Capítulo 15

1809 Words
Rita narrando O ódio é uma ferida que não fecha, ela lateja, desde que o Ceifador me enxotou da boca como se eu fosse uma vira-lata sarnenta, meu sangue virou puro veneno, eu fiz tudo por aquele homem, abri as pernas toda vez que ele chegava estressado da guerra e como ele me retribuiu? Trazendo uma patricinha de terno, com cheiro de flor de laranjeira, para ocupar o lugar que é meu por direito. Eu não sou de levar desaforo para casa, no Morro dos Prazeres, se você não morder, vira comida e hoje, na feira do morro, entre as barracas de fruta e o cheiro de peixe frito, eu ia mostrar para aquela p*****a quem é a verdadeira dona da p***a toda. Avistei a infeliz de longe, ela estava com a Mariana, caminhando como se estivesse no shopping, olhando para os moradores com aquele ar de superioridade que me dava vontade de arrancar os olhos dela. Minhas amigas, minhas piranhas de confiança já tavam no clima, só esperando o meu sinal. Apertei o passo e parei bem na frente dela, bloqueando o caminho. — Olha só se não é a nova p**a do patrão dando o ar da graça — soltei, com a mão na cintura e o deboche escorrendo. A tal Valentina parou, ela me olhou de cima a baixo, franzindo a testa como se estivesse tentando identificar um bicho estranho. — Do que você está falando? — a voz dela era calminha, educada, e aquilo me irritou mais ainda. — Tô falando de tu dar a b****a pro meu homem, sua vagabunda! — gritei, pra todo mundo ouvir. — Acha que vai ficar por isso mesmo? Que vai entrar na casa dele, deitar no lençol dele e eu vou ficar assistindo? Eu vou te dar uma surra que nem o legista vai te reconhecer, eu quero que tu suma da p***a do meu morro, entendeu? Eu sou a patroa, a mulher do Ceifador, e eu não aceito concorrência de lixo de asfalto! A v***a não abaixou a cabeça, ela deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma raiva que eu não achei que uma dondoca tivesse. — Eu não sou p**a de ninguém, se tem uma p**a aqui é aqui está latindo na minha frente — ela sibilou. — Ah, tu vai ver quem é p**a agora! — gritei e avancei. Minhas mãos voaram direto naquele cabelo sedoso que devia custar uma fortuna, enrolei os meus dedos nos fios e puxei com vontade, sentindo o couro cabeludo dela ceder, o grito que ela deu foi música para os meus ouvidos, começamos a rolar no chão, entre as caixas de tomate, eu batia, arranhava, queria marcar aquele rosto de porcelana para que o Ceifador perdesse o t***o na hora. A confusão estava armada, e o Sal, um dos moleques da contenção que sempre teve uma queda por mim, surgiu do nada e nos separou, segurando a Valentina pelos braços. — Pega ela, Sal! — mandei, limpando o suor da testa e cuspindo no chão. — Vamos levar essa c****a para a praça, depois que eu terminar de quebrar a cara dela, você pode trepar com essa p**a e jogar na vala, o patrão não vai nem sentir falta de um brinquedo quebrado. — Me solta! — ela gritava, lutando contra o aperto do Sal. — Cala a boca, p**a! — dei um tapa estalado na cara dela. — Gostou de dar a b****a pro meu marido? Agora vai ver o que a mulher dele é capaz de fazer quando mexem no que é dela. Arrastamos ela até a praça principal o povo começou a se aglomerar, formando aquele círculo de curiosos que adora ver o circo pegar fogo, eu me sentia poderosa, eu era a rainha do morro, ditando a sentença da invasora. — Olha só, favela! — gritei, apontando para a cachorra, que estava descabelada e com o lábio sangrando. — Mais uma p**a sem juízo querendo sentar pro patrão, o que eu faço com esse tipo de mulher? Um corte de cabelo na zero? Uma surra bem dada com fio de luz? Me deem uma dica, para que eu possa fazer acontecer! Dei uma gargalhada alta, sentindo o prazer da humilhação alheia. Aquela sem sal me olhou com um desespero que me fez gozar de alegria, ninguém ia salvar ela. Ali, a lei era a minha vontade. — Eu não sou puta... — ela tentou falar, mas a sua voz morreu na garganta. Antes que eu respondesse o som de dois tiros para o alto cortou a minha risada como uma navalha, o silêncio que se seguiu foi absoluto, pesado a multidão se abriu como o Mar Vermelho e, no meio dela, ele surgiu. O Ceifador. Ele não caminhava, ele avançava, o seu rosto era uma máscara de fúria cega, antes que eu pudesse abrir a boca para me explicar, a mão dele se fechou no meu pescoço, me levantando do chão, na mesma hora o ar fugiu, meus pés balançavam no vazio. — Quem você pensa que é, Rita? — o rosnado dele vibrou dentro dos meus ossos. — Q-quem eu penso que sou? — consegui falar mesmo engasgada, as lágrimas vindo. — Eu sou sua mulher! Eu tava protegendo o que é nosso! Vou matar essa puta... A mão dele apertou mais, e eu vi o brilho da morte nos olhos dele. — Minha mulher? — ele soltou uma risada que me deu mais medo que o aperto. — Você é apenas uma p**a que me dá a b****a quando eu quero e tenho vontade, e olhe lá. Acha que pode fazer o que quer no meu morro? Eu te avisei para não encostar nela, e você fez o contrário. Ele me jogou no chão como se eu fosse um saco de lixo, virei-me para o lado, tossindo, tentando recuperar o meu fôlego, enquanto ele se voltava para o Sal, que estava parado feito uma estátua. — E você, Sal? — o Ceifador gritou, a sua voz ecoando pelas paredes da praça. — Quem é o patrão aqui? Quem manda nesse c*****o? Eu ou a Rita? Antes que o moleque pudesse responder, o Ceifador desferiu um soco brutal na cara dele, o som do osso quebrando foi seco, sal caiu com tudo, o sangue espirrando no chão. — Chefe... ela sempre disse que... — Sal tentou balbuciar, com a boca cheia de sangue. — Não responda, pois você assinou sua sentença de morte quando tocou nessa mulher. O Ceifador gritou, o ódio transbordando em cada sílaba, ele desferiu outro soco, um golpe de misericórdia que estalou o osso da mandíbula do moleque. Sal desabou no chão, como um saco de carne inútil e sangrenta. — Chefe… — ele ainda tentou um último apelo, estendendo a mão trêmula. — Levem para o galpão. Quero tratamento VIP nele — rosou o Ceifador, e o "VIP" dele todo mundo sabia o que era: horas de agonia até o coração parar. Dois dos seus homens obedeceram na hora, arrastando o corpo do Sal pelo asfalto quente da praça. O pânico subiu pela minha espinha, mas o ciúme era um ácido que me corroía mais do que o medo, eu não podia aceitar, não depois de tudo. — Sério que vai matar o Sal por causa dessa p**a que você tá comendo? — gritei, a minha voz histérica ecoando entre os barracos. — Você nunca se importou quando eu batia nas vadias ou cortava os cabelos de quem se engraçava pro teu lado! Qual é a diferença agora? Por que essa v***a de terno vale mais do que a minha lealdade? A resposta veio na velocidade de um raio, o Ceifador girou o corpo e me deu um tapa na cara tão forte que minha visão escureceu por um segundo, o gosto metálico do sangue invadiu minha boca instantaneamente. — Eu não me importo com a p***a da sua p*****a. Quer bater, brigar? Isso não me importa, p***a! — Ele se inclinou sobre mim, a sua aura de morte me sufocando. — Agora não se meta nos meus assuntos, eu nunca te chamei de mulher, nunca te assumi e você não é a patroa do meu morro, entendeu? Você é conveniência. — E ela é? — gritei de volta, as lágrimas da humilhação queimando meu rosto. — Ela é a patroa agora? Essa patricinha que não aguenta um dia de sol na laje? — Acho que você não entendeu, e eu vou precisar te ensinar uma lição, p***a! — A voz dele desceu para um tom de gelo absoluto, aquele tom que ele usa antes de riscar um nome da lista dos vivos. — Deixa comigo, eu resolvo isso — Letinho apareceu do nada, colocando a mão no ombro do Ceifador, tentando evitar que o patrão sujasse as mãos com o meu sangue ali mesmo, na frente de todo mundo. — Quero que ela tome uma surra, entendeu? Quero ela no hospital — ordenou o Ceifador, virando as costas como se eu fosse um inseto que ele acabou de esmagar. — Sem marcas no rosto, Letinho. Quero que ela sinta a dor por dentro, pra aprender a nunca mais atravessar o meu caminho. Eu tremi da cabeça aos pés, o hospital, no código do morro, significava que eu ia sair de lá quebrada, Letinho me segurou pelo braço, o aperto dele era firme. — Sério que vai fazer isso? Eu te dei os melhores anos da minha vida! Eu matei por você! — comecei a berrar, debatendo-me, mas o Ceifador continuava caminhando em direção à quela v***a, fingindo não ouvir meus gritos desesperados enquanto eu era arrastada ladeira abaixo. O mundo girava, eu via o rosto dos moradores, alguns com pena, outros rindo da minha queda, eu era a rainha deposta, sendo levada para o calabouço, enquanto o Letinho me empurrava para dentro de um beco escuro, eu jurei para mim mesma: se eu sobrevivesse se meus ossos colassem de novo, eu ia fazer o Ceifador se arrepender, se ele amava aquela boneca, eu ia dar a ele o que ele mais entendia: o luto. — Fica quieta, Rita — Letinho murmurou, a sua voz sem emoção. — Tu cavou tua própria cova. Agora aguenta o tranco. — Escutem bem, porque eu não vou falar duas vezes — ele sentenciou, a frieza voltando à sua voz. — Essa mulher está sob a minha proteção. Quem encostar um dedo nela, quem olhar torto ou quem seguir a pilha dessa v***a da Rita, vai conhecer o rosário de perto. Olhei para trás uma última vez e vi o Ceifador caminhando até a Doutora, ele não a abraçou, não foi carinhoso, ele apenas a pegou pelo braço, possessivo, marcando o território. Se ela era a protegida dele, então o Morro dos Prazeres ia se tornar o inferno particular dela.
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