Mariana narrando
Viver no Morro dos Prazeres é como caminhar no fio de uma navalha cega: uma hora você se equilibra, na outra, o corte é fundo e não para de sangrar, eu nasci e cresci entre esses becos, vendo o sol nascer por trás do bico dos fuzis e se pôr no mormaço que mistura cheiro de esgoto com pólvora queimada, diferente da Rita e daquela patota de p*****a que vive rebolando na frente dos "linha de frente" por um combo de uísque ou pelo status de ser a "fiel" eu sempre busquei o meu.
Tenho asco de quem se vende por migalha de poder, para essas garotas, o amor é medido pelo calibre da arma do cara, para mim, a vida sempre foi mais do que ser troféu de bandido, mas eu não sou santa, meu coração, esse traidor safado, bate num ritmo diferente toda vez que o Letinho passa, não é pelo cargo de sub ou pelo ouro que ele carrega no pescoço; é porque ele foi meu primeiro amor, o garoto que me dava bala na escola antes de trocar o caderno pela pistola.
O dia ontem foi o próprio inferno, o BOPE subiu rasgando, o céu ficou vermelho e o som das granadas fazia o chão tremer, mas o morro resistiu, o Ceifador não cai fácil.
Caminhei pela ladeira em direção à Casa Grande, sentindo o clima pesado do pós-guerra, e cumprimentei a Dona Zezé, que varria a entrada do barraco como se nada tivesse acontecido, e o Seu Jorge, que consertava um rádio de pilha, no morro, a gente limpa o sangue e segue o baile.
Assim que cheguei na casa do patrão o ar gelou, o Ceifador estava na sala com uma mulher que parecia ter saído de uma capa de revista de luxo, mas o rosto dela estava marcado pelo pavor, vi um o papel em cima da mesa, manchado de sangue
— Mariana, essa é a Valentina — o Ceifador disse, com aquela voz que faz o sangue virar gelo. — O que ela precisar, tu desenrola, já que a Mariana chegou, eu vou ralar para a boca.
Ele saiu sem olhar para trás, batendo a porta e eu fiquei ali, parada, encarando a "Doutora".
— Você deve estar achando que isso aqui é um filme, né? — falei, quebrando o silêncio.
— Eu não sei o que achar, Mariana — ela respondeu, a sua voz trêmula, mas tentando manter a espinha ereta.
Aproximei-me dela e baixei o tom, o aviso saindo direto das minhas entranhas:
— Cuidado, moça. O Ceifador não tem coração. Ele só tem aquele rosário no pescoço, onde ele coleciona as almas das vítimas dele.
Ela engoliu em seco, os olhos castanhos brilhando de medo.
— Você está com fome? — perguntei, mudando de assunto. — O estômago vazio só ajuda o pânico a crescer.
Fomos para a cozinha e eu comecei a tirar as coisas da despensa. Para minha surpresa, Valentina não ficou sentada esperando ser servida como as outras "patricinhas" que o crime às vezes sequestra, ela arregaçou as mangas do terno amassado, pegou um pano e começou a me ajudar a organizar os mantimentos.
— Você não precisa fazer isso, Doutora — eu disse, pegando um pacote de arroz da mão dela.
— Eu preciso ocupar minha mente, Mariana. Se eu ficar parada, eu enlouqueço — ela respondeu, guardando os pacotes de café com uma precisão maníaca. — E, por favor, me chama só de Valentina. O "Doutora" ficou lá embaixo.
Depois que ela comeu um pouco, como quem tem um nó na garganta, ela me encarou com uma determinação que eu não esperava.
— Mariana, o Ceifador disse que eu posso circular pelo morro. Você me acompanha? Preciso sentir o chão, ver onde estou metida.
Olhei para os saltos agulha dela e para o terno.
— Você tem coragem, moça, vamos, mas fica colada em mim, o morro não é o Leblon.
Saímos pela favela, e o sol de meio-dia não perdoava, Valentina olhava tudo com um espanto mudo: as crianças correndo descalças perto do esgoto aberto, os vapores com radinho no ombro ou no cos da calça em cada esquina, o funk proibidão saindo estourado dos barracos.
Estávamos descendo para a praça principal quando o azar cruzou o nosso caminho, Rita estava lá, sentada num banco com a sua turma de piranhas, todas com cara de quem tinha comido limão estragado.
— Olha só se não é a bonequinha de luxo que o Ceifador trouxe desfilando no lixo! — Rita gritou, levantando-se e atravessando o nosso caminho.
— Fica na tua, Rita! — dei um passo à frente, sentindo o meu sangue subir. — Ela tá com o aval do homem.
— Tu cala a boca, Mariana! Tu é outra que vive lambendo bota de bandido por causa do Letinho! — Rita rosnou, parando a centímetros da Valentina. — Escuta aqui, morena nojenta... o morro já tem uma patroa e essa patroa sou eu, então é bom tu sair da casa do meu homem.
Eu achei que a Valentina fosse recuar, mais ela deu um passo à frente, encarando a Rita olho no olho, sem piscar, a diferença de altura e de classe era óbvia, mas a postura da Valentina era de quem não tinha mais nada a perder.
— Eu não escolhi estar aqui, garota — Valentina disse, a sua voz fria como gelo, cortando o ar como uma lâmina. — Mas já que estou, não vou aceitar desaforo de ninguém, muito menos de você.
— O que tu disse, sua p*****a?! — Rita avançou, mas eu segurei o braço dela.
— Eu disse que você é patética — Valentina continuou. — Se você é a "patroa", por que ele me colocou dentro da casa dele e te deixou fora? O seu território é a calçada queridinha então volta para lá.
— Tu tá morta! — Rita gritou, espumando de raiva. — Tu não dura uma semana aqui em cima!
— Vamos, Mariana, o cheiro de recalque aqui embaixo está me dando dor de cabeça.
— Você mandou bem, Valentina — sussurrei. — Mas agora se prepara a Rita é uma cobra.
— Eu já lido com cobras de terno e gravata todos os dias, Mariana — ela respondeu, sem olhar para trás. — A diferença é que aqui as cobras mostram o dente. Eu prefiro assim.