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2903 Words
Nunca pensei em como as pessoas me viam. Sequer me importava realmente se tinham uma boa impressão minha ou se me achavam um completo chato. Uma vez, ouvi até mesmo de Yejun que eu era egoísta, mas estávamos jogando e quando a final ficou entre nós dois, eu apenas usei o máximo dos recursos que tinha e dei um fim nele sem nem pensar. Mas eu não levei aquilo sério porque eu não sou um egoísta. E prova disso, é o aperto que sinto em meu coração ao ouvir minha mãe dizer que está doente. Foi como levar um tiro à queima roupa. Olhei-a, ainda absorvendo o dito e a vi sorrir pequeno. Seus olhos desviaram dos meus no mesmo instante. Senti meu peito queimar pela dor e a angústia de saber daquilo, daquele modo, de tê-la à minha frente com apenas uma notícia r**m. De saber que agora posso realmente a perder. Quando seus olhos voltaram a me olhar, suspirei, abalado demais para falar qualquer palavra, então o silêncio tomou conta da pequena casa, e eu, me senti outra vez o garotinho assustado que era em seu passado. Saber que ela, uma mulher tão pequena e de aparência frágil, estava se mudando para um hospital porque estava doente, e precisaria ficar internada, doeu. Seria algo assim tão grave? ㅡ O que está acontecendo? ㅡ perguntei, baixo, deixando o silêncio tomar conta do ambiente em seguida. Meu pai havia maltratado-nos por muitos anos, mas era ela quem carregava todas as cicatrizes. E talvez isso a machucasse tanto quanto olhar para mim e lembrar dele, e, no fundo, eu já lamentava bastante por tudo o que havia passado, mas doença... eu jamais esperaria por isso. Seu silêncio ainda era persistente, o que fez minha mente criar mil e uma coisas. Talvez não fosse algo muito grave, eu queria acreditar naquilo. Mas o modo em como ela me olhava, em como relutava para falar. Nada a deixava esconder o quanto lhe assustava. ㅡ Eu tenho câncer no fígado no estágio dois. Meus olhos arregalaram-se, não acreditando no que meus ouvidos ouviam. ㅡ Senti algumas dores na região do estômago e não pensei que fosse algo sério. Mas tive alguns sintomas mais graves, tonturas, náuseas... minha patroa me levou ao hospital e então lá estava ele... ㅡ Há quanto tempo faz? ㅡ Alguns meses. ㅡ Alguns meses? E não pensou em me procurar? ㅡ Eu não pensei se você ainda iria querer saber sobre mim, mas eu te chamei aqui, porque estou pior, e terei que ficar interna para um tratamento experimental. ㅡ Experimental? Como assim? ㅡ Fazem sete ou oito meses que venho tendo sessões de quimioterapia e nada acontece. Estou na fila de transplante, mas não tenho esperanças de que um novo fígado chegue para mim, antes que a doença se alastre e me mate. O tratamento novo é minha única saúde. ㅡ Você... não pode morrer. ㅡ falei, sentindo meus lábios secos. ㅡ se precisa de um fígado, pegue o meu. Dizem que ele se regenera, não é? Eu posso doar uma parte e tudo volta a ficar bem. Eu a vi negar, tranquilamente enquanto ainda mantinha o pequeno sorriso. ㅡ Não faria isso com você. Eu tenho consciência de que fui e sou uma mãe r**m, não precisa me dar parte sua, para demonstrar que se importa. ㅡ Mas eu realmente me importo. Eu sei, nunca tivemos uma boa relação, mas eu não te culpo por isso. Só... viva, por favor. ㅡ Eu irei, mas não arrancarei uma parte sua sem saber se funcionará. Você sempre foi uma boa criança, Calleo. Eu que não consegui controlar o que nasceu dentro de mim. ㅡ Você também não tem culpa, eu sou a cara dele, deve ser cansativo me olhar e lembrar de quem mais te machucou... ㅡ Você não tem culpa. Eu não deveria ter te abandonado assim, e quero pedir perdão por isso. ㅡ Tudo bem, não precisamos falar disso agora. ㅡ Precisamos, Calleo, porque se eu morrer, não quero que pense que te tenho como um erro. O meu único erro foi ter acreditado nele, e ter deixado que ele tomasse conta da minha mente. Você foi gerado em mim, é parte de mim, então não deveria ser tratado como lixo, somente porque também era parte dele. Eu te devo perdão, muitos e incansáveis perdões. Não fui uma boa mãe. Meus olhos pesaram. Minha mágoa de anos estava bem ali, prestes a cair em forma de lágrimas. Meu coração estava ainda mais estraçalhado, não deveria ser correto que esse momento acontecesse assim, quando ela está com medo de seu próprio fim. Ainda era minha mãe... E ela lembrava que era eu, o seu filho. Naquela mesma hora, fui preenchido por um turbilhão de sentimentos. Sentia tristeza, por vê-la ㅡ outra vez ㅡ tão abatida, mas alegria por enfim vê-la demonstrando um pouco de arrependimento do que fez, mesmo que, no fundo, eu sequer tenha lhe culpado verdadeiramente sobre algo. Também havia insegurança, medo, pena, compaixão; Tudo estava uma bagunça dentro de mim. ㅡ mãe... Assim que a chamei daquele modo, vi seus olhos abertos, como se o modo em que havia dito aquela curta palavra, trouxesse um turbilhão de sentimentos para si também. Eu a olhei com os olhos ainda relutantes, eu não sabia como agir diante de toda aquela avalanche. ㅡ ainda te machuca me olhar? ㅡ eu deveria tentar mentir, mas sempre foi difícil... ㅡ Me desculpe. ㅡ pedi. ㅡ me desculpe parecer com ele. ㅡ Não se desculpe. De toda essa história, você é quem menos tem culpa de algo, Calleo... mas você é meu filho, sinto muito não ter feito da sua infância um lugar bom para se guardar memórias. ㅡ Mas eu tenho memórias desse tempo. ㅡ Mas são memórias tristes, cinzas. Você era tão pequeno e eu tentei te odiar... Não deveria sequer ainda merecer o seu olhar penoso. Suspirei, piscando, tentando afastar o sentimento mais notório no momento. Pena. ㅡ Eu reconheço que fui horrível, Calleo... Mas não sei quanto tempo ainda viverei e não quero morrer e deixar meu único filho sem saber que todos os dias me arrependia amargamente em ver a forma de como estava te tratado... eu estava instável, queria cuidar de você, mas aquilo acontecia quando eu te olhava. Você não tinha culpa dos meus problemas ou das minhas crises... mas eu também achava que te afastando, te fazendo me odiar, você não iria sofrer com as cenas que via. Me aproximei de seu corpo, sentando ao seu lado no pequeno sofazinho. Ela me olhou e eu vi lentamente sua mão sendo guiada até encontrar a minha, apertando sem força alguma, mas causando outro turbilhão de coisas. Quando me tocou de leve, seu toque me assustou um pouco e isso me arrepiou completamente. Ainda sem falar nada, ela manteve seus olhos e sua mão em mim, então vi seu polegar se arrastando sobre minha mão, me fazendo um carinho. Eu sorri desproporcional, incapaz de controlar. Senti seu aperto leve sobre minha mão, e isso me fez levantar os olhos até encontrar com os seus. ㅡ Eu quero somente que saiba que eu estou realmente arrependida, e que você não precisa me perdoar, muito menos me amar... e eu não quero que tenha pena de mim por conta do meu atual estado, quero somente que saiba que estou sendo verdadeira com você agora. Eu apenas concordei devagar com a cabeça, e tentei mudar o foco daquela conversa. ㅡ mas... porque terá que ficar no hospital? O tratamento é diário? Ela ponderou ao falar e seus olhos novamente foram de encontro com sua mão, que agora se apertava uma contra a outra em seu colo. ㅡ o tratamento terá que ser mais intenso, já que não estamos conseguindo resultados, então ficarei internada em observação por se tratar de algo experimental. ㅡ Você já entrou na fila para transplante? ㅡ sim... é uma fila extensa, sabe? Mas também pode dar certo. Se eu conseguir um transplante, terei a certeza de que poderei ficar viva por mais alguns anos. ㅡ Então aceite o meu! ㅡ Eu não posso fazer isso com você, não vou aceitar. Neguei, verdadeiramente chateado. ㅡ Eu só não queria que as coisas continuassem como estavam, Calleo. Suspirei, assentindo por fim, ㅡ Obrigado por me contar. ㅡ pedi, vendo seu leve sorriso outra vez. ㅡ eu sei que deveria te contar desde o início, mas eu realmente estou com medo de morrer... Não queria te sozinho nesse mundo, sem entender nada. ㅡ Você não vai morrer. ㅡ estou tentando acreditar nisso. ㅡ sem tom foi leve. ㅡ mas que Deus te ouça; Naquele momento, era como se uma avalanche estivesse caído sobre mim, me deixando sufocado. Minha mãe, que demonstrava não me amar e que sempre me quis distante, estava em minha frente, dizendo que sentia muito e que estava arrependida... Talvez fosse apenas a doença, o medo de estar sozinha naquele momento, que tivesse a feito fazer o que estava fazendo, mas ela estava mesmo precisando de mim, e era um momento tão doloroso, eu não podia deixá-la simplesmente sozinha novamente. Naquele domingo, conversamos mais um pouco sobre sua doença e ida ao hospital, e foi estranho porque percebi que havia sido um dos dias em que mais havíamos ficado juntos em toda a minha vida. E eu gostei da sensação. Ela até me serviu um pedaço de bolo e aquilo foi simplesmente Wow! Talvez o Calleo de oito anos estivesse preso dentro de mim e o sorriso que lhe dei quando agradeci, foi daquele garoto, enfim, tendo um pouco da mãe que tanto quis cuidar. Eu estava me sentindo bem no fim. As circunstâncias eram ruins, talvez as piores, mas eu me senti bem a cada segundo que passei ao lado dela. Minha mãe me disse que já na segunda iria direto para o hospital, então como não sabia direito o que fazer, eu apenas me ofereci para ficar o restante do domingo lá, ajudando-a a organizar suas poucas coisas. Foi estranho, porque eu sentia que ela realmente queria se reaproximar, mas que ainda existia uma barreira enorme impedindo isso. Na segunda de manhã avisei que chegaria atrasado no trabalho, e a deixei no hospital. Foi ainda mais estranho, eu me sentia como um gato recém-adotado; estava assustado, mas me sentindo acolhido ao mesmo tempo. Após deixá-la já instalada em seu quarto, eu conversei com seu médico, Doutor Kim Mindae, e me apresentei devidamente como filho de Amélia Holf ㅡ já que ela havia retirado o sobrenome do meu pai quando enfim se divorciaram e ficado com seu sobrenome de nascimento. Ele me deixou a pá de tudo, me contou como o tratamento seria invasivo e como poderia ser difícil para que eu visse aquilo de perto também, já que eu fiz questão de deixar claro que não fazia ideia de sua condição. No fim, me despedi e prometi voltar em breve. Ela sorriu, outra vez curto e pequeno, e assentiu. Seguindo já para a saída do hospital com um pouco de pressa, pois já estava a quase duas horas atrasado para meu horário de trabalho, passei por todos os corredores caminhando o mais rápido que podia, até chegar a primeira recepção, devolvendo o crachá de visitante, e logo indo em direção a saída. Entretanto, ainda parecia que meu peito estava sufocado. Eu ainda tinha várias coisas na cabeça, parecia que eu estava deixando-a outra vez, mesmo que eu tivesse noção de que ali, ela apenas estaria tentando se curar de sua doença. Estava perto da saída quando não consegui desviar a tempo de um rapaz loiro que corria feito um louco naquela direção. Sem culpa, eu esbarrei nele, fazendo com que eu e ele caíssemos no chão, um de frente ao outro, s*******o de que todos ao redor estavam assustados com o tombo. Reclamei, é claro, mas assim que me levantei, estendi minha mão em sua direção, ajudando-o a se erguer também. Feito isso, ele se desculpou. Tentei negar, mas ele falava demais, e dizia como a culpa havia sido somente dele, e mesmo eu não assumindo, havia sido mesmo. Em seguida, ele fez uma breve reverência, se desculpando mais uma vez e retornou a correr para dentro do hospital feito um louco. Eu o olhei ainda parado, pois seu rosto me era familiar, mas nada veio a cabeça na hora, então apenas continuei meu caminho em direção ao ponto de ônibus para ir direto para o trabalho. Chegando lá, me desculpei com o senhor Kim HaJun, meu gerente, explicando o motivo do atraso. Ele se mostrou compreensivo no momento em que ouviu as palavras "Mãe" e "câncer" na mesma frase, e apenas me disse para não se preocupar. Assim que terminei meu turno naquele dia, retornei para meu apartamento , e antes de fazer qualquer coisa ali dentro, apenas me sentei no chão com as costas apoiada em meu sofazinho, pensando que até esse ponto tudo que achava comum em minha vida tinha mudado. Digo, eu não conseguia mais imaginar não vê-la, de ficar sem notícias suas. Era como se todos aqueles anos de exclusão, maus-tratos, abandono, tivesse sumido. Em apenas um final de semana, o destino havia me devolvido uma mãe, mas uma mãe doente. Durante alguns dias eu tentei seguir minha rotina comum, mas a coisa que eu nunca pensei que aconteceria novamente, estava acontecendo. Eu estava preocupado com ela. Outra vez. Então sem conseguir seguir mais daquele jeito, liguei para o hospital e peguei os horários de visita, apesar de poder entrar lá a qualquer horário, pois era o seu único parente registrado no sistema como responsável, e tinha total acesso para acompanhá-la. Mas se eu fizesse isso, se simplesmente chegasse lá, tenho certeza que seria muito estranho, então, com os horários em mãos, eu fui visitá-la pela primeira vez no hospital. Ainda sem jeito, entrei em seu quarto e a encontrei deitada, dormindo tranquilamente. Me sentei ao seu lado numa das poltronas que estavam ali, e a observei serenamente. Pensei em como haviam sido aqueles dois anos, como ela havia enfrentado a notícia de sua doença sozinha e como havia sido difícil para si, me procurar. Suspirei, assustando-me com a enfermeira que entrou logo em seguida e a cumprimentei. Ela informou que estava no horário de minha mãe tomar alguns remédios e que teria que ser despertá-la. Ao acordar, ela demonstrou espanto ao me ver ao seu lado, mas logo abriu um sorriso pequeno. ㅡ Oi, Calleo... você veio. ㅡ sua voz estava baixa, rouca, quase nula. ㅡ faz muito tempo que está aqui? ㅡ Acabei de chegar. ㅡ falei. ㅡ vim para ver como você estava. ㅡ Não precisa se preocupar comigo, ainda estou na mesma. Mas fico feliz que tenha vindo, é bom te ver. Maneei a cabeça em concordância e sorri. Ela me olhou, mas logo voltou a falar: ㅡ Sabe... te ver aqui, agora, me faz muito bem, mas também me faz muito mal... Eu não entendi o que ela estava falando, então apenas a olhei em silêncio, assustado. Não n**o, meu coração acelerou, com medo do passado voltar e se tornar nosso presente. ㅡ me faz bem porque sei que você realmente está ao meu lado porque se importa, mas me faz m*l porque... em todos esses anos eu só te afastei, e isso só porque você me lembrava o homem que mais me fez m*l. Agora eu posso ver que estava errada. Você não tem muito daquele homem a não ser o DNA e sua semelhança tão nítida. Mas ele não tem o coração tão bom, sequer eu acho que tenho. Você é único nesse aspecto. Eu ouvi tudo aquilo e me senti feliz. Eu gostaria de poder olhá-la no fundo dos olhos e dizer que a perdoava. Eu queria mesmo fazer aquilo; Mas eu simplesmente não conseguia. Observei a enfermeira introduzir os remédios, conversando um pouco com ela e aguardei. Um lanche foi oferecido a ela e sorri, negando, quando me ofereceram também. ㅡ eu não quero te deixar desconfortável. ㅡ ela disse, rindo baixo, enquanto comia um iogurte. ㅡ Então pode ficar a vontade... Eu vou assistir um pouco de TV, você quer assistir comigo? Fiz que sim, mesmo que meio envergonhado e sem saber o que responder, além de positivamente olhei para a TV quando ela a ligou. Durante o restante das horas, nós não conversamos muito, apenas assistimos a um programa de comédia que estava passando no momento, e vez e outra eu a olhava, desacreditado de que aquilo realmente estava acontecendo. E em um momento eu senti meu corpo arrepiar; eu não esperava por uma reação daquela em meu corpo ao apenas ouvir o mero som de sua risada. O som de sua risada ainda era o mesmo! Eu não entendia como alguém que estava claramente doente, com risco de morte, podia sentir alegria e sorrir daquele modo com algo tão bobo na TV; Mas o que realmente me surpreendeu foi que o som de sua gargalhada me pegou totalmente de surpresa me fazendo perceber o quão bom era ouvi-lo e como ela me fez rir em conjunto. Ela estava doente, mas aquele breve momento a fez esquecer de tudo e perceber isso me fez sorrir ainda mais. E a sensação ao sorrir ouvindo aquele som foi como se eu tivesse realmente retornado aos meus oito anos. Era pura euforia.
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