ANTES DA PARTIDA

885 Words
A ideia da viagem surgiu de forma prática demais para o impacto que causaria. Um evento grande. Um daqueles encontros fechados, reservados a nomes que não apareciam em revistas, mas moviam cifras que mudavam destinos. Investidores estrangeiros, herdeiros silenciosos, famílias que atravessavam gerações sem nunca perder o controle do dinheiro — nem da imagem. Um resort isolado, luxuoso, longe o suficiente para parecer outro mundo. Magno explicou tudo com o tom profissional de sempre, sentado à mesa da sala, tablet em mãos, agenda organizada. — Três dias. Painéis durante o dia, eventos sociais à noite. Nada improvisado — disse. — É importante você ir. Eles precisam começar a te reconhecer como parte legítima do que está sendo construído. Gabriella o observava enquanto ele falava. Não as palavras. O jeito. O modo como ele ficava mais sério quando entrava nesse papel. O Maxilar firme. A postura impecável. A forma como parecia se esconder atrás da responsabilidade. — Então é tipo um desfile de gente rica fingindo que não é rica? — ela perguntou, casual. Ele quase sorriu. — Algo assim. — E eu preciso ir… elegante? — provocou. — Precisa ser você — respondeu rápido demais. — Só isso. Ela sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário. — Isso costuma ser perigoso. Ele pigarreou, desviando os olhos para a tela. — Arruma suas malas com calma. A gente sai cedo. A casa entrou num ritmo diferente. Malas sendo puxadas pelos corredores. Roupas separadas sobre a cama. Tecidos caros, discretos, pensados para impressionar sem esforço. Gabriella levava tempo demais escolhendo cada peça. Não por indecisão — mas por consciência. Ela sabia exatamente o efeito que causava. Sabia quando era observada, mesmo quando Magno fingia não ver. Ele, por sua vez, se refugiava no quarto, tentando revisar documentos, e-mails, apresentações — qualquer coisa que mantivesse a mente ocupada. Estava deitado na cama, camisa aberta no peito, mangas dobradas, óculos apoiados no nariz, quando ouviu a porta se abrir. — Magno? O nome dele, dito daquele jeito, sempre soava diferente. — Fala — respondeu, sem erguer os olhos. O silêncio que se seguiu não era comum. Ele sentiu antes de ver. O ar mudou. O espaço ficou… outro. Quando levantou o olhar, o corpo reagiu antes da razão. Gabriella estava ali. Usava um biquíni elegante, de corte simples, tecido neutro, nada exagerado — mas era impossível não notar. A pele à mostra, o corpo confiante, a postura relaxada de quem não estava fazendo nada de errado. Ela estava provocando. Era isso que tornava tudo pior. Magno sentou-se abruptamente, os óculos escorregando pelo nariz. — O que… — começou, a voz falhando. — O que aconteceu? — Nada — ela disse, entrando no quarto como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Tô separando as roupas da viagem e fiquei em dúvida. Ela girou levemente, mostrando-se de perfil, avaliando-se no espelho. — O que você acha? O cérebro dele travou. Havia um impulso. Rápido, quente, perigoso. Um pensamento que surgia sem pedir permissão — a imagem dela sendo puxada, jogada na cama, substituído por nada além do desejo reprimido. Magno fechou os olhos por um segundo e respirou fundo. — Gabriella… — Relaxa — ela interrompeu, rindo baixo. — É só um biquíni. A gente vai pra um resort, lembra? Ela se aproximou alguns passos. — Eu não tô entrando numa reunião assim, se é isso que você tá pensando. Ele engoliu em seco. — Não é apropriado você entrar no meu quarto desse jeito. — Desse jeito como? — perguntou, genuinamente curiosa. — Vestida pra nadar? O silêncio pesou entre eles. Ela percebeu. Sempre percebia. — Você tá nervoso — comentou, apoiando-se na cômoda. — Parece que eu entrei aqui cometendo um crime. — Não brinca com isso. — Eu não tô brincando — respondeu, mais séria. — Eu só queria saber se combina comigo. Ele passou a mão pelo rosto. — Combina — disse, rápido demais. — Tá… bonito. Bonito. A palavra soou pequena demais para o que ele sentia. Gabriella sorriu, satisfeita não com o elogio, mas com o efeito. — Ótimo — disse. — Então vou levar. Virou-se para sair, mas parou na porta. — Ah, Magno? — Oi. — No resort… a gente vai ter piscina, praia, eventos ao ar livre… Ela inclinou a cabeça levemente. — Você vai ter que se acostumar. Com o quê? Ele sabia a resposta. E era isso que o aterrorizava. A porta se fechou. Magno ficou parado, sentado na beira da cama, o coração batendo forte demais para alguém que não tinha feito nada. — Controle — murmurou para si mesmo. — Você precisa de controle. Levantou-se, foi até o banheiro, jogou água no rosto. O reflexo no espelho mostrava um homem tenso, dividido, cansado de lutar contra algo que não escolheu sentir. — Ela é adulta — pensou. — Mas isso não muda quem eu sou pra ela. E, ainda assim, a imagem dela não ia embora. Do outro lado da casa, Gabriella encostou-se na porta do quarto, sorrindo sozinha. Não havia pressa. Não havia culpa. Ela não queria que ele cedesse por impulso. Queria que ele entendesse que a linha que ele tentava proteger… já estava sendo atravessada dentro dele há muito tempo. E a viagem ainda nem tinha começado.
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