Episódio 03

2024 Words
MORRO DO MIRIM. Gael, Falcão. UMA SEMANA DEPOIS... Hoje o dia tá mais ensolarado que o normal, para combinar com a minha animação. Ontem, eu e meus soldados pegamos mais um Morro para o meu comando. Agora eu tenho 5 Morros no total. Pretendo ter mais. Olho para o lado e vejo Fernanda deitada de barriga pra baixo, tapada com um lençol branco da cintura para baixo. Nem a claridade que vem da janela é capaz de acordar ela. A noite foi ótima. Hoje a noite vou fazer um baile pra comemorar a minha vitória. Mais uma vitória. Meu celular começou a tocar em cima do bidê e eu peguei rápido pra não acordar a preta ao meu lado. Li o vulgo do Pedro na tela e atendi. Falcão: Qual foi, arrombado? - Levantei da cama devagar. Pesadelo: A Nicolly quer saber se pode levar o peguete dela pro baile que cê vai fazer hoje? Falcão: Claro que pode, pô, parceiros é sempre bom. - Sorri, enquanto tentava colocar a bermuda com uma mão só. - Não esquece de trazer a Emanuelle. - Sorri malicioso. Emmanuelle é amiga (lésbica) do Pesadelo. Pensa numa ruiva gostosa. Pesadelo: Perdesse já, ela tá de rolo com uma mina do asfalto. - Revirei os olhos. - Tu tem a Fernanda, mané, se contenta. Falcão: Mulher nunca é demais, parceiro. Tenho que desligar. Pesadelo: Beleza, fé ai. Falcão: Fé. Deixei o celular em cima do bidê e caminhei até o banheiro pra fazer xixi. Depois tomei um banho rápido e dei uma desenhada na barba. Sai do banheiro e vi a preta terminando de se vestir. Fernanda - Bom dia. - Sorriu de canto. Falcão - Bom dia, preta. Vai tomar café comigo? - Abri a porta do guarda-roupa e peguei meu perfume favorito, espirrando um pouco no pescoço e nos pulsos. Fernanda - Não, dona Vera não suporta atrasos. - Revirou os olhos e passou por mim, indo em direção ao banheiro. [...] Entrei no meu escritório e o Tigre começou a me atualizar sobre alguns assuntos importantes. Aproveitei que ele estava ali e avisei os novos horários para as trocas de turno. Ele me falou que uma mulher fez barraco mais cedo porque descobriu que o marido tava com a amante no bar onde a Fernanda trampa e eu mandei dar uma surra no cara para aprender a deixar de ser infiel. Quando pensei em bolar um fino, meu rádio apitou com um dos soldados falando que um dos novatos no movimento acertou um tiro sem querer em uma mina que tava em frente a barreira, do lado de fora. Não tenho um minuto de paz. Falcão: A mina é moradora, cuzão? - Perguntei, enquanto procurava o isqueiro. Rato: Não, chefe. O que a gente faz com ela? Falcão: Leva ela pra sala de tortura e chama aquela enfermeira que sempre ajuda a gente. - Mandei. - Qualquer complicação, chama. Deixei o radinho em cima da mesa e fiquei fumando enquanto respondia mensagens importantes. Uns 20 minutos depois, meu radinho apitou de novo e eu fiquei atento com o que escutei. Rato: Patrão? A mina tádizendo que é tua filha. Helena tá aqui? O que ela tá fazendo aqui? Falcão: Qual o nome dessa mandada? Rato: Helena, patrão. Ela disse que é filha de uma tal de Marcela. É ela mesmo, pô. Falcão: Marca 10 que eu já colo ai, velho. Rato: Beleza, fé. Levantei rápido e saí do escritório mais rápido ainda. Quando cheguei em frente ao casebre que eles trouxeram a Helena para curar o braço baleado, respirei fundo antes de entrar e ver minha filha sentada em uma cadeira de madeira com um curativo no braço direito, perto do ombro. Ela me olhou rápido, pude notar seu nervosismo e receio. Fiz toque com os manos e mandei eles se retirarem. Assim que eles saíram, puxei outra cadeira e sentei de frente pra ela, uns 10 passos de distância. Helena - Você é o Falcão? - Aceitei com a cabeça. Por anos eu assisti ela crescendo de longe. A vaca da Marcela não deixou eu fazer parte da vida da Helena. Por um lado eu entendia ela, tenho consciência que minha vida é perigosa demais para meter inocentes no meio, principalmente filhos. Mas eu nunca deixei de me importar e cuidar da Helena. Vi ela crescendo de longe. Marcela deve ter enchido a cabeça da menina de ideia errada sobre mim. Helena - Antes que pense que é mentira o que eu disse, - ela enfiou a mão no bolso do short jeans e estendeu uma folha na minha direção - minha mãe deixou essa carta antes de ir embora. Marcela meteu o pé? Pelo o que eu sei, Helena ainda não é maior de idade. Falcão - Não preciso ver folha nenhuma, maluca. - Ela ergueu uma sobrancelha. - Tua mãe me tirou da sua vida, mas eu te observei de longe, sempre. Não te conheço como ela te conhece, mas sei algumas coisas sobre ti. Eu te vi crescer, infelizmente não foi do jeito que eu queria, mas observei. - Passei uma mão nos cabelos, não acreditando que a minha filha está bem na minha frente. - É tão bom te ver de perto, tão satisfatório ouvir a tua voz. - Olhei para o braço dela. - O menino que te deu o tiro vai pagar. Helena - Não! - Ela guardou a folha no bolso novamente. - Deixa o menino em paz, ele já se desculpou. Olha só, eu só vim aqui porque a Marcela me abandonou e eu vi a entrada perfeita de vir conhecer o meu pai. Eu sempre perguntava sobre ti e ela só dizia que você nos abandonou. No fundo, eu sabia que era mentira. Marcela nunca foi muito sincera, só quando queria me magoar. - Suspirou, parecendo triste. - É bom saber que você não me abandonou, que me viu crescer e acompanhou minha infância, mesmo de longe. Falcão - Por que a Marcela meteu o pé? Helena - Não sei se tu sabe, mas ela nunca foi um exemplo de mãe. - Pegou o bilhete novamente. - Lê, por favor. - Peguei o papel e abri, começando a ler todas as asneiras que estava escrito naquela folha com flores desenhadas nas bordas. Quando terminei de ler, amassei o papel e joguei longe. Me levantei e estendi a mão pra minha filha, que aceitou depois de ponderar alguns segundos. Puxei ela devagar e abracei seu corpo pequeno. É tão bom abraçar a minha filha. Falcão - Sinto muito, Helena. Se eu soubesse que a Marcela não era uma boa mãe, teria ido atrás de ti e te tirado dela. De qualquer forma, eu não podia te trazer para a minha vida, tá ligada? Sou dono de cinco Morros, tenho muitos inimigos e eles iriam te usar o tempo todo para conseguir me atingir. Helena - Não precisa se desculpar. - Ergueu a cabeça pra me olhar e eu pude ver seus olhos marejados. - O importante é que agora eu sei que você não me abandonou e estava sempre por perto, me cuidando. Ela é tão fofa e calma, nem parece filha daquela v***a. Falcão - O braço tá doendo? - Fomos nos afastando devagar. Ela negou e eu fiquei mais aliviado. - Tá com fome, pô? Tem um barzinho aqui que vende um lanche de dar água na boca. Helena - Bora lá então. - Sorriu sem mostrar os dentes. Saímos do casebre e fomos caminhando até o barzinho que não ficava muito longe. Entramos no bar da dona Vera e sentamos em uma mesa perto da porta. Não demorou para a Fernanda se aproximar e olhar curiosa na direção da minha filha. Fernanda - O que desejam? - Perguntou olhando pra mim. Pedi o cardápio e entreguei pra Helena escolher, eu já decorei de trás pra frente esse negócio. Falcão - Uma cerveja bem gelada e um pastel de frango com requeijão. - Ela aceitou e anotou, direcionando seu olhar pra Helena. Helena - Eu vou querer o mesmo, só tira da minha lista a cerveja. - Entregou o cardápio pra preta depois que ela anotou. Falcão - Não vai beber nada, maluca? Helena riu e pediu uma lata de coca-cola. Fernanda avisou que logo iria trazer e se retirou. Logo meu celular vibrou com uma mensagem dela. Fernanda: Quem é essa, Gael? - Fernanda é uma das poucas pessoas que sabem o meu verdadeiro nome. Falcão: Minha filha, p***a. Qual foi? Fernanda: Cê nunca me contou que tinha uma filha. Achei que era alguma das tuas putas. - Revirei os olhos. Falcão: Eu não fico com pessoas com menos de 20 anos, tu sabe muito bem. A gente conversa depois, quero dar atenção pra ela. Deixei o celular em cima da mesa com a tela virada para baixo e olhei para a Helena, que estava olhando o movimento do lado de fora do bar. Fernanda deixou nosso pedido em cima da mesa. Fernanda - Vão querer copo? - Helena negou e eu também. - Bom apetite. - Piscou pra mim e se retirou para atender dois homens que entraram no bar. Logo teremos que sair daqui. Muitas pessoas inapropriadas vêm para esse bar assistir jogo de futebol na televisão que fica grudada na parede atrás do balcão. Sempre dá briga e eu não quero que a Helena faça parte disso. Helena - Nossa! Esse pastel é maravilhoso. - Passou o papel toalha no canto da boca. Falcão - É o melhor pastel do Morro. - Sorri depois de dar um gole na minha cerveja. - Então, - ela me olhou de canto - vai ficar por aqui ou o que? - Ela deu de ombros. Helena - Eu peguei 30 dias de férias no meu trabalho, tava pensando em ficar um tempinho aqui se tu deixar. - Colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha. Falcão - Pode ficar o tempo que quiser, minha casa é sua casa. - Ela sorriu e eu pisquei pra ela. - Trouxe suas coisas ou vai voltar pra pegar? Helena - Eu não trouxe nada, queria ver no que ia dar primeiro. - Sorriu timida. - Ainda bem que deu tudo certo, tô cansada de ficar sozinha. - Deu outra mordida no pastel. Eu odeio a Marcela com todas as minhas forças. Consigo ver a tristeza nos olhos da Helena quando ela fala sobre a mãe. Falcão - Eu não posso te levar lá pra tu buscar tuas coisas, vou pedir pro Tigre te levar. Helena - Tigre? - Ergueu uma sobrancelha. Falcão - Ele é um dos meus soldados de confiança. Vai te levar e trazer em segurança. Ela aceitou e continuou comendo o pastel. Depois de 15 minutos, terminamos de comer enquanto conversávamos e eu fui até o caixa pagar o nosso pedido. Fernanda - 21 reais, precisa de troco? - Entreguei uma nota de 50 e ela me devolveu 29 reais. Coloquei o dinheiro no bolso e dei um selinho na preta, que ficou toda boba. - Tua filha tá olhando. - Deu um t**a no meu ombro. Falcão - f**a-se. - Pisquei e me afastei um pouco. - Se vier com ciúmes pra cima de mim de novo, vai ficar sem seu agrado. - Sorri malicioso e ela mostrou o dedo do meio pra mim. Ri e fui ao encontro da Helena, que estava olhando pra televisão. Helena - É a tua namorada? - Apontou com o queixo na direção da preta. Falcão - Eu não namoro, pequena. - Ela fez uma carena com o meu apelido carinhoso. - Bora na minha casa? Quero te mostrar o quarto que tu vai ficar. Caminhamos devagar até a minha casa que fica no topo do Morro. Quando entramos, Helena ficou embasbacada com o luxo do lado de dentro. Apresentei toda a casa pra ela e deixei o quarto por último. Depois de ensinar ela a mexer no controle do ar-condicionado, chamei o Tigre pra levar ela no asfalto. Fernanda Araújo, Nanda. 32 anos. Ficante fixa do Falcão. Igor Couto, Tigre. 24 anos. Braço direito do Falcão.
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