Lobo narrando
O Rio de Janeiro, visto aqui do alto do morro da foice, parece uma ferida aberta que nunca cicatriza, uma metrópole doente, pulsando sob um sol que não purifica, apenas apodrece o que já está morto, mas para mim, essa cidade não é um cartão-postal; é um tabuleiro de xadrez onde as peças de madeira foram substituídas por carne, osso e chumbo grosso, eu sou o Lobo, e, diferente desses moleques de facção que usam o crime como muleta para ostentar ouro, dancinha de t****k e futilidade, eu trato a milícia como uma empresa de extermínio, limpa, fria e, acima de tudo, lucrativa.
Eu estava no parapeito da minha base, uma construção de concreto puro que cheirava a óleo de arma, cigarro barato e suor de homem acuado, meus olhos estavam fixos no horizonte, onde as luzes do Morro dos Prazeres piscavam como um convite silencioso, uma provocação que me tirava o sono, aquele território é a joia da coroa da Zona Sul, quem domina os Prazeres domina a logística, a distribuição de pó para a alta burguesia e, principalmente, o medo da elite que mora nos prédios de mármore aos pés da favela.
— Olha só aquela p***a, Urubu — falei, sem desviar o meu olhar do binóculo de precisão, sentindo o gosto amargo da inveja subir pela garganta. — O Morro dos Prazeres brilha demais pro meu gosto tá na hora da gente apagar aquele refletor e hastear a bandeira da Foice lá no topo.
O Urubu, meu sub de confiança um ex-sargento do BOPE que percebeu cedo que ganhar por fora era melhor do que morrer recebendo auxílio-coxinha do estado, aproximou-se com um copo de café preto tão amargo quanto o humor dele.
— O papo é reto, Lobo, mas tu sabe que lá o buraco é mais embaixo — ele disse, a sua voz rouca de quem já gritou muito em pátio de quartel. — O Ceifador não é um gerente qualquer que tu dobra na base da propina ou do susto, o maluco transformou aquele morro numa fortaleza medieval, os moleques dele não trabalham por dinheiro, eles morrem por ele, o cara tem aquela mística do rosário de crânios... o povo lá embaixo e a playboyzada lá de cima acham que o maluco é a própria Morte encarnada.
Eu soltei uma risada seca, um som que mais parecia o rosnado de um bicho faminto.
— Morte encarnada? — Cuspi no chão de cimento, limpando o canto da minha boca. — O Ceifador é só um carniceiro com sorte, Urubu, um bicho-papão criado pra assustar criança de apartamento e burguês que cheira pó no Leblon pra esquecer que é corno, no final do dia, ele sangra como qualquer um, ele é feito de carne, osso e uma arrogância que vai ser o caixão dele, e a arrogância é o que faz o cara baixar a guarda quando o Lobo chega por trás.
— A última invasão da Civil e do BOPE não deu em nada — Urubu lembrou, acendendo um cigarro. — Os caras recuaram com o r**o entre as pernas, perderam farda e a moral, o Ceifador deu um nó tático neles, a moral do desgraçado tá batendo no teto.
Bati com o binóculo na palma da mão, sentindo o metal frio.
— É aí que tá o erro dele, ele acha que é imbatível, mas todo rei tem um tendão de Aquiles, todo herói de favela tem um ponto fraco que, quando você aperta, o castelo de cartas desmorona, eu não vou entrar lá pra trocar tiro de igual pra igual como a polícia faz, gastando munição com bucha de canhão eu vou entrar pra quebrar a espinha dele, quero mostrar pro Rio de Janeiro quem é o verdadeiro mensageiro da desgraça.
Caminhei até a mesa de carvalho onde um mapa tático da região estava estendido sob a luz amarelada de uma lâmpada pendurada por um fio, eu conhecia cada beco, cada acesso por trilha, cada ponto cego dos Prazeres, mas faltava a chave, a p***a da chave que abria a porta daquela fortaleza.
— Eu quero o Ceifador de joelhos, Urubu, quero que ele veja o império de pó dele desmoronar tijolo por tijolo antes de eu talhar o último crânio da vida dele. — Minha voz vibrava com um ódio antigo. — Esse misticismo barato de rosário de osso vai acabar na ponta da minha faca, mas pra isso, eu preciso saber o que faz o coração daquele monstro bater fora do ritmo, é dinheiro? é poder? é algum parente que ele esconde no asfalto?
— O cara é um ermitão, Lobo, vive trancado naquela favela, não tem família, não tem r**o preso com mulher nenhuma da área.
A única coisa que ele faz é coordenar o crime e matar quem atravessa o caminho dele.
— Todo mundo tem alguma coisa, Urubu, ninguém é puro ódio vinte e quatro horas por dia sem uma âncora. — Olhei fixamente para o mapa, sentindo a adrenalina de predador percorrer minhas veias. — Manda os nossos infiltrados passarem o pente fino. Quero saber até a marca do cigarro que ele fuma, quero saber quem entra e quem sai daquela Casa, o Ceifador tá escondendo algo, eu sinto o cheiro de longe, e cheiro de segredo pra mim é cheiro de oportunidade.
Urubu assentiu, mas eu vi a cautela nos olhos dele, ele sabia que mexer com o Ceifador era cutucar um enxame de vespas com um fuzil descarregado.
— Se a gente tomar os Prazeres, Lobo, a Milícia da Foice vira a maior força do estado, o asfalto vai ter que beijar a nossa mão pra poder respirar e os políticos vão comer na nossa mão.
— E eles vão, Urubu... eles vão. — Voltei para o parapeito. A noite estava pesada, carregada de eletricidade, daquelas que precedem a tempestade. — O Ceifador acha que o morro é o reino dele, mas ele esqueceu que o Lobo caça na sombra e não avisa quando vai morder, eu vou encontrar a ferida dele, e quando eu encontrar, não vai ter rosário, não vai ter reza e não vai ter fuzil que salve a alma dele do que eu tenho planejado.
O Rio de Janeiro ia descobrir que o bicho-papão do Morro dos Prazeres era apenas um homem, e eu ia ser o cara que ia arrancar a máscara dele com dentes e unhas, diante de um Lobo de verdade, qualquer ceifador vira carniça de beira de estrada.
— Prepara os homens, Urubu, começa a movimentação silenciosa pelas trilhas da mata, não quero barulho de motor, quero informação de ouro, a guerra tá chegando, e dessa vez, a Foice vai cortar mais fundo que qualquer faca de cozinha.
Acendi um cigarro, observando a fumaça cinza se dissipar no ar frio da noite, o Ceifador estava com os dias contados, ele só não sabia ainda, e o prazer de ver a queda de um gigante que todos temem é a única coisa que ainda faz o meu sangue ferver nessa cidade de mortos-vivos.
— Escuta bem o que eu tô te dizendo, Urubu — falei, soltando a fumaça lentamente, a minha voz carregada de uma certeza que beirava a loucura. — No dia em que eu conseguir dar um fim no Ceifador, o Rio de Janeiro vai mudar de dono, não vai ter mais essa palhaçada de facção, de "liberdade" pra bandidinho de chinelo, vai ter ordem, vai ter a foice.
O Urubu me olhou, ele sabia que eu não estava falando de uma guerra comum, eu estava falando de um novo império.
— Quando a cabeça daquele carniceiro rolar pela ladeira, o asfalto vai tremer, Urubu, os políticos que hoje babam o ovo dele vão vir rastejando aqui na Foice pra me pedir proteção, as rotas, os portos, as delegacias... tudo vai convergir pra minha mão, o Rio de Janeiro vai ser meu, e eu vou governar essa p***a como um rei que não aceita súplica.
— E o que a gente faz com os moleques dele, Lobo? — Urubu perguntou, a mão repousando no cabo da pistola.
— Quem não se ajoelhar, vira adubo — respondi com um sorriso que não chegava aos meus olhos. — Eu não quero sobreviventes que guardem luto, eu quero súditos que tenham medo até de respirar sem a minha autorização, o Ceifador se acha a Morte? Pois eu sou o esquecimento, e quando eu passar por lá, não vai sobrar nem a sombra do rosário dele pra contar história.
Joguei a bituca do cigarro e senti um calafrio de antecipação.
A caçada estava autorizada e agora era apenas uma questão de tempo até que o Ceifador descobrisse que até a Morte pode ser devorada por quem tem dentes mais afiados.
— Prepara o terreno, urubu, o banquete vai ser sangrento, e eu faço questão de ser o primeiro a morder.