Valentina narrando
O Rio de Janeiro tem um jeito muito particular de sufocar a gente sob o pretexto de ser paradisíaco, enquanto eu observava o reflexo distorcido do meu rosto na vidraça do escritório, no 22º andar de um edifício imponente no Centro, o azul do Atlântico ao longe parecia uma ironia, eu, Valentina Albuquerque, criada entre os casarões do Jardim Botânico e as brisas seletivas do Leblon, sempre soube que o poder tem um cheiro específico: uma mistura de café caro, couro legítimo e o odor metálico do medo disfarçado de pragmatismo.
— Assina logo, Valentina. Deixa de ser dramática. Isso é apenas um trâmite administrativo para agilizar o fluxo de caixa da holding.
A voz de Rafael cortou o silêncio do recinto como uma lâmina m*l amolada. Ele estava encostado na minha mesa, a postura relaxada demais para quem estava me pedindo para validar uma transação que cheirava a enxofre e lavagem de dinheiro. Rafael era o sócio sênior, o homem que muitos diziam ser o "tubarão do asfalto". Para mim, naquele momento, ele era apenas um predador cujos dentes eu finalmente estava começando a enxergar.
— Trâmite administrativo, Rafael? — Minha voz saiu firme, polida pela educação de elite e anos de sustentações orais. — O que você está me apresentando é uma transferência de ativos para uma conta offshore sem o lastro de prestação de serviço correspondente. Como sua sócia e advogada, minha assinatura aqui não é um "procedimento". É um suicídio profissional.
Ele deu um passo à frente, o perfume importado dele, que antes eu associava ao sucesso, agora me causava náuseas.
— Francisco não vai gostar nada dessa sua súbita crise ética — ele disse, o tom baixando para um registro quase sussurrado, carregado de uma ameaça velada que fez os pelos da minha nuca se eriçarem. — Você sabe como o velho funciona. Ele não tolera hesitação. Somos uma família, Valentina. E na nossa família, quem não rema junto acaba caindo do barco. E o mar não está para peixe, querida.
Ele bateu levemente com a caneta Montblanc no topo da pilha de papéis. Um ultimato silencioso.
— Preciso analisar melhor os anexos — respondi, forçando uma neutralidade que eu não sentia. — Amanhã te dou uma resposta.
Rafael sorriu. Não foi um sorriso amigável; foi o sorriso de quem já sabe o final da piada.
— Não demore, o tempo é um luxo que você acha que tem, mas que já expirou.
Saí do escritório quando o sol já se despedia, tingindo o céu de um laranja sangrento, o trajeto até o estacionamento pareceu quilométrico. A cada passo do meu scarpin no mármore ecoava uma batida no meu peito.
Eu me sentia observada.
Era uma sensação visceral, um formigamento na base da coluna que nenhuma aula de Direito Civil me preparou para lidar, ao entrar no meu carro, travei as portas imediatamente, olhei pelo retrovisor, um SUV preto, com vidros excessivamente escuros, estava parado a duas vagas de distância o motor estava ligado.
— "É o estresse, Valentina" – pensei, apertando o volante com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. — "É o excesso de café e as noites m*l dormidas revisando processos."
Eu não queria acreditar que Rafael e Francisco, homens com quem compartilhei mesas de jantar e reuniões de diretoria, seriam capazes de algo tão rudimentar quanto uma perseguição física. Eles eram homens de leis, não eram bandidos de esquina, ou eram?
Saí do estacionamento e peguei o Aterro do Flamengo em direção à Zona Sul, o trânsito do Rio estava o caos de sempre, mas meus olhos não saíam do espelho, o SUV preto continuava lá, mantendo uma distância constante de dois carros.
Merda.
Minha mente começou a correr em círculos, tentando encontrar uma lógica jurídica para o pânico. Coação irresistível? Ameaça à integridade física? As minhas palavras pareciam vazias diante da realidade de um veículo de duas toneladas me seguindo pela cidade.
— "Eles não chegariam tão longe" – repeti para mim mesma, como um mantra para manter a minha sanidade. — "Eles têm muito a perder é apenas uma tática de pressão psicológica. Rafael quer me desestabilizar para que eu assine os documentos amanhã por puro esgotamento."
Lembrei-me das palavras dele no escritório: O mar não está para peixe.
Eu conhecia o código, no Rio, quando alguém do calibre de Francisco fala em "cair do barco", ele não está se referindo a uma demissão, ele está falando de eliminação de passivos, e naquele momento, eu era o maior passivo da firma.
Liguei o rádio para abafar o som da minha própria respiração ofegante, uma bossa nova suave preencheu o carro, contrastando absurdamente com o terror que subia pela minha garganta. Eu era Valentina Albuquerque, uma advogada de prestigio, a mulher que nunca perdia a pose, mas ali, cercada pelo aço do meu carro e pelas sombras da noite que caía sobre a Guanabara, eu me sentia como uma presa que acabara de perceber que o território onde sempre viveu nunca foi dela.
Eu estava no asfalto, mas as regras que regiam a minha vida agora eram as da selva.
Ao entrar no túnel, o sinal do meu celular oscilou, olhei para o aparelho no console, eu precisava de ajuda, mas a quem recorrer quando o perigo usa gravata e senta à cabeceira da mesa?
Balancei a minha cabeça, tentando afastar a paranoia.
— "É a sua mente pregando peças, Valentina. Você está exausta. Chegue em casa, tome um vinho, tome um banho e amanhã você resolve isso com a frieza que o caso exige."
Mas, enquanto eu entrava na garagem do meu prédio em Ipanema e via o SUV preto passar direto pela portaria, diminuindo a velocidade apenas o suficiente para que eu visse o brilho do vidro fumê.
Ao entrar no meu apartamento, o silêncio era um bálsamo o cheiro de velas de sândalo tentava me convencer de que eu estava segura, joguei as chaves no aparador e me servi de uma taça generosa de vinho, o álcool desceu queimando, e anestesiando a paranoia que rugia da minha mente.
— "Foi apenas uma coincidência, Valentina," repeti – observando o reflexo da Lagoa Rodrigo de Freitas pela varanda. — "O Rio é uma cidade de SUVs pretos e motoristas apressados. Você não é tão importante assim."
Depois do vinho e do banho consegui dormir, um sono pesado e sem sonhos.
No dia seguinte, cheguei ao escritório com a minha coluna rígida, ao entrar na minha sala, Rafael já estava lá, sentado na minha cadeira, girando uma caneta entre os dedos com uma agilidade hipnótica.
— Dormiu bem, Valentina? — Ele perguntou, sem levantar os olhos. — Você parece pálida?
— O que você quer, Rafael? Já disse que vou analisar os documentos.
Ele se levantou lentamente, caminhando até mim, o meu espaço pessoal, um conceito que ele ignorava deliberadamente, foi invadido.
— O Francisco mandou avisar que a análise terminou — ele sussurrou, a voz macia como veludo e perigosa como uma navalha. — Agora só resta a execução, ontem, no Aterro... o trânsito estava péssimo, não estava? Quase perigoso.
Meu sangue gelou, ele não precisava dizer que era o SUV, ele apenas confirmou com o olhar.
— Você está me ameaçando dentro da minha própria firma? — Minha voz falhou por um milímetro, e eu odiei isso.
— Ameaça é uma palavra jurídica muito forte, doutora, eu chamaria de... monitoramento de qualidade, queremos garantir que nossa sócia estrela não se perca no caminho de casa, ou no caminho da vida.
Ele deu dois tapinhas leves no meu ombro que escondia uma promessa de violência.
— Assine até o meio-dia.
Ele saiu, deixando o aroma do seu café e o eco de uma sentença de morte flutuando no ar eu estava cercada, e as paredes de vidro do meu escritório nunca pareceram tão frágeis.