INFINITAMENTE PERIGOSO

1021 Words
O salão do jantar era um espetáculo calculado. Lustres enormes refletiam a luz dourada sobre mesas impecavelmente postas. Taças de cristal, talheres alinhados com precisão quase cirúrgica, garçons circulando com passos silenciosos. O tipo de ambiente onde nada parecia espontâneo — tudo era encenação, poder, status. Magno conhecia bem aquele mundo. E talvez por isso mesmo o detestasse tanto. Gabriella estava sentada à sua direita. Elegante, tranquila demais, girando a taça de champanhe entre os dedos com uma naturalidade que não combinava com a tensão que ele sentia por dentro. Foi então que o homem se aproximou. Alto, bem-vestido, sorriso fácil demais. O tipo que sabia exatamente como usar o próprio charme como moeda social. Magno o reconheceu no mesmo instante. — Henrique Valença — pensou, sem precisar confirmar. Investidor agressivo. Reputação impecável nos eventos públicos, histórico duvidoso nos bastidores. Magno já tinha ouvido histórias demais para confiar naquele sorriso. — Boa noite — o homem disse, inclinando levemente a cabeça para Gabriella, ignorando Magno por um segundo a mais do que o educado. — Boa noite — ela respondeu, cordial, aberta. — Não pude deixar de notar… você é a pessoa mais interessante desta mesa. Magno sentiu a mandíbula travar. — Ela está acompanhada — disse, antes mesmo de perceber que falava. Henrique sorriu, agora olhando para ele. — Claro. Perdão. Não quis ser invasivo. Mas o olhar dele já havia voltado para Gabriella. — Gabriella, certo? Ouvi seu nome hoje à tarde, na apresentação. Muito impressionante. Ela sorriu. — Obrigada. Foi tudo muito novo pra mim. — Dá pra perceber — ele respondeu, inclinando-se um pouco mais. — Você tem uma presença rara. Não parece alguém moldada por esse ambiente. Gabriella lançou um olhar rápido para Magno. Curto. Quase inocente. E então voltou a atenção para Henrique. — Talvez porque eu não seja — disse, dando de ombros. Magno apertou o guardanapo entre os dedos. Ele tentou se manter calmo. Racional. Adulto. Aquilo era apenas conversa social. Nada demais. Mas o problema não era Henrique. Era Gabriella. Ela não estava sendo ingênua. Ela estava dando espaço. — Você está gostando do evento? — Henrique continuou. — Estou achando fascinante — ela respondeu. — Pessoas interessantes, histórias curiosas… — fez uma pausa mínima — algumas surpreendentes. Magno se inclinou ligeiramente para ela. — Gabriella — disse em voz baixa — esse não é o lugar. Ela virou o rosto para ele, ainda sorrindo. — O lugar pra quê? A pergunta era simples demais. E perigosa demais. Henrique observava a troca com interesse renovado. — Vejo que você tem um… mentor atento — comentou, com um tom que beirava a provocação. — Ele é muito cuidadoso — Gabriella respondeu, antes que Magno pudesse dizer qualquer coisa. Muito. Cuidadoso. Magno respirou fundo. — Henrique, não é? — disse, forçando um tom neutro. — Acredito que você tenha uma mesa esperando. Henrique riu baixo. — Tenho tempo. Além disso, boas conversas são raras por aqui. Gabriella inclinou levemente a cabeça, avaliando. — Você sempre foi tão direto? — perguntou a ele. — Só quando vale a pena. Magno sentiu um calor subir pelo peito. — Gabriella — repetiu, agora com um tom mais firme — precisamos conversar. Ela o encarou por um segundo a mais. E então fez exatamente o oposto do que ele esperava. — Depois — disse, voltando-se para Henrique — você estava dizendo que este lugar esconde histórias interessantes? Magno quase perdeu a compostura. Ele conhecia aquele tipo de homem. Sabia como aquilo começava. Sabia como terminava. E o que mais o incomodava não era o risco. Era a sensação de estar sendo testado. — Gabriella — ele disse, agora mais baixo, mais tenso — você não faz ideia de quem ele é. Ela finalmente se virou para ele de verdade. O sorriso havia mudado. Agora havia algo mais afiado ali. — Então me conta — disse. — Ou não confia que eu sei escolher com quem conversar? Silêncio. Henrique observava, claramente se divertindo com a disputa invisível. — Não se preocupe — ele disse, erguendo as mãos. — Não quero causar desconforto. — Já causou — Magno respondeu, sem sorrir. O clima à mesa havia mudado. Algumas pessoas ao redor começaram a perceber a tensão, ainda que ninguém dissesse nada. Gabriella pegou a taça e deu um gole mais longo de champanhe. — Vocês dois estão exagerando — disse, casual. — É só uma conversa. Magno inclinou-se novamente. — Não com ele. — Você confia em mim? — ela perguntou, num tom baixo, quase íntimo. A pergunta o desarmou. — Não é sobre isso. — Então sobre o quê é? — insistiu. Ele não respondeu. Porque qualquer resposta honesta ali… quebraria algo que ainda estava de pé. Henrique pigarreou. — Acho que já fiquei tempo demais — disse, sorrindo para Gabriella. — Mas espero que a gente continue essa conversa em outro momento. Ela sorriu de volta. — Talvez. A palavra caiu como um golpe seco. Henrique se afastou, deixando um rastro de tensão no ar. Magno ficou imóvel por alguns segundos. Então virou-se para ela. — O que foi isso? — perguntou, num tom controlado demais para ser calmo. — Uma conversa — ela respondeu, simples. — Você sabe muito bem que não foi só isso. Ela apoiou o cotovelo na mesa, observando-o. — Eu sei que você não gostou. — Não é questão de gostar — ele disse. — É questão de segurança. Ela riu baixo. — Engraçado… você nunca se preocupa tanto quando o assunto não sou eu. A frase ficou entre eles. Pesada. — Você está brincando com fogo — Magno disse. — Talvez — ela respondeu. — Ou talvez eu esteja tentando entender até onde vai esse seu controle. Ele a encarou. — Isso não é um jogo. — Pra você, talvez não — ela disse, erguendo-se levemente da cadeira. — Pra mim… é a única forma de você parar de fingir que nada está acontecendo. Magno ficou em silêncio. Porque, no fundo, ele sabia. Ela não estava flertando com Henrique. Ela estava provocando ele. E isso era infinitamente mais perigoso.
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