Capítulo 12

980 Words
Rafael narrando O silêncio do meu escritório no 22º andar nunca pareceu tão pesado, o ar-condicionado trabalhava no máximo, mas eu ainda sentia uma gota de suor frio escorrer pelas minhas costas, por baixo da minha camisa de linho italiano, segurei o porta-retratos de prata que ficava sobre a minha mesa, na foto, Valentina sorria aquele sorriso de quem achava que a ética e a justiça eram as únicas leis que regiam o mundo. Tola. Linda, mas uma tola incurável. — Eu te avisei, Valentina... — murmurei, passando o polegar pelo vidro gelado. — Te dei todas as chances do mundo para assinar aquela p***a daqueles papéis, mas não, você tinha que ser a mártir, a heroína. Um suspiro pesado escapou do meu peito, eu não sentia remorso o remorso é um luxo para quem não tem contas a pagar ou ambições a cumprir, eu sentia uma melancolia prática, era um desperdício, agora, eu nunca mais veria aquele rosto, exceto em memórias ou em alguma notícia de necrotério que o Francisco me mandasse. — Agora você é estatística, meu amor, e eu sou o herdeiro do que sobrou. Minha linha de raciocínio foi estraçalhada por três batidas secas na porta, guardei a foto na gaveta com um movimento brusco. — Entra! — ordenei, ajustando o nó da minha gravata. Minha secretária colocou apenas a cabeça para dentro, o rosto pálido denunciando que o dia estava prestes a azedar. — Dr. Rafael... tem dois detetives da Polícia Civil aqui fora, eles querem falar com o senhor sobre o desaparecimento da Dra. Valentina. Meu coração deu um salto contra o meu peito, senti o meu estômago revirar, mas forcei meu rosto a se transformar na máscara de um sócio preocupado e devastado. — Mande-os entrar imediatamente, Cristina. Os dois homens entraram, um era velho, com cheiro de cigarro barato e olhos de quem já viu corpo demais no IML, o mais jovem tinha um olhar clínico, daqueles que escaneiam até o número da sua conta bancária pelo jeito que você respira. — Detetive Soares e Inspetor Lima — o mais velho se apresentou, sem estender a mão. — A que se deve a visita, cavalheiros? Por favor, me digam que têm notícias da minha sócia, o escritório está um caos, eu m*l consigo dormir pensando no que pode ter acontecido. — Temos notícias, Dr. Rafael, mas não são as que o senhor gostaria de ouvir — Lima, o mais jovem, falou enquanto abria uma pasta. — Conseguimos imagens de câmeras de segurança próximas ao local do incidente, o carro da Dra. Valentina foi interceptado durante o temporal de ontem. Eu me inclinei para a frente, as minhas mãos entrelaçadas sobre a mesa para esconder o tremor. — E então? Onde ela está? — Pelas imagens e pelo modus operandi, não resta muita dúvida — Soares disse, cruzando os braços. — Ela foi levada por um dos maiores traficantes do Rio, o rastro leva direto para o Morro dos Prazeres, o Ceifador está com ela. Eu senti o meu sangue fugir do meu rosto, a palidez não foi fingida; o pavor era real. — O Ceifador? — Minha voz saiu um oitavo acima do normal. — Meu Deus... isso é uma sentença de morte! Por que ele faria isso? Valentina nunca se envolveu com o crime organizado! — É exatamente isso que viemos descobrir — Lima disse, colocando um papel timbrado sobre a minha mesa. — Temos uma ordem judicial aqui, precisamos verificar todos os processos em que a Dra. Valentina estava trabalhando, queremos encontrar qualquer ligação, qualquer ameaça que ela possa ter recebido. Engoli em seco, o pânico agora era um incêndio na minha garganta, se eles olhassem os arquivos da grilagem do Francisco... se eles vissem as notas fiscais frias que eu assinei... — Claro, com certeza — falei, forçando um tom prestativo. — Qualquer coisa para descobrir o que ouve, com a Valen Cristina! Minha secretária apareceu na porta. — Leve os detetives até a sala da Dra. Valentina, entregue todos os processos, pastas e arquivos digitais que eles solicitarem. Cooperem totalmente. Assisti aos policiais e eles saíram da sala que a porta se fechou, a máscara de "sócio preocupado" caiu e o que sobrou foi o homem que sabia que estava com a corda no pescoço. Peguei meu celular e disquei o número que eu tinha jurado nunca usar durante o dia, no terceiro toque, a voz gélida de Francisco Gomes atendeu. — Rafael? Espero que seja urgente, estou numa reunião de conselho — ele disse, com aquela arrogância de quem é dono do mundo. — A polícia esteve aqui, Francisco! — sussurrei, quase colado ao bocal do aparelho. — Eles viram as imagens. Eles sabem que foi o Ceifador! Estão na sala dela agora, vasculhando cada contrato, cada vírgula que ela escreveu! Houve um silêncio do outro lado. — Fica frio, Rafael, você é pago para ser o cérebro, não o covarde — Francisco rosnou. — O Ceifador faz o serviço limpo, se a polícia subir aquele morro, vai encontrar um corpo não identificado num saco preto ou cinzas a Valentina já era. — Eles estão olhando os processos da usina! Se eles ligarem os pontos... — Ninguém liga pontos que não existem mais, seu i*****l. Garanta que aqueles processos "sumam" ou sejam "alterados" enquanto eles estão distraídos. E lembra de uma coisa... — O quê? — perguntei, sentindo um frio na minha espinha. — Se você cair, eu não vou estar lá pra te segurar. Mas eu vou estar lá pra garantir que você não abra a boca. O Ceifador ainda tem espaço no rosário dele pra mais uma caveira. Entendeu? Desliguei o celular sem responder, olhei para a janela, para as nuvens que começavam a cobrir o Cristo Redentor, eu tinha vendido minha alma por uma porcentagem, e agora o demônio estava vindo cobrar o juro.
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