SÓ MAIS UMA

957 Words
O silêncio caiu pesado no escritório depois que tudo terminou. Não foi um silêncio limpo. Era denso, sujo, impregnado do que tinha acabado de acontecer. O ar parecia mais quente, mais espesso, difícil de respirar. O cheiro ainda estava ali — couro, álcool, suor — misturado a algo metálico, quase amargo, que se agarrava às paredes como um segredo que ninguém iria confessar. Magno se afastou do corpo estendido no tapete com um movimento seco, quase indiferente. Levantou-se sem dizer uma palavra. Pegou a calça jogada sobre a poltrona de couro, vestiu-a sem pressa, mas também sem carinho algum. Cada gesto era mecânico. Automático. Como se estivesse encerrando um expediente, não um encontro. Abotoou a camisa, ajeitou o cinto, passou a mão pelos cabelos ainda úmid0s de suor e respirou fundo, uma vez só, como quem fecha uma porta por dentro. Bruna continuava ali. Deitada no tapete que agora parecia ainda mais escuro, os cabelos ruivos espalhados como uma mancha de fogo apagado. O corpo imóvel, os olhos abertos, encarando o teto como se estivesse tentando entender em que momento aquilo tinha deixado de ser escolha e virado apenas uso. Ela esperou alguma coisa. Uma palavra. Um olhar. Qualquer sinal de que ainda existia algo além daquele chão frio. Nada veio. Magno não olhou para trás. Pegou o paletó, passou por ela como se passasse por um móvel fora do lugar, apagou a luz do escritório e saiu, deixando apenas a iluminação fraca do corredor entrando pelas frestas da porta entreaberta. O som dos passos dele ecoou pelo andar vazio da empresa até desaparecer por completo. Bruna continuou ali por longos minutos. Depois, lentamente, virou o rosto para o lado e fechou os olhos. Ela já conhecia aquele vazio. E odiava a si mesma por reconhecer tão bem. O carro de Magno cortava a cidade quase vazia. As ruas estavam iluminadas por postes antigos, a luz amarelada refletindo no para-brisa enquanto ele dirigia com uma mão só, a outra apoiada no volante, os dedos ainda tensos. Não ligou o rádio. Não precisava de barulho. O que havia dentro da cabeça dele já era alto demais. Ele se sentia… vazio. Não satisfeito. Não aliviado. Vazio. Como se tivesse tentado apagar algo com fogo e só tivesse conseguido espalhar ainda mais o incêndio. Estacionou na vaga, desligou o carro e ficou alguns segundos ali dentro, encarando o próprio reflexo no vidro escuro. — Idiot4… — murmurou para si mesmo, passando a mão pelo rosto. Quando abriu a porta De casa, a luz da sala estava apagada, mas havia um brilho suave vindo do abajur perto do sofá. E foi ali que ele a viu. Gabriella. Deitada de lado, no sofá grande da sala, o corpo encolhido de leve, como se tivesse adormecido sem perceber. O vestido claro que usava subira um pouco, deixando as pernas parcialmente descobertas, uma delas dobrada, a outra estendida. Os cabelos escuros caíam sobre o rosto, e a respiração era tranquila, profunda, de quem dormia de verdade. Magno congelou. Por um segundo longo demais. O coração bateu errado no peit0, forte, descompassado, e uma sensação perigosa — quente, indevida — ameaçou subir pela espinha. Ele desviou o olhar imediatamente. Deu um passo para trás. Levou a mão ao próprio rosto e deu um leve tapa na bochecha, como se quisesse acordar a si mesmo. — Não. — disse em voz baixa, firme. — Não faz isso. Respirou fundo. Outra vez. Ela não era aquilo que o corpo dele, cansado e sujo do dia, tentava enxergar. Ela era outra coisa. Sempre foi. Uma menina, repetiu mentalmente, com força. Eu vi crescer. Eu prometi cuidar. A lembrança veio como um soco silencioso: Gabriella pequena, correndo pela casa dos pais, rindo alto, chamando por ele com aquela confiança inteira, limpa, que só quem se sente protegido tem. Ele lembrava de segurá-la pela mão, de ensiná-la a andar de bicicleta, de brigar com quem levantasse a voz perto demais dela. Padrinho. Não era só um título. Era um juramento. Magno se aproximou devagar, com cuidado para não fazer barulho. Ajoelhou-se ao lado do sofá e observou o rosto dela por alguns segundos. Gabriella dormia tranquila, os cílios longos projetando sombras suaves nas bochechas. Havia algo frágil ali. Algo que não podia ser tocado pela sujeira do mundo dele. Ele passou os braços por baixo do corpo dela com delicadeza, como se ela pudesse se quebrar se fosse descuidado demais. Gabriella se mexeu um pouco, murmurou algo inaudível, mas não acordou. Apenas apoiou o rosto no peito dele instintivamente. Magno sentiu o peito apertar. Carregou-a pelo corredor até o quarto, cada passo medido, silencioso. Abriu a porta com o pé, entrou, e a luz fraca do abajur revelou o quarto organizado, simples, com cheiro de lavanda e algo doce, confortável. Deitou Gabriella na cama com cuidado extremo. Ajeitou o vestido, cobrindo-lhe as pernas, puxou o cobertor até os ombros dela. Ficou alguns segundos ali, observando-a dormir, como se precisasse se convencer de que ela estava segura. Sentou-se na beirada da cama. Passou os dedos com carinho pelos cabelos dela, afastando-os do rosto, num gesto quase paternal, quase antigo. Inclinou-se e depositou um beijo leve na testa dela. — Dorme tranquila… — sussurrou. — Eu vou cuidar de você. Sempre. Ficou ali mais um tempo. Depois se levantou, apagou a luz e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado. No corredor escuro, encostou a testa na parede por um instante, respirando fundo, tentando reorganizar tudo o que era bagunça dentro dele. Bruna. Gabriella. Desejo. Culpa. Promessa. Magno sabia. Sabia que uma linha tinha sido traçada há muito tempo. E que, custasse o que custasse, ele não podia cruzá-la. Mesmo que isso significasse lutar contra si mesmo todos os dias.
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