosto, as bochechas vermelhas, mas agora de raiva pelo que ele tinha sofrido. — Faria isso por mim? — pergunta ele, agora mais tranquilo. — Mas é claro, Nerone! Você era uma criança, não tem como te responsabilizar pelos erros dos outros. Esse homem era louco. Nerone olha para Amália novamente, com uma alegria imensa invadindo seu peito. Ela se preocupava com ele, e muito, sem contar que ficava muito fofa quando estava brava. Sem que percebesse, um sorriso se abre em seu rosto. — Está rindo de mim? — pergunta ela brava ao ver o sorriso no rosto dele. — Não ria de mim ou eu te bato, Nerone. Nerone não resiste. Com uma das mãos, ele envolve a nuca dela, puxando-a para um abraço, seu queixo descansando na curva do pescoço dela enquanto inalava aquele cheiro gostoso que ela tinha, um cheiro que o fazia se sentir em casa. — Eu não estou rindo de você, eu estou feliz por saber que se preocupa comigo, Tampinha. Amália suspira com as palavras dele. — Vamos nos casar, Nerone, é claro que eu preciso me preocupar com você. — diz ela acariciando os cabelos revoltos dele. — Eu vou cuidar bem de você, Tampinha. Eu a amo, Amália, desde a primeira vez que pus os olhos em você. — diz ele, afastando-se para olhar em seus olhos. — Você... me ama mesmo? — pergunta ela em dúvida. Não era a primeira vez que Amália ouvia aquelas palavras da boca de Nerone, mas antes não as tinha levado a sério; afinal, poderia ser apenas um delírio da mente dele. — Eu tenho cara de mentiroso, Amália? Se não te amasse, não teria esperado tanto por você. — diz ele com a sobrancelha arqueada. — Não estou perguntando por m*l, só queria ter certeza de que não era sua mente te pregando peças. — diz ela dando de ombros. Nerone revira os olhos enquanto a puxa para um beijo. Ao que parecia, teria que provar com ações o que sentia por ela.
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