DEPOIS DAS CÂMERAS

933 Words
A sala ficou vazia por tempo demais. Gabriella só percebeu isso quando o relógio no pulso vibrou discretamente, avisando que já passava das seis. O dia tinha escorrido pelos dedos sem que ela sentisse. O sol lá fora começava a se inclinar, projetando sombras longas pelo chão polido da sala de Magno, e mesmo assim ela continuava parada, como se qualquer movimento pudesse quebrar algo invisível. Ela respirou fundo, uma vez. Depois outra. Precisava ir embora. Reuniu as coisas com cuidado excessivo. Guardou o celular na bolsa, conferiu se nada havia ficado fora do lugar — não por medo de ser descoberta agora, mas porque o controle tinha se tornado uma obsessão repentina. Antes de sair, lançou um último olhar para o computador desligado. A tela escura devolveu apenas seu reflexo. Dessa vez, ela sustentou o olhar. No elevador, sozinha, sentiu o corpo finalmente reagir. As pernas ficaram levemente moles, a respiração saiu mais pesada, e foi ali, entre um andar e outro, que a ficha caiu de verdade: nada voltaria ao normal. Não depois de ver o que viu. Não depois de entender o que entendeu. Magno não era apenas o homem firme, racional, previsível que ela conhecia desde sempre. Ele tinha sombras. E ela tinha acesso a elas. O caminho de volta para casa foi silencioso, Magno mandou um motorista buscar Gabriella na empresa. No carro, o motorista puxou conversa duas vezes, e ela respondeu de forma educada, automática, como se estivesse em outro lugar. A cidade passava pela janela como um borrão distante. Quando chegou, Magno ainda não estava. A casa parecia maior sem ele. Mais vazia. Mais fria. Gabriella subiu para o quarto, trocou de roupa devagar, como se cada gesto precisasse ser pensado. Sentou na cama, encarou o próprio reflexo no espelho da penteadeira e passou a mão pelos cabelos, sentindo o couro cabeludo mais sensível, como se tivesse passado o dia inteiro em alerta. Ela não se sentia culpada. Também não se sentia vitoriosa. Sentia-se… acordada. O jantar foi silencioso quando Magno chegou. Ele apareceu cerca de uma hora depois, já sem o paletó, a gravata afrouxada, o rosto sério demais para alguém que tinha tido um dia comum. Cumprimentou-a com um aceno breve, lavou as mãos, sentou-se à mesa. — Já comeu? — ele perguntou, servindo-se. — Esperei você — respondeu. Mentira pequena. Controlada. Ele assentiu, sem agradecer, mas lançou um olhar rápido na direção dela. Não era acusatório. Era avaliador. Como se estivesse tentando entender algo que não fechava completamente. Comeram quase em silêncio. O som dos talheres parecia alto demais. Gabriella percebia coisas que antes passariam despercebidas: o jeito como ele mastigava devagar, como se estivesse sempre pensando em outra coisa; a postura rígid4, mesmo sentado; o olhar que, vez ou outra, parecia pousar nela sem realmente vê-la. — Você saiu cedo — ela comentou, quebrando o silêncio com cuidado. — Sim — respondeu, direto. — Tive que resolver algumas coisas. Ela assentiu, mexendo na comida. — A empresa anda puxando bastante, né? Ele a encarou por um segundo a mais. — Anda. Só isso. O silêncio voltou a se instalar, mas agora era diferente. Não era constrangedor. Era cheio de camadas. Cada frase não dita parecia pesar mais do que qualquer conversa longa. Depois do jantar, Magno recolheu o prato, como sempre fazia, e foi até a sala. Gabriella o seguiu, sentando no sofá oposto, cruzando as pernas de forma casual. Pegou o controle da TV, ligou em qualquer canal, sem realmente prestar atenção. Ele sentou na poltrona, apoiando o cotovelo no braço, o queixo na mão. — Você parece cansada — comentou. — Aprender coisa nova cansa — respondeu, dando de ombros. — Mas eu gostei. — Gostou? — Gostei. De entender como as coisas funcionam. De ver você naquele ambiente. A frase saiu simples demais. Honesta demais. Magno não respondeu de imediato. Apenas assentiu lentamente. — É importante você aprender — disse por fim. — Mais cedo ou mais tarde, isso tudo também vai ser seu. Ela sorriu de leve. — Eu sei. E sabia mesmo. Agora, mais do que nunca, entendia que poder não vinha só de contratos e heranças. Vinha de informação. De acesso. De silêncio bem colocado. A noite avançou assim, entre frases curtas e olhares longos demais. Quando se levantaram para ir dormir, o clima não era de conforto — era de suspensão. Como se ambos soubessem que algo estava em movimento, mas nenhum tivesse coragem de nomear. No corredor, antes de entrar no quarto, Magno falou: — Amanhã você não precisa ir à empresa. Gabriella parou. — Não? — Não. Quero que descanse. A gente retoma outro dia. Ela virou-se para ele. — Tudo bem. Mas havia algo no tom dele. Não era gentileza. Era cautela. Quando ele entrou no quarto e fechou a porta, Gabriella ficou alguns segundos parada no corredor, o coração acelerado de novo, mas agora por outro motivo. Ele estava se afastando. E isso confirmava tudo. No quarto, deitada, ela encarou o teto escuro, sentindo o corpo cansado, mas a mente desperta demais para dormir rápido. Pensava em como as linhas tinham se deslocado sem ninguém perceber. Em como ela tinha atravessado uma fronteira invisível sem dar um passo sequer. Não precisava agir agora. Não precisava provocar. Não precisava pressionar. O jogo tinha mudado sozinho. E Magno, mesmo tentando manter tudo sob controle, tinha acabado de mostrar que também sabia disso. Gabriella sorriu no escuro, fechando os olhos com calma. Ela tinha tempo. E tinha paciência. E, acima de tudo, tinha aprendido que algumas coisas, depois de vistas, jamais podem ser desfeitas.
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