Gabriella acordou antes do despertador.
Não foi o sol, nem o silêncio da casa que a arrancou do sono. Foi a memória.
Abriu os olhos devagar, encarando o teto claro do quarto, sentindo o corpo ainda pesado, quente de um jeito estranho. A noite anterior não vinha em imagens completas — vinha em fragmentos. Sons. Silhuetas. A voz abafada de uma mulher. O ritmo que ela reconheceria em qualquer lugar do mundo, mesmo sem nunca ter vivido aquilo de perto.
Magno.
Seu estômago se revirou.
Virou-se de lado, puxando o lençol até o queixo, como se isso pudesse esconder o que se passava dentro dela. O quarto estava em silêncio, mas a mente não. Quanto mais tentava pensar em outra coisa, mais voltava àquele corredor escuro, à porta entreaberta, à certeza incômoda de que ela tinha visto demais.
E, pior ainda…
De que tinha gostado.
— Para… — murmurou baixinho, para si mesma.
Ficou alguns minutos deitada, respirando fundo, tentando organizar os pensamentos. Parte dela se sentia envergonhada. Outra parte tentava se convencer de que tudo aquilo era consequência do luto, da mudança brusca, da convivência intensa. Era mais fácil chamar de confusão do que encarar como desejo.
Mas o corpo não mentia.
Ela se levantou, tomou um banho demorado, deixando a água quente cair sobre os ombros enquanto tentava se livrar da sensação de estar sendo observada pela própria consciência. Vestiu uma roupa simples — ainda estava se recuperando, ainda precisava parecer a garota frágil que todos viam.
Quando saiu do quarto, a casa já estava acordada.
O cheiro de café fresco preenchia o andar de baixo. Passos discretos ecoavam ao longe — empregadas circulando, vozes baixas, o som metálico de louças sendo organizadas.
Gabriella desceu devagar.
A sala de jantar era ampla, iluminada pela luz da manhã que entrava pelas janelas enormes. E ele estava lá.
Magno já estava sentado à mesa.
Impecável.
Terno escuro perfeitamente ajustado, camisa clara aberta no primeiro botão, relógio no pulso. Postura ereta, atenção dividida entre o tablet à sua frente e a xícara de café que segurava com naturalidade.
O coração dela deu um salto traiçoeiro.
Ele parecia exatamente o mesmo de sempre — e, ao mesmo tempo, completamente diferente agora que ela carregava aquele segredo.
— Bom dia — disse ele, levantando os olhos assim que a viu.
O tom era calmo, normal. Como se a noite anterior não tivesse existido. Como se ele não tivesse sido o centro de todos os pensamentos dela poucas horas antes.
— Bom dia — respondeu, forçando um sorriso.
Sentou-se à mesa, tentando manter a postura, as mãos firmes. Mas era impossível não reparar. Em tudo.
As mãos dele eram grandes, fortes. Os dedos longos segurando a xícara com facilidade. As veias discretamente marcadas sob a pele quando ele se movimentava. O modo como mastigava, tranquilo, confiante, completamente à vontade naquele espaço que ele dominava.
Gabriella desviou o olhar para o prato, mas a mente insistia em voltar.
Ela se lembrava do corpo dele em movimento, da maneira como parecia ocupar todo o espaço ao redor. Agora, ali, vestido, elegante, ele parecia ainda mais inacessível. Mais poderoso.
— Dormiu bem? — perguntou ele.
Ela hesitou por uma fração de segundo.
— Dormi… — respondeu. — E você?
— Também.
O café seguiu em silêncio confortável, interrompido apenas por comentários práticos. Remédios. Horários. A agenda do dia.
Foi então que Magno pousou o tablet sobre a mesa e a encarou com mais atenção.
— Hoje é um dia importante pra você, Gabriella.
Ela ergueu os olhos, curiosa.
— Importante como?
— Hoje você vai comigo para a empresa — explicou. — Não como visita. Como herdeira.
O coração dela acelerou.
— Herdeira…?
— Uma das empresas onde eu era sócio do seu pai. Em breve, tudo aquilo será seu. Ainda não oficialmente, mas quero que você comece a entender como funciona. — Ele sorriu de leve. — Seu pai sempre disse que você precisava ver tudo de perto.
Ela sentiu algo parecido com orgulho. Uma centelha de empolgação que não sentia desde antes do acidente.
— Eu posso mesmo ir?
— Deve ir. — Ele levantou-se. — Se arruma com calma. Saímos em uma hora.
Gabriella observou enquanto ele se afastava, o paletó agora sendo tirado e jogado sobre o braço, os passos firmes ecoando pelo corredor. Só então percebeu que estava sorrindo.
Subiu para o quarto quase leve.
Escolheu a roupa com cuidado. Nada infantil. Nada exagerado. Queria parecer… à altura. Quando terminou, respirou fundo diante do espelho. Ainda era a mesma Gabriella — mas algo dentro dela estava mudando, mesmo que ela ainda não soubesse definir o quê.
Desceu novamente.
E parou.
A voz vinha de um canto mais afastado da casa, perto da porta que dava acesso à área de serviço. Era baixa, íntima. Um riso feminino.
Gabriella caminhou alguns passos, sem fazer barulho.
E então viu.
Magno estava encostado na parede, o corpo inclinado em direção à mulher loira. A chef. Bonita demais para ser apenas parte da equipe. A mão dele repousava na cintura dela com i********e, e o beijo que trocavam não deixava dúvidas.
Era rápido. Seguro. Como se aquilo fosse rotina.
Gabriella sentiu o peito apertar.
Viu quando ele se afastou um pouco, disse algo no ouvido dela — algo que ela não conseguiu ouvir. Viu o gesto confiante, a mão descendo brevemente pela perna dela, de forma possessiva, e o sorriso satisfeito no rosto dele.
— Mais tarde — disse ele, em tom baixo, firme. — Hoje vou passar o dia fora. Você está liberada.
A mulher sorriu, satisfeita, e se afastou.
Magno virou-se… e quase deu de cara com Gabriella, que disfarçou, fingindo estar chegando naquele exato momento.
— Gabi — chamou, naturalmente. — Já está pronta?
Ela assentiu, engolindo em seco.
— Tô.
Ele não percebeu nada. Nenhum traço de culpa, de desconforto. Apenas o mesmo Magno de sempre.
E enquanto caminhavam lado a lado rumo à porta de saída, Gabriella sentiu uma certeza incômoda se firmar dentro dela:
Ela não era a única que desejava Magno.
Mas era a única que carregava aquele desejo em silêncio.
E isso…
Ia mudar tudo.