A ideia da viagem surgiu de forma prática demais para o impacto que causaria.
Um evento grande. Um daqueles encontros fechados, reservados a nomes que não apareciam em revistas, mas moviam cifras que mudavam destinos. Investidores estrangeiros, herdeiros silenciosos, famílias que atravessavam gerações sem nunca perder o controle do dinheiro — nem da imagem.
Um resort isolado, luxuoso, longe o suficiente para parecer outro mundo.
Magno explicou tudo com o tom profissional de sempre, sentado à mesa da sala, tablet em mãos, agenda organizada.
— Três dias. Painéis durante o dia, eventos sociais à noite. Nada improvisado — disse. — É importante você ir. Eles precisam começar a te reconhecer como parte legítima do que está sendo construído.
Gabriella o observava enquanto ele falava.
Não as palavras.
O jeito.
O modo como ele ficava mais sério quando entrava nesse papel. O Maxilar firme. A postura impecável. A forma como parecia se esconder atrás da responsabilidade.
— Então é tipo um desfile de gente rica fingindo que não é rica? — ela perguntou, casual.
Ele quase sorriu.
— Algo assim.
— E eu preciso ir… elegante? — provocou.
— Precisa ser você — respondeu rápido demais. — Só isso.
Ela sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário.
— Isso costuma ser perigoso.
Ele pigarreou, desviando os olhos para a tela.
— Arruma suas malas com calma. A gente sai cedo.
A casa entrou num ritmo diferente.
Malas sendo puxadas pelos corredores. Roupas separadas sobre a cama. Tecidos caros, discretos, pensados para impressionar sem esforço.
Gabriella levava tempo demais escolhendo cada peça. Não por indecisão — mas por consciência. Ela sabia exatamente o efeito que causava. Sabia quando era observada, mesmo quando Magno fingia não ver.
Ele, por sua vez, se refugiava no quarto, tentando revisar documentos, e-mails, apresentações — qualquer coisa que mantivesse a mente ocupada.
Estava deitado na cama, camisa aberta no peito, mangas dobradas, óculos apoiados no nariz, quando ouviu a porta se abrir.
— Magno?
O nome dele, dito daquele jeito, sempre soava diferente.
— Fala — respondeu, sem erguer os olhos.
O silêncio que se seguiu não era comum.
Ele sentiu antes de ver.
O ar mudou.
O espaço ficou… outro.
Quando levantou o olhar, o corpo reagiu antes da razão.
Gabriella estava ali.
Usava um biquíni elegante, de corte simples, tecido neutro, nada exagerado — mas era impossível não notar. A pele à mostra, o corpo confiante, a postura relaxada de quem não estava fazendo nada de errado.
Ela estava provocando.
Era isso que tornava tudo pior.
Magno sentou-se abruptamente, os óculos escorregando pelo nariz.
— O que… — começou, a voz falhando. — O que aconteceu?
— Nada — ela disse, entrando no quarto como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Tô separando as roupas da viagem e fiquei em dúvida.
Ela girou levemente, mostrando-se de perfil, avaliando-se no espelho.
— O que você acha?
O cérebro dele travou.
Havia um impulso. Rápido, quente, perigoso. Um pensamento que surgia sem pedir permissão — a imagem dela sendo puxada, jogada na cama, substituído por nada além do desejo reprimido.
Magno fechou os olhos por um segundo e respirou fundo.
— Gabriella…
— Relaxa — ela interrompeu, rindo baixo. — É só um biquíni. A gente vai pra um resort, lembra?
Ela se aproximou alguns passos.
— Eu não tô entrando numa reunião assim, se é isso que você tá pensando.
Ele engoliu em seco.
— Não é apropriado você entrar no meu quarto desse jeito.
— Desse jeito como? — perguntou, genuinamente curiosa. — Vestida pra nadar?
O silêncio pesou entre eles.
Ela percebeu.
Sempre percebia.
— Você tá nervoso — comentou, apoiando-se na cômoda. — Parece que eu entrei aqui cometendo um crime.
— Não brinca com isso.
— Eu não tô brincando — respondeu, mais séria. — Eu só queria saber se combina comigo.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Combina — disse, rápido demais. — Tá… bonito.
Bonito.
A palavra soou pequena demais para o que ele sentia.
Gabriella sorriu, satisfeita não com o elogio, mas com o efeito.
— Ótimo — disse. — Então vou levar.
Virou-se para sair, mas parou na porta.
— Ah, Magno?
— Oi.
— No resort… a gente vai ter piscina, praia, eventos ao ar livre…
Ela inclinou a cabeça levemente.
— Você vai ter que se acostumar.
Com o quê?
Ele sabia a resposta.
E era isso que o aterrorizava.
A porta se fechou.
Magno ficou parado, sentado na beira da cama, o coração batendo forte demais para alguém que não tinha feito nada.
— Controle — murmurou para si mesmo. — Você precisa de controle.
Levantou-se, foi até o banheiro, jogou água no rosto.
O reflexo no espelho mostrava um homem tenso, dividido, cansado de lutar contra algo que não escolheu sentir.
— Ela é adulta — pensou. — Mas isso não muda quem eu sou pra ela.
E, ainda assim, a imagem dela não ia embora.
Do outro lado da casa, Gabriella encostou-se na porta do quarto, sorrindo sozinha.
Não havia pressa.
Não havia culpa.
Ela não queria que ele cedesse por impulso.
Queria que ele entendesse que a linha que ele tentava proteger…
já estava sendo atravessada dentro dele há muito tempo.
E a viagem ainda nem tinha começado.