1 Paixão perigosa, o dono do morro

1265 Words
Capítulo 1 Diego Albuquerque (Digão) Já ouviu falar de um cara que perdeu tudo antes mesmo de começar a viver? Prazer, Diego Albuquerque. Mas aqui na favela ninguém me chama assim. Sou o Digão. Branco, forte, cheio de tatuagem e com o olhar de quem já viu mais do que devia. Trinta e seis anos nas costas e um único motivo pra ainda respirar: minha filha, Maitê. Meus pais morreram no dia do meu aniversário de dezoito anos. Invasão surpresa. Tiros, grito, desespero... Só sobrou eu e minha irmã, Maria Júlia — a Maju. Ela meteu o pé daqui, foi estudar fora, aparece só nas férias... quando quer. A vida separou a gente e me jogou pro lado mais escuro do morro. Jurei que ia me vingar do filho da p* que comandava o morro rival. E eu cumpro palavra. Hoje, quem manda aqui sou eu. Ninguém questiona. Ninguém desobedece. Quando completei dezoito, só queria curtir. Fui pra noitada, peguei uma gatinha. Sem intenção nenhuma de me apegar — só pente e rala. Mas a mina engravidou. E aí, parceiro, minha vida virou de ponta cabeça. — Tá grávida? — perguntei, travado. — Tô. E é sua, Digão. Ela veio morar comigo na quebrada. Era pra ser parceria, mas virou tormento. Descobriu que tinha pego rubéola durante a gestação. Fiquei em choque, mas falei na lata: — Se a criança nascer com saúde ou não, é minha filha. E eu vou cuidar. A menina nasceu. Linda, perfeita. Maitê. Escolhi o nome com orgulho. Só que a Bianca, mãe dela, pirou. Depressão pós-parto, rejeição total. Fiquei com a pequena nos braços, sozinho, aprendendo a ser pai na marra. Quando Maitê fez um ano, percebi que ela não falava nada. Levei no médico. Veio o baque: — Sua filha é deficiente auditiva. Bianca surtou. Brigava o tempo todo. Um dia, soltou a pérola: — Nunca vou aceitar ter uma filha deficiente! — Então mete o pé! — gritei. — Vaza, porr@! Eu cuido da minha filha sozinho! E foi isso. Ficamos só eu e a Maitê. Desde então, jurei nunca mais me apaixonar. Me dediquei a ela e ao morro. Coloquei minha princesa numa escola especializada, fiz curso pra aprender a me comunicar com ela. A gente se entende no olhar. Ela é meu mundo. E quem ousar rir, zoar ou levantar a mão pra minha filha… morre. Já deixei o recado bem claro. O morro inteiro sabe. Tenho meus aliados: Fumaça, meu braço direito; BR, que corre na polícia e passa visão; e o Caveira… meu irmão de alma. O cara mais sinistro que conheço. Se o devedor não pagar, ele manda direto pro caixão. Sem dó. Hoje em dia, tô envolvido até o pescoço. Protejo minha filha com sangue nos olhos. O ódio que sinto pela mãe dela ainda queima. Me largou, largou a filha… covarde. Mas ultimamente, tem rolado uns papos de movimentação estranha no morro rival... e parece que o passado quer bater de novo na minha porta. --- Caveira Salve, salve, nessa porr@. Aqui é o Caveira, vulgo Igor Alves. Alto, magro, branco, tatuado até a alma. Sou o gerente da boca e melhor amigo do Digão desde os tempos de escola. Irmão de guerra. Nunca fui de me apegar. Pente e rala, sem enrolação. Mulher, pra mim, é diversão e depois cada um pro seu canto. Depois que meus avós morreram, vim pra favela. Não tinha onde cair morto. Pedi ajuda pro Digão, ele me colocou na gerência da boca. Me ensinou tudo. — Aqui é lei, Caveira. Se não pagar, morre. — Fechou, irmão. Pode deixar comigo. Desde os quinze tô nesse corre. Vi o Digão se f***r com a mãe da filha dele. Aquela vaca maldita. Dizia que amava, mas abandonou os dois na primeira dificuldade. Por isso que falo: amar é ilusão. Hoje, ver o amor dele pela Maitê é f**a. A menina é um anjo. Inteligente, esperta, lê os lábios, entende tudo. Tô fazendo curso também pra me comunicar melhor com ela. Mas o Digão tem pavor de uma coisa: a volta da mãe da Maitê. Ele sabe que se ela voltar… pode tentar alguma merda. E se tentar, vai conhecer o verdadeiro inferno. Enquanto isso, a gente tá organizando um baile no morro. Vai vir cantor brabo, bebida, droga, armamento... E Digão tá tentando fechar negócio com uns cara da máfia. — E aí, Fumaça, tá tudo certo pro baile? — pergunto. — Tá tudo no esquema, Caveira. Amanhã chega uma carga pesada. Volto pro meu barraco. Moro sozinho desde sempre. Meus pais sumiram quando eu era bebê. Me criei com os velhos. Às vezes trago umas mina aqui. Curto, fumo, transo, depois mando embora. — Nenhuma presta — falo pra mim mesmo, bebendo uma dose de whisky barato. Subo até a boca. O Digão tá lá com os moleques. Fumaça, BR, todo mundo no clima. Rindo, fumando, bebendo. Mas no fundo... ele tá tenso. Tem algo no ar. Algo grande chegando. E pela cara dele, acho que o passado tá voltando. E quando isso acontecer… Vai ter sangue correndo no chão. Diego Albuquerque (Digão) Acordei com o celular vibrando. Três e pouca da manhã. Olhei a tela: número desconhecido. — Quem é o filho da p* que liga essa hora? Atendi com a voz rouca, já pronto pra mandar se f***r. — Alô? Silêncio. Só uma respiração pesada do outro lado. Já fiquei em alerta. — Tá de gracinha, é? Vai falar ou vou te rastrear agora? A pessoa desligou. Fiquei com aquilo na cabeça. Levantei, fui até o quarto da Maitê. Ela dormia abraçada com o urso que dei no último aniversário. Aquilo me acalmava. Desci pra boca. Caveira tava lá, encostado no carro fumando um. — Acordado até agora? — perguntei. — Não tô conseguindo dormir. E tu? — Ligaram pra mim. Número estranho. Ficaram só respirando. Ele jogou a bituca no chão, pisou com força. — Pressentimento r**m. Essa noite tá estranha. Voltei pro escritório, peguei o rádio e chamei o BR. — BR, vê pra mim se consegue rastrear um número. Me ligaram agora pouco. — Manda print, Digão. Deixa comigo. Enquanto isso, Fumaça chegou com a cara amassada. — Digão, temos um problema. — Fala logo, caralh@. — Um dos nossos aviões sumiu. Moleque novo, tava com a primeira entrega da noite. A última vez que foi visto foi perto da viela do lado de lá... no limite do morro inimigo. — Tá me dizendo que entraram no nosso território? — Ou tão testando até onde a gente aguenta. Sentei na cadeira, respirei fundo. Tava tudo calmo demais esses dias. Quando o morro silencia assim... é porque vem guerra. Peguei minha pistola na gaveta. Olhei pro Caveira: — Junta os moleques. Hoje a gente desce. Se tão querendo provocar, vão aprender com quem tão mexendo. Ele assentiu, sem dizer nada. O olhar dele dizia tudo: morte anunciada. A noite passou devagar. Quando o dia clareou, recebi mensagem do BR. > “O número é de fora. Chip gringo. Registrado em nome de Bianca.” O sangue congelou. A p***a da mãe da minha filha. Depois de seis anos sem dar notícia. E agora aparece... na surdina? Levantei num pulo, coração disparado. Fui até o quarto da Maitê. Ela já tava acordada, me olhando com aqueles olhinhos que dizem tudo sem precisar de som. — Bom dia, princesa — falei, forçando um sorriso. Ela sorriu de volta. Mas no fundo... algo me dizia que aquele sorriso ia durar pouco. Porque quando o passado resolve bater na porta… ele não vem sozinho.
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