Capítulo 3

1853 Words
Francisco narrando O gelo estalou contra o cristal do meu Macallan 25 anos, um som solitário que ecoava pelas paredes revestidas de camurça italiana do meu escritório, ali, no quadragésimo andar, o mundo lá fora não passava de um aglomerado de formigas operárias lutando por migalhas de sobrevivência. Eu não era uma formiga, eu era o dono do formigueiro. Observei o reflexo da minha silhueta no vidro fumê, o meu terno sob medida, a minha postura impecável, o meu semblante de um homem que a sociedade respeitava e temia em doses iguais ser Francisco Gomes exigia um esforço constante de polimento, uma fachada de filantropia e progresso que escondia a verdadeira engrenagem do meu sucesso: a eliminação sistemática de qualquer obstáculo. E Valentina Albuquerque era, sem dúvida, o obstáculo mais irritante que já cruzou o meu caminho. Caminhei até a minha mesa de mármore n***o e abri o mapa topográfico da Baixada Fluminense, ali estavam elas: as terras de Bento Melo, milhares de hectares que, nas minhas mãos, se transformariam em um complexo logístico multibilionário, mas aquela garota, com sua ética inabalável e seu diploma de Direito usado como escudo, ousava ir contra me ela não queria apenas justiça; ela queria a minha ruína. — Tão bonita, Valentina, tão brilhante... e tão estúpida — sussurrei, sentindo o calor do uísque descer pela minha garganta, anestesiando qualquer vestígio de humanidade. Na minha mente, o problema já estava resolvido eu não lido com incertezas, quando entreguei aquele envelope ao Ceifador, lá no Morro dos Prazeres, eu não estava apenas contratando um matador; eu estava selando um destino o Ceifador não era um homem, era uma força bruta que eu controlava com o poder do meu dinheiro, ele era o meu cão de guarda mais letal, e eu nunca o vira falhar, um animal de raça, treinado no ódio. A essa hora, Valentina já deveria ser apenas uma lembrança amarga um corpo sem nome em algum aterro sanitário ou uma mancha de sangue lavada pela chuva de verão, o pensamento não me trazia remorso o remorso é um luxo para os fracos, e a fraqueza é o único pecado mortal no meu dicionário. O interfone da minha mesa tocou, interrompendo meus pensamentos. — Senhor Gomes? O senhor Rafael está aqui, ele insiste em vê-lo imediatamente, está... bastante alterado — a voz da minha secretária era um sussurro de cautela. Sorri discretamente, Rafael o elo fraco da corrente o homem que deveria ter domado a fera e, em vez disso, deixou-se ser mordido por ela. — Deixe-o entrar, Flávia e traga outro copo meu sócio parece precisar de um pouco de coragem líquida. A porta dupla se abriu com um estrondo, Rafael entrou desgrenhado, o nó da gravata frouxo, o rosto vermelho de uma mistura de fúria e pânico o quer o tornava patético sob pressão. — Ela sumiu, Francisco! — ele gritou, antes mesmo da porta se fechar. — A Valentina não apareceu no escritório hoje, o carro dela foi encontrado abandonado perto da Lagoa a polícia já está fazendo perguntas! Alguém viu um SUV, a notícia vai vazar! Caminhei calmamente até o bar e servi uma dose de whisky para ele, ignorando o seu desespero histérico. — Sente-se, Rafael. Você está fazendo mais barulho do que o necessário. Beba. Deixe que o álcool faça o trabalho que o seu caráter não consegue realizar. — Beber? Como você pode estar tão calmo? — Ele pegou o copo, com as mãos tremendo, o cristal batendo contra os seus dentes. — Eu avisei a ela! Eu implorei para que ela assinasse! Se algo aconteceu com ela, se o seu... "contato" do morro fez alguma coisa, isso vai acabar em cima de nós dois! Eu não vou cair sozinho, Francisco! Inclinei-me sobre a mesa, meus olhos fixos nos dele até que ele baixasse o olhar, como um cão submisso. — O que aconteceu, Rafael, foi o progresso — falei, a minha voz baixa, rastejante e letal. — Valentina era um câncer na nossa operação e cânceres precisam ser extirpados antes que ocorra metástase, você não conseguia controlá-la seu sentimentalismo por aquela mulher estava nos custando milhões por dia eu apenas tomei a decisão que você não teve colhão para tomar. Rafael empalideceu, o rosto perdendo a cor para um tom cinzento. — Você... você mandou matá-la meu Deus, Francisco... ela seria a minha mulher, nós tínhamos planos. — Ela era a sua mulher até o momento em que decidiu que o ego dela valia mais que o nosso império — retruquei, contornando a mesa e parando atrás dele, pousando a mão no seu ombro. — Pense no futuro, Rafael, com Valentina fora do caminho, o inventário de Bento Melo será liberado em semanas as terras passarão para a nossa holding, você terá mais dinheiro do que seus netos poderão gastar, tudo o que você precisa fazer é manter a boca fechada e interpretar o papel do ex-namorado enlutado por alguns meses, o luto fica bem em você, dá um ar de profundidade. — A polícia não é i****a, Francisco, eles vão ligar os pontos, o carro na Lagoa, as ameaças que eu fiz... — A polícia trabalha para quem paga melhor, meu caro e eu pago muito bem, além disso, o homem que cuida desse tipo de... limpeza... para mim, é um artista, um mestre do sumiço não haverá corpo não haverá arma do crime. Apenas um mistério que as redes sociais esquecerão em três dias, assim que a próxima polêmica surgir. Rafael bebeu o uísque de um gole só, o peito subindo e descendo com força ele era um cúmplice agora o sangue de Valentina estava nas mãos dele tanto quanto nas minhas, e ele sabia disso era a beleza do meu método: eu nunca caía sozinho, o que garantia que ninguém jamais teria a audácia de me derrubar. — O Ceifador já confirmou? — Rafael perguntou, a sua voz rouca, quase um sussurro. — Ele não precisa confirmar com palavras, Rafael o silêncio dele é a confirmação ele é um profissional. Quando ele pega um trabalho, o alvo deixa de existir no instante em que ele fecha o envelope ele é a própria morte, e a morte não manda relatórios. Eu visualizei a cena em minha mente o Ceifador dedilhando aquele rosário macabro que ele carrega eu sentia um desprezo instintivo por sujeitos como ele bárbaros que viviam na lama e no sangue, mas reconhecia sua utilidade cirúrgica ele era a minha borracha, ele apagava os erros da minha vida com o cano de um fuzil. — E se ela tiver deixado provas? — Rafael insistiu, a paranoia voltando a brilhar nos olhos. — Ela estava estudando o dossiê da grilagem se ela enviou algo para o Ministério Público antes de sumir, estamos mortos. — Valentina era meticulosa, mas não era suicida — interrompi, voltando para a minha poltrona de couro. — Ela achava que o Direito a protegeria, pessoas como ela acreditam em regras e juízes eu acredito em resultados e poder. Rafael suspirou, parecendo murchar na cadeira, a ganância estava finalmente vencendo o luto, eu podia ver o brilho do ouro substituindo o brilho das lágrimas em seus olhos a moralidade dele era elástica, como eu previ. — O que eu faço agora? — ele perguntou, buscando direção. — Vá para casa, tome um banho, amanhã, dê uma coletiva de imprensa curta na porta do escritório, diga que está devastado, que Valentina estava sob muito estresse devido a um caso complexo e que você espera que ela apareça sã e salva, deixe que a narrativa do "surto psicológico" ou "desaparecimento voluntário" ganhe força o público adora um drama de gente rica. Ele assentiu, levantando-se ao chegar à porta, ele parou e olhou para trás, um último lampejo de humanidade cruzando seu rosto. — Ela era especial, Francisco realmente especial. Tinha um fogo que nenhuma outra tem. — O cemitério está cheio de pessoas especiais, Rafael o mundo pertence aos que sobrevivem e aos que têm estômago para governar. Assim que ele saiu, peguei o meu telefone criptografado na gaveta secreta da minha mesa e não tinha nenhuma mensagem, o Ceifador era um homem de poucas palavras, mas a demora em enviar a prova o anel de família dela que eu exigi como troféu estava começando a causar uma leve e incômodo. Não que eu duvidasse dele, duvidar do Ceifador era como duvidar da lei da gravidade, mas eu queria aquele anel na minha mesa. Queria sentir o frio do ouro e o peso da vitória final sobre a herança dos Melo, aquelas terras eram a chave para o meu próximo nível de poder, o degrau que me levaria da elite carioca para a política nacional, onde o verdadeiro jogo é jogado. Caminhei novamente até a janela o Rio de Janeiro estava mergulhado na escuridão, e em algum lugar ali, o Ceifador estava terminando de limpar o meu caminho. Imaginei Valentina no seu último momento, será que ela implorou? Será que ela tentou usar seus argumentos jurídicos e sua oratória impecável contra o cano frio de um fuzil? A ideia me fez sorrir a arrogância da virtude sempre morre de forma feia, patética e silenciosa diante da realidade crua da violência. — Adeus, Doutora Valentina — brindei ao vazio da noite carioca. — Sua morte será o alicerce de mármore do meu reino. Bebi o último gole, sentindo o poder fluir pelas minhas veias como veneno eu tinha vencido pousei o copo de cristal e apertei o botão de chamada sob o tampo da mesa. — Flavia, venha cá — ordenei, sem alterar o meu tom. Segundos depois, a porta se abriu e Flavia, entrou com passos silenciosos, ela era jovem, mantinha os olhos baixos e o uniforme impecavelmente passado, apontei para o meu colo, ela hesitou por um milésimo de segundo o tempo exato que o medo leva para processar a obediência e sentou-se, com a ponta dos dedos, ela traçou a linha do meu maxilar, tentando ler o homem que pagava o seu silêncio com notas de cem. — O senhor parece muito feliz hoje, Dr. Francisco — ela sussurrou, a sua voz carregada de uma curiosidade submissa. — Faz tempo que não vejo esse brilho nos seus olhos. Qual o motivo de tanta alegria? Algum negócio novo? Segurei o queixo dela com uma pressão apenas um pouco acima do confortável, obrigando-a a encarar o vazio sombrio do meu olhar. — O motivo, Flavia, é a ordem natural das coisas é a confirmação de uma verdade absoluta. — E que verdade seria essa? — perguntou ela, quase sem fôlego. — A de que eu sempre, sem exceção, consigo exatamente o que eu desejo, e hoje, o mundo ficou um pouco mais vazio de problemas e muito mais cheio de possibilidades. Apertei a cintura dela enquanto olhava para as luzes da Cidade no horizonte eu tinha o asfalto sob meus pés e o morro trabalhando para mim. Valentina era o passado; o meu império era o agora. Eu não apenas jogava o jogo; eu escrevia as regras com o sangue dos que ousavam me desafiar.
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