Capítulo 11

1066 Words
Mariana narrando Viver no Morro dos Prazeres é como caminhar no fio de uma navalha cega: uma hora você se equilibra, na outra, o corte é fundo e não para de sangrar, eu nasci e cresci entre esses becos, vendo o sol nascer por trás do bico dos fuzis e se pôr no mormaço que mistura cheiro de esgoto com pólvora queimada, diferente da Rita e daquela patota de p*****a que vive rebolando na frente dos "linha de frente" por um combo de uísque ou pelo status de ser a "fiel" eu sempre busquei o meu. Tenho asco de quem se vende por migalha de poder, para essas garotas, o amor é medido pelo calibre da arma do cara, para mim, a vida sempre foi mais do que ser troféu de bandido, mas eu não sou santa, meu coração, esse traidor safado, bate num ritmo diferente toda vez que o Letinho passa, não é pelo cargo de sub ou pelo ouro que ele carrega no pescoço; é porque ele foi meu primeiro amor, o garoto que me dava bala na escola antes de trocar o caderno pela pistola. O dia ontem foi o próprio inferno, o BOPE subiu rasgando, o céu ficou vermelho e o som das granadas fazia o chão tremer, mas o morro resistiu, o Ceifador não cai fácil. Caminhei pela ladeira em direção à Casa Grande, sentindo o clima pesado do pós-guerra, e cumprimentei a Dona Zezé, que varria a entrada do barraco como se nada tivesse acontecido, e o Seu Jorge, que consertava um rádio de pilha, no morro, a gente limpa o sangue e segue o baile. Assim que cheguei na casa do patrão o ar gelou, o Ceifador estava na sala com uma mulher que parecia ter saído de uma capa de revista de luxo, mas o rosto dela estava marcado pelo pavor, vi um o papel em cima da mesa, manchado de sangue — Mariana, essa é a Valentina — o Ceifador disse, com aquela voz que faz o sangue virar gelo. — O que ela precisar, tu desenrola, já que a Mariana chegou, eu vou ralar para a boca. Ele saiu sem olhar para trás, batendo a porta e eu fiquei ali, parada, encarando a "Doutora". — Você deve estar achando que isso aqui é um filme, né? — falei, quebrando o silêncio. — Eu não sei o que achar, Mariana — ela respondeu, a sua voz trêmula, mas tentando manter a espinha ereta. Aproximei-me dela e baixei o tom, o aviso saindo direto das minhas entranhas: — Cuidado, moça. O Ceifador não tem coração. Ele só tem aquele rosário no pescoço, onde ele coleciona as almas das vítimas dele. Ela engoliu em seco, os olhos castanhos brilhando de medo. — Você está com fome? — perguntei, mudando de assunto. — O estômago vazio só ajuda o pânico a crescer. Fomos para a cozinha e eu comecei a tirar as coisas da despensa. Para minha surpresa, Valentina não ficou sentada esperando ser servida como as outras "patricinhas" que o crime às vezes sequestra, ela arregaçou as mangas do terno amassado, pegou um pano e começou a me ajudar a organizar os mantimentos. — Você não precisa fazer isso, Doutora — eu disse, pegando um pacote de arroz da mão dela. — Eu preciso ocupar minha mente, Mariana. Se eu ficar parada, eu enlouqueço — ela respondeu, guardando os pacotes de café com uma precisão maníaca. — E, por favor, me chama só de Valentina. O "Doutora" ficou lá embaixo. Depois que ela comeu um pouco, como quem tem um nó na garganta, ela me encarou com uma determinação que eu não esperava. — Mariana, o Ceifador disse que eu posso circular pelo morro. Você me acompanha? Preciso sentir o chão, ver onde estou metida. Olhei para os saltos agulha dela e para o terno. — Você tem coragem, moça, vamos, mas fica colada em mim, o morro não é o Leblon. Saímos pela favela, e o sol de meio-dia não perdoava, Valentina olhava tudo com um espanto mudo: as crianças correndo descalças perto do esgoto aberto, os vapores com radinho no ombro ou no cos da calça em cada esquina, o funk proibidão saindo estourado dos barracos. Estávamos descendo para a praça principal quando o azar cruzou o nosso caminho, Rita estava lá, sentada num banco com a sua turma de piranhas, todas com cara de quem tinha comido limão estragado. — Olha só se não é a bonequinha de luxo que o Ceifador trouxe desfilando no lixo! — Rita gritou, levantando-se e atravessando o nosso caminho. — Fica na tua, Rita! — dei um passo à frente, sentindo o meu sangue subir. — Ela tá com o aval do homem. — Tu cala a boca, Mariana! Tu é outra que vive lambendo bota de bandido por causa do Letinho! — Rita rosnou, parando a centímetros da Valentina. — Escuta aqui, morena nojenta... o morro já tem uma patroa e essa patroa sou eu, então é bom tu sair da casa do meu homem. Eu achei que a Valentina fosse recuar, mais ela deu um passo à frente, encarando a Rita olho no olho, sem piscar, a diferença de altura e de classe era óbvia, mas a postura da Valentina era de quem não tinha mais nada a perder. — Eu não escolhi estar aqui, garota — Valentina disse, a sua voz fria como gelo, cortando o ar como uma lâmina. — Mas já que estou, não vou aceitar desaforo de ninguém, muito menos de você. — O que tu disse, sua p*****a?! — Rita avançou, mas eu segurei o braço dela. — Eu disse que você é patética — Valentina continuou. — Se você é a "patroa", por que ele me colocou dentro da casa dele e te deixou fora? O seu território é a calçada queridinha então volta para lá. — Tu tá morta! — Rita gritou, espumando de raiva. — Tu não dura uma semana aqui em cima! — Vamos, Mariana, o cheiro de recalque aqui embaixo está me dando dor de cabeça. — Você mandou bem, Valentina — sussurrei. — Mas agora se prepara a Rita é uma cobra. — Eu já lido com cobras de terno e gravata todos os dias, Mariana — ela respondeu, sem olhar para trás. — A diferença é que aqui as cobras mostram o dente. Eu prefiro assim.
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