Ceifador narrando
O Morro estava sob um ataque o som do 7.62 cantando no meu ouvido era a única música que eu precisava o BOPE achou que ia subir a ladeira e colher minha cabeça como se fosse fruta madura, mas eles esqueceram que, no meu terreno, até as pedras servem à Morte.
Eu estava posicionado na laje de uma contenção estratégica, o fuzil colado no meu ombro, sentindo o coice da arma a cada rajada, do outro lado, o responsável pela operação um capitão metido a herói gritava ordens pelo megafone, achando que ia me intimidar.
— Entrega as armas, Ceifador! Hoje eu levo a tua cabeça pra exibir na delegacia! — o grito dele se perdeu entre os disparos.
— Vem buscar, seu farda imunda! — rosnei para o vazio, antes de meter o dedo no gatilho. — Minha cabeça tem um preço que o teu estado não tem como pagar, hoje, quem vai visitar o inferno com o ticket pago por mim é você!
A troca de tiros era intenso eu via os lampejos dos tiros deles e respondia com a precisão de quem nasceu com o aço na mão, foi num desses avanços que senti um ardor violento no flanco um estilhaço de granada ou um balaço de raspão não importava.
O sangue quente começou a descer pela minha costela, mas a dor, pra mim, é apenas o sinal de que eu ainda estou no jogo, o Mensageiro da Morte não para por um buraco a mais na pele.
Pressionei o radinho, a minha voz fria como o mármore de um necrotério.
— Letinho! Coordenar o cerco agora! Fecha o beco da Paz e empurra os caveiras pra zona de abate da ala sul não deixa eles respirarem!
A tática funcionou meus vapores, movidos a ódio e lealdade, fecharam o cerco, e o BOPE, percebendo que o terreno estava virando uma câmara de gás e chumbo, começou a recuar.
O blindado não demorou e deu ré, os soldados cobrindo a retirada sob uma chuva de balas, não demorou dez minutos e o céu do morro explodiu: três fogos vermelhos rasgando as nuvens.
— Vitória o morro continua sendo meu.
Desci da laje sentindo o meu corpo esfriar e a dor latejar, Letinho me encontrou na base da ladeira, o fuzil ainda quente, a cara suja de fuligem.
— Ceifador! — ele gritou, chegando perto. — c*****o, mano, que sufoco. Tu tá bem? Tá sangrando muito, parceiro.
— Foi só um beijo de raspão, Letinho. O aço deles é fraco pra me derrubar — respondi, respirando fundo, o cheiro de ozônio queimando meus pulmões. — Mas o estrago foi grande.
— O que tu quer que eu faça?
— Faz a limpa no morro. Agora. Não quero nenhum filho da p**a infiltrado, nenhum bico cana escondido em beco. Pente fino em cada barraco. Quem não for de casa, tu já sabe o destino.
— Tá na mão, irmão. Vou deixar o morro um brinco de pureza — Letinho concordou e já saiu dando ordens.
Fiquei ali sozinho por um momento, no meio do rastro da guerra. Tirei o meu Rosário de Crânios debaixo da camisa e o segurei com a minha mão ensanguentada. Fechei os meus olhos para a minha oração.
— Senhora da Morte, recebe as almas que eu te mandei hoje. Foram muitas, e foram boas. Que o sangue deles adube o meu chão e que o silêncio deles seja o meu descanso. Não peço perdão, porque não me arrependo. Peço apenas que a próxima safra seja tão farta quanto essa. Amém.
Terminei a minha oração a morte sem um pingo de emoção, alma pra mim é mercadoria, e eu sou o maior exportador do Rio. Guardei o rosário e olhei pros vapores que esperavam ordens.
— Cuidem de tudo. Recolham o que sobrou. Eu preciso vazar.
Cheguei em casa exausto o silêncio do quarto era o oposto do caos da rua, quando abri a porta, vi o movimento sob a cama. Valentina saiu de lá devagar, pálida, com os olhos esbugalhados de terror.
— É sempre assim? — ela perguntou, com a voz trêmula.
— Esse é o novo som da tua vida, Valentina. Se acostuma cedo, ou vai viver debaixo da cama feito bicho. Aqui tu tá conhecendo a vida real, não aquela mentira de comercial de margarina que te venderam no asfalto.
Ela ficou sem palavras, me olhando como se eu fosse o próprio demônio. Mas quando viu o sangue na minha camisa, o instinto de quem cuida falou mais alto que o medo. Eu joguei o kit de primeiros socorros na cama e ela, com as mãos geladas e trêmulas, começou a limpar o r***o no meu flanco.
A proximidade era uma tortura de um jeito diferente, o toque dela era macio demais pra alguém como eu, enquanto ela passava o antisséptico, eu sentia o corpo dela estremecer a cada vez que ela chegava perto da ferida.
— Por que? — ela perguntou de repente, sem olhar nos meus olhos, focada na costura da minha pele.
— Por que o quê, Doutora?
— Por que você não me matou? O Francisco te pagou pra isso. Seria muito mais simples, não seria? Um tiro no Aterro e você estaria livre de problemas. Por que me trouxe pra esse inferno?
Segurei o queixo dela, forçando-a a olhar pra mim, o rosto dela estava a centímetros do meu, o cheiro de medo e perfume caro me deixando louco.
— Porque no segundo em que eu vi a tua foto, Valentina, eu soube que não queria o teu sangue no meu chão. — Minha voz saiu num rosnado baixo. — O Francisco é um merda que descarta o que não entende. Eu não. Eu coleciono o que é valioso. E tu, morena... tu é a joia mais cara que eu já roubei.
Ela sustentou o meu olhar, a sua respiração ofegante batendo no meu rosto.
— Você é um monstro.
— E você está cuidando das feridas do monstro — retruquei, sentindo uma tensão que não tinha nada a ver com a dor. — Isso te faz o quê? Minha cúmplice... ou minha amante?
Valentina afastou as mãos do meu torso como se minha pele tivesse acabado de entrar em combustão, o olhar dela, aquele castanho que antes era só pavor, agora tinha faíscas de um orgulho que me dava vontade de rir.
— Eu nunca serei amante de um bandido, Ceifador — ela sibilou, a sua voz tentando manter a postura de doutora, mesmo com a roupa suja e o cabelo desfeito. — Não importa o que você faça, eu não sou uma das suas mulheres de morro.
Soltei uma risada seca, sentindo o ponto que ela tinha acabado de dar repuxar na minha carne, ignorando a queimação no flanco, caminhei até a janela, olhando o rastro de fumaça que o BOPE deixou lá embaixo.
— Escuta aqui, Valentina, eu não sou o estado e muito menos instituição de caridade — falei, virando-me para ela com a frieza de quem conta cadáveres. — Eu não vou gastar a minha munição preciosa pra te manter viva contra o Francisco, e nem vou encher a tua barriga de graça com a melhor comida do meu morro pra tu ficar me olhando com esse nojo.
— Se você não quer gastar munição nem comida comigo, é simples: me liberta! — ela rebateu, levantando-se também, o peito subindo e descendo com força. — Me deixa ir embora e você nunca mais vai precisar me ver.
Dei dois passos rápidos, invadindo o espaço dela até ela sentir o meu hálito.
— Tu é burra ou se faz? eu já te dei o papo lá embaixo: tu só sai do meu morro num caixão, o asfalto já te enterrou, morena, pra eles, tu é saudade ou estatística.
— Eu posso pagar! — ela gritou, desesperada. — Eu tenho economias, eu posso transferir o valor que você quiser, nomeie o seu preço!
Segurei o rosto dela com uma mão só, obrigando-a a sentir o cheiro de pólvora que ainda emanava da minha pele.
— Dinheiro? tu acha que eu preciso dos teus trocados de advogada? eu faço milhões todos os dias vendendo droga pros noiados que tu defende no tribunal, o único pagamento que eu aceito de tu, Valentina... é o teu corpo.
Ela estancou, o choque brilhou nos olhos dela, mas eu não parei. O jogo agora era de xadrez, e eu estava prestes a dar o xeque-mate.
— Pensa bem, tua vida tá nas minhas mãos, e lá fora tem um filha da p**a querendo o teu pescoço, então, vamos fazer um Contrato de Sangue. — Inclinei-me, sussurrando no ouvido dela. — Tu aceita ser a minha amante oficial, se deita na minha cama e me dá o que eu pedir, em troca, eu viro o teu escudo, eu mantenho os vermes longe e destruo cada um que ousou te perseguir, começando pelo Francisco.
Afastei-me, vendo-a tremer entre o ódio e a necessidade de sobreviver.
— Pensa rápido e me dá a resposta logo, o tempo de cortesia acabou, ou tu é minha amante, ou tu não é nada.
Saír do quarto sem olhar para trás, batendo a porta com força, o som do trinco ecoou no corredor vazio, deixando-a sozinha com a escolha mais suja da vida dela.