Hoje é sexta feira, resolvi chamar a Letícia pra dar uma volta na favela, eu ainda não tinha realmente saído de casa desde que cheguei aqui. A comunidade estava bem movimentada, os barzinhos lotados, todos os tipos de pessoas misturadas.
Letícia: Vou te levar pro melhor pagode que tem aqui. - Sorriu.
Malu: Eu nem tô arrumada.
Letícia: Essa roupa tá perfeita, não precisa exagerar na produção.
Eu estava vestindo um conjunto preto, short e cropped. Era até uma roupinha de sair, mas sem muito glamour, por isso queria voltar pra trocar, mas a Letícia não deixou.
Paramos em frente a um bar que estava lotado, um pagode tocando e as pessoas dançando. Avistamos o Gustavo e o Matheus em uma mesa e fomos falar com eles.
Gustavo: Oi meninas. - sorriu simpático.
Letícia: Oi amores.
Malu: Oi.
Gustavo: Sentem-se.
O Matheus era mais calado e falava bem menos, só o importante que ele deixava escapar da sua cabeça para as pessoas. Já o Gustavo é todo simpático, conversa bastante e tira várias brincadeiras com a gente.
Gustavo: Bora dançar gatinha ? - Pegou minha mão.
Malu: Eu não sei bem dançar pagode, mas bora sim. - levantei.
Ficamos dançando e rindo muito juntos.
Estava eu ali agarrada com o Gustavo dançando, quando avisto por cima de seu ombro aquele troglodita que conheci na praia. Não posso negar o quanto ele é gato, mas só de ver ele já dá um ranço. Reconheci ele de lado e em questão de segundos ele ficou de costas pra mim, não deu pra ver seus olhos. E dando graças a Deus por ele não ter me visto.
Gustavo: Você dança bem pow.
Malu: Só consegui por que você foi me guiando.
Letícia: Eu vou ali na mesa de outros amigos, quer vir comigo amiga ?
Malu: Não, vou ficar por aqui !.
Letícia: Ok.
Letícia levantou e vi ela caminhar pra mesa que o troglodita estava. Lá eles estavam ostentando com vários tipo de bebidas caras, narguilé e muitas mulheres em volta. Se eu bem entendo de morro, com certeza alguns ou todos, são traficantes. Ainda bem que eu e aquele cara da praia não fomos com a cara um do outro.
Letícia voltou pra mesa depois de alguns minutos e eu falei que já ia pra casa, estava bem cansada e amanhã vai ter baile, quero descansar bem.
Letícia: O Gu vai te deixar.
Malu: Não precisa, quero ir andando, gosto de sentir a brisa da noite.
Gustavo: Você tem certeza ? é meio perigoso.
Malu: Eu sei me cuidar, mas obrigada.
Me despedi de todos e fui andando entre os becos e vielas, em quase todas as ruas tinha um ou dois moleques, armados. Não sei dizer se isso é mais perigoso ou seguro.
Cheguei na casa da minha mãe vi o Regis marido da mamãe, dormindo no sofá. Fiz o máximo de silêncio possível e fui direto para o meu quarto. Depois da minha higienização, fiquei mexendo no celular, procurei o perfil do barzinho que eu estava com os meninos, e fiquei vendo as marcações em busca de achar o perfil do troglodita, só queria mesmo ver um pouco sobre ele, mas não achei de jeito nenhum.
Não sei por que mais a sensação de conhecer ele é enorme, o jeito moleque dele me lembra alguém. Já tiveram essa sensação ? Enquanto eu não conseguir lembrar, ele vai ficar rodeando minha mente por isso quero tanto saber mais sobre ele, pra ver se acaba logo com isso.
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Acordei pela manhã com um barulho imenso de música tocando, me levantei um pouco estressada com aquilo. Meus planos eram de dormir até tarde, mas já vi que não vai rolar. Fui no banheiro e escovei meus dentes. Minha mãe estava na cozinha lavando umas louças.
Malu: Bom dia mãe.
Helena: Acorda tão cedo Luísa ?
Malu: Quem que consegue dormir com esse barulho ?
Helena: É a vizinha, sempre que faz faxina liga esse som.
Malu: Ela deveria ter respeito e não colocar nesse volume.
Helena: Não se estressa minha princesa, vou mandar o Regis comprar um bolo pra gente comer com um cafezinho.
Malu: Não precisa incomodar ele, eu vou ! Espera só eu me trocar.
Helena: Tá certo.
Entrei no quarto e peguei na minha mala um short e uma camiseta. O short era muito curto e já estava na hora de eu parar de usar ele, mas me sinto tão gostosa quando visto. Coloquei um óculos escuro, por que ninguém merece ver minhas olheiras esse horário da manhã e estava pronta pra sair.
Fui andando até o mercadinho que ficava ali perto de casa. Eu via os caras me secando e comecei a ficar com um pouco de vergonha, definitivamente é hora de doar esse short.
Entrei no mercadinho e peguei o bolo de chocolate, aproveitei e fiquei esperando os pães saírem do forno e levar alguns pra casa. Peguei meu celular e fui ver as notificações. Enquanto isso senti uma pessoa se escorar no balcão do meu lado, mas não tirei os olhos do celular pra ver quem era. Quando aquela voz rouca invadiu minha mente, eu instantaneamente olhei pro lado. Novamente era aquele cara, que merd*, até no mercadinho esbarro com ele.
Xxx: Seu Chico me vê aquele salgado quentinho de sempre.
Fiquei calada na esperança de ele não me reconhecer.
Chico: Você vai querer quanto de pão mocinha ?
Malu: Três reais. - Falei mansa o fazendo olhar pra mim.
Xxx: Tu é a mina da praia né ?
Malu: Não.
Xxx: É tu sim, aquela abusada.
Malu: Me respeita que tu nem me conhece.
Xxx: Tu é daqui da favela ? - Perguntou curioso.
Malu: Cria daqui desde que nasci.
Xxx: Como que eu nunca te vi ?
Malu: Isso não te interessa.
O seu Chico voltou com meus pães e eu virei o deixando lá, paguei no caixa e fui pra casa. Espero que dessa vez ele tenha entendido que não quero papo com ele e pare de querer falar comigo. De bandido e traficante só quero é distância.