O salão do jantar era um espetáculo calculado.
Lustres enormes refletiam a luz dourada sobre mesas impecavelmente postas. Taças de cristal, talheres alinhados com precisão quase cirúrgica, garçons circulando com passos silenciosos. O tipo de ambiente onde nada parecia espontâneo — tudo era encenação, poder, status.
Magno conhecia bem aquele mundo.
E talvez por isso mesmo o detestasse tanto.
Gabriella estava sentada à sua direita. Elegante, tranquila demais, girando a taça de champanhe entre os dedos com uma naturalidade que não combinava com a tensão que ele sentia por dentro.
Foi então que o homem se aproximou.
Alto, bem-vestido, sorriso fácil demais. O tipo que sabia exatamente como usar o próprio charme como moeda social. Magno o reconheceu no mesmo instante.
— Henrique Valença — pensou, sem precisar confirmar.
Investidor agressivo. Reputação impecável nos eventos públicos, histórico duvidoso nos bastidores. Magno já tinha ouvido histórias demais para confiar naquele sorriso.
— Boa noite — o homem disse, inclinando levemente a cabeça para Gabriella, ignorando Magno por um segundo a mais do que o educado.
— Boa noite — ela respondeu, cordial, aberta.
— Não pude deixar de notar… você é a pessoa mais interessante desta mesa.
Magno sentiu a mandíbula travar.
— Ela está acompanhada — disse, antes mesmo de perceber que falava.
Henrique sorriu, agora olhando para ele.
— Claro. Perdão. Não quis ser invasivo.
Mas o olhar dele já havia voltado para Gabriella.
— Gabriella, certo? Ouvi seu nome hoje à tarde, na apresentação. Muito impressionante.
Ela sorriu.
— Obrigada. Foi tudo muito novo pra mim.
— Dá pra perceber — ele respondeu, inclinando-se um pouco mais. — Você tem uma presença rara. Não parece alguém moldada por esse ambiente.
Gabriella lançou um olhar rápido para Magno.
Curto.
Quase inocente.
E então voltou a atenção para Henrique.
— Talvez porque eu não seja — disse, dando de ombros.
Magno apertou o guardanapo entre os dedos.
Ele tentou se manter calmo. Racional. Adulto. Aquilo era apenas conversa social. Nada demais.
Mas o problema não era Henrique.
Era Gabriella.
Ela não estava sendo ingênua.
Ela estava dando espaço.
— Você está gostando do evento? — Henrique continuou.
— Estou achando fascinante — ela respondeu. — Pessoas interessantes, histórias curiosas… — fez uma pausa mínima — algumas surpreendentes.
Magno se inclinou ligeiramente para ela.
— Gabriella — disse em voz baixa — esse não é o lugar.
Ela virou o rosto para ele, ainda sorrindo.
— O lugar pra quê?
A pergunta era simples demais.
E perigosa demais.
Henrique observava a troca com interesse renovado.
— Vejo que você tem um… mentor atento — comentou, com um tom que beirava a provocação.
— Ele é muito cuidadoso — Gabriella respondeu, antes que Magno pudesse dizer qualquer coisa.
Muito.
Cuidadoso.
Magno respirou fundo.
— Henrique, não é? — disse, forçando um tom neutro. — Acredito que você tenha uma mesa esperando.
Henrique riu baixo.
— Tenho tempo. Além disso, boas conversas são raras por aqui.
Gabriella inclinou levemente a cabeça, avaliando.
— Você sempre foi tão direto? — perguntou a ele.
— Só quando vale a pena.
Magno sentiu um calor subir pelo peito.
— Gabriella — repetiu, agora com um tom mais firme — precisamos conversar.
Ela o encarou por um segundo a mais.
E então fez exatamente o oposto do que ele esperava.
— Depois — disse, voltando-se para Henrique — você estava dizendo que este lugar esconde histórias interessantes?
Magno quase perdeu a compostura.
Ele conhecia aquele tipo de homem. Sabia como aquilo começava. Sabia como terminava.
E o que mais o incomodava não era o risco.
Era a sensação de estar sendo testado.
— Gabriella — ele disse, agora mais baixo, mais tenso — você não faz ideia de quem ele é.
Ela finalmente se virou para ele de verdade.
O sorriso havia mudado.
Agora havia algo mais afiado ali.
— Então me conta — disse. — Ou não confia que eu sei escolher com quem conversar?
Silêncio.
Henrique observava, claramente se divertindo com a disputa invisível.
— Não se preocupe — ele disse, erguendo as mãos. — Não quero causar desconforto.
— Já causou — Magno respondeu, sem sorrir.
O clima à mesa havia mudado. Algumas pessoas ao redor começaram a perceber a tensão, ainda que ninguém dissesse nada.
Gabriella pegou a taça e deu um gole mais longo de champanhe.
— Vocês dois estão exagerando — disse, casual. — É só uma conversa.
Magno inclinou-se novamente.
— Não com ele.
— Você confia em mim? — ela perguntou, num tom baixo, quase íntimo.
A pergunta o desarmou.
— Não é sobre isso.
— Então sobre o quê é? — insistiu.
Ele não respondeu.
Porque qualquer resposta honesta ali… quebraria algo que ainda estava de pé.
Henrique pigarreou.
— Acho que já fiquei tempo demais — disse, sorrindo para Gabriella. — Mas espero que a gente continue essa conversa em outro momento.
Ela sorriu de volta.
— Talvez.
A palavra caiu como um golpe seco.
Henrique se afastou, deixando um rastro de tensão no ar.
Magno ficou imóvel por alguns segundos.
Então virou-se para ela.
— O que foi isso? — perguntou, num tom controlado demais para ser calmo.
— Uma conversa — ela respondeu, simples.
— Você sabe muito bem que não foi só isso.
Ela apoiou o cotovelo na mesa, observando-o.
— Eu sei que você não gostou.
— Não é questão de gostar — ele disse. — É questão de segurança.
Ela riu baixo.
— Engraçado… você nunca se preocupa tanto quando o assunto não sou eu.
A frase ficou entre eles.
Pesada.
— Você está brincando com fogo — Magno disse.
— Talvez — ela respondeu. — Ou talvez eu esteja tentando entender até onde vai esse seu controle.
Ele a encarou.
— Isso não é um jogo.
— Pra você, talvez não — ela disse, erguendo-se levemente da cadeira. — Pra mim… é a única forma de você parar de fingir que nada está acontecendo.
Magno ficou em silêncio.
Porque, no fundo, ele sabia.
Ela não estava flertando com Henrique.
Ela estava provocando ele.
E isso era infinitamente mais perigoso.