Pela forma como o homem à frente deles os encarava, ficava claro que havia muito mais naquela história do que sabiam. Aquilo não era algo isolado. Ao longo do ano, diversas vezes precisavam fazer uma “limpeza” nas redondezas onde mantinham os seus negócios — sempre havia alguém acreditando que poderia tirar vantagem deles.
— O que houve, Eloy? Você não nos chamaria por pouca coisa — disse Nerone, sentando-se à frente dele.
— E está certo, senhor Donati. O problema é um pouco maior do que pensamos. Foi por isso que o chamei — respondeu.
— Conte-nos o que sabe, Eloy — pediu Calebe.
— Tudo bem — disse ele, suspirando. — Há cerca de um mês, essa organização se instalou próxima à nossa. Nunca fizeram contato oficial, apenas passaram a prejudicar os nossos negócios, interrompendo cargas e atrasando entregas.
— Aurélio não vai gostar disso. Ele odeia que a suas entregas atrasem — comentou Calebe, balançando a cabeça.
— Sabemos disso. Nas últimas vezes, tentamos usar outros métodos de transporte, mas, esta semana, eles também bloquearam essas mercadorias. Claro que poderíamos invadir e acabar com tudo por lá — Dom Aurélio nos treinou para isso —, mas há civis naquela ilha, e não queremos causar danos a eles. Então pensei que vocês poderiam nos ajudar a agir de forma mais… controlada.
Nerone ouviu tudo com atenção, analisando cada detalhe. Ainda assim, algo não fazia sentido.
— Você sabe quem é o líder deles? — perguntou.
— Sim. Conseguimos uma foto — respondeu Eloy, entregando-lhe um retrato. — Até onde sabemos, ele é um empresário, mas desconhecemos o ramo em que atua.
— Deixe comigo. Vou resolver isso esta noite — disse Nerone, já se levantando.
— Precisa que eu mobilize os homens, senhor Donati? — perguntou Eloy.
— Eu vou sozinho.
A resposta o surpreendeu.
Todos conheciam a fama dos Donati, mas ainda assim havia coisas sobre eles que conseguiam impressionar.
— Não se preocupe, Eloy. O Nerone é especialista em entrar e sair de lugares difíceis. Ele vai ficar bem — disse Calebe, já se dirigindo à saída.
— Para mim, eles são loucos — murmurou Guilherme, observando-os se afastar.
— São, sim. E é por isso que são bons no que fazem, Guilherme — respondeu Eloy, lembrando-se da primeira vez que os vira. — Acompanhe-os e garanta que tenham tudo de que precisarem.
— Farei isso — disse ele, apressando o passo para alcançá-los.
Guilherme os levou até a casa reservada para eles, um pouco mais afastada das demais. Tudo estava como sempre: simples, limpo e funcional.
— Tudo como deixaram — disse, abrindo a porta.
— Obrigado, Guilherme — respondeu Calebe.
— Se precisarem de algo, é só me chamar no rádio. Venho na hora — disse ele, sorrindo.
Assim que Guilherme saiu, Calebe voltou-se para Nerone, aguardando as suas ordens. Sabia que ele já devia ter um plano — o silêncio do rapaz era sempre um sinal disso.
— Vou enviar essa foto para Alícia. Preciso que ela investigue mais. Estamos deixando algo passar.
Calebe concordou. Qualquer um com amor à própria vida sabia que aquele território pertencia a Dom Aurélio — e ninguém queria problemas com o italiano.
— Também acho.
Nerone enviou todas as informações, incluindo a foto. Durante o resto do dia, ele e Calebe analisaram a planta da ilha vizinha, estudando pontos fracos e a segurança do local. Um leve sorriso surgiu quando Nerone percebeu quem estava cuidando da proteção.
Homens de Babilônia.
Aquilo significava dinheiro. Muito dinheiro.
Pegando o telefone, enviou uma mensagem para Iago, pedindo informações sobre aquele cliente. A resposta veio rápida: o homem havia contratado os mercenários sem prazo definido, pagando uma fortuna adiantada. Nenhuma explicação havia sido dada — e, para eles, não importava.
Dinheiro era suficiente.
Nerone ligou para Iago e informou que “um amigo” precisaria de acesso à ilha. Iago entendeu imediatamente.
O problema estava resolvido.
— Pelo visto, você encontrou um jeito — disse Calebe, aproximando-se com o notebook.
— Sim. Vai ser rápido.
Calebe não fez perguntas. Sabia que os Donati estavam envolvidos em muito mais do que ele conhecia — e que a melhor forma de sobreviver era não se aprofundar demais.
— Alícia enviou as informações que você pediu — disse, colocando o notebook diante dele.
Os olhos de Nerone percorreram os dados com avidez. Conhecer o inimigo era sempre uma vantagem.
Mas, mesmo após ler tudo, algo continuava fora do lugar.
Nada justificava aquele comportamento.
— Nada… — murmurou, fechando o notebook e massageando os olhos.
— Então vamos ter que recorrer aos velhos métodos — disse Calebe, com um sorriso de canto.
— Sim.
Quando a noite caiu, os dois se prepararam. Pegaram um pequeno barco a motor e partiram em direção à ilha vizinha.
Era hora do acerto de contas.
Assim que atracaram, vários homens surgiram, armas em punho. No entanto, ao reconhecerem Nerone, baixaram-nas imediatamente.
— Seitan nos avisou que o senhor viria, senhor Donati — disse o líder. — E uma ordem de Seitan deve ser cumprida.
— Me leve até o chefe — respondeu Nerone, sem rodeios.
— Por aqui.
Eles avançaram pela ilha. Ao redor, os moradores se encolhiam. Janelas eram fechadas às pressas conforme passavam.
O medo era palpável.
Logo chegaram a uma pequena casa no centro da vila.
— Tragam ele até mim — ordenou Nerone.
Os mercenários assentiram e entraram. Poucos instantes depois, arrastaram o homem para fora, jogando-o aos pés dele sem qualquer cuidado.
— O que estão fazendo? Ficaram loucos? Eu paguei pelos seus serviços! — gritou o homem, desesperado.
Nerone o encarou, os olhos frios e carregados de ódio.
— Acho que precisamos acertar contas.