NARRAÇÃO DE MAXINE...
— Vou precisar descer! — avisei, abrindo a porta.
Elas me olharam confusas. Bastou Thiago se aproximar para que ficassem mais calmas.
— Não parece pronta para caminhar. — Ele olhou minha calça jeans e a blusa social nova.
Forcei um sorriso.
— Me dê cinco minutos? Prometo que não passarei disso.
— Vá lá... — ele respondeu, sorrindo e dando espaço.
Assim fiz. Corri para o casarão e me troquei na velocidade da luz! Eu queria pisar na praia. Eu nunca tinha pisado na praia. Antigamente diziam que aquilo não era lugar para uma herdeira. Mas as regras do passado não se aplicam mais a mim.
Coloquei uma roupa confortável para uma boa caminhada.
Amarrei meus cabelos bem firme, pois são tão lisos que escorregam do elástico quando corro.
Ainda assim, suspirei ao me encarar no espelho.
— Estou pronta. — Afirmei, sorrindo para mim mesma.
Saí sem enrolação, ciente de que meu treinador me aguardava ao lado da porteira, do lado de fora.
Chegando lá, vi-o montar em sua moto e estender outro capacete para mim.
— E-eu não sei se é seguro.
— É seguro. — afirmou calmamente.
Peguei o capacete receosa. Naquele dia, estava fazendo muitas coisas que não tinha costume de fazer. E uma delas era subir na garupa de uma moto.
Passei por cima do medo da queda e subi.
— Pode segurar na alça traseira. Se não se sentir segura, pode segurar em mim.
Não hesitei em segurar na alça traseira da moto. Não vou abraçá-lo mesmo.
Ele ligou a moto e deu partida.
Meu coração acelerou durante todo o percurso. Sempre que diminuía a velocidade para passar por um quebra-molas, meu coração descompassava. Meu corpo escorregava por estar usando uma calça de lycra, praticamente colando nas costas dele. Claro que eu disfarçava, voltando para trás.
Confesso que fiquei aliviada quando ele parou em frente à praia.
Desci da garupa pensando seriamente em voltar para casa de carro. Sei lá... Tenho o número da Árya, posso pedir ajuda.
— Bom. Começaremos com uma corrida leve de trinta minutos na areia. Mas antes precisamos nos alongar. — Ele quebrou o silêncio.
Eu estava ocupada demais admirando aquele mar pessoalmente, sem precisar estar dentro de um carro em movimento, sem nem ao menos sentir o cheiro da brisa.
Mas agora estou aqui.
Dei o primeiro passo e pisei na areia.
Tão macia e leve.
— Nunca pisou na praia? — Thiago perguntou enquanto alongava, segurando o pé.
— Não desse jeito...
— Como assim?
— Já vi o mar, mas apenas de dentro de um carro em movimento.
Inspirei, fechando os olhos.
— Vamos. Depois do treino podemos apreciar a vista.
Obedeci e foquei nos alongamentos. Ele incentivou, e começamos a correr.
Foi difícil. Não tenho costume de caminhar, principalmente na areia.
Corri até sentir a dor do facão em minhas costelas.
Parei exausta.
Desisti.
Coloquei as mãos nos joelhos, ofegante, sentindo o suor escorrer pela testa.
— Ainda faltam dois minutos para terminar. — Ele falou entre risos, olhando o relógio de pulso.
— Esquece! Eu não consigo! Pode correr o quanto quiser, eu não vou mais.
— Vai desistir assim? Facilmente?
— Sem sombra de dúvidas. — Afirmei, tocando a costela.
— Então vai recuar? Tem certeza? Isso tem consequências.
Ele parecia querer aprontar.
— Como assim?
Meu corpo adormeceu quando Thiago me pegou no colo e correu na direção do mar.
— Não! Thiago! Eu não sei nadar!
Ele me ignorou, aos risos, e me jogou sobre a primeira pequena onda.
De fato, eu não sabia nadar.
Submergi em meio à água salgada e à areia. Pensei que fosse o meu fim.
Mas Thiago me puxou pela mão, ainda rindo.
Percebi que a água batia apenas na nossa cintura.
Fiz tempestade em copo d’água.
— Você é louco. — Afirmei trêmula, e não pelo frio, mas pelo medo.
— Então não sabe nadar? Outra missão. Amanhã, no lago, às dez da manhã.
— Não! Eu já me afoguei em uma piscina quando criança e não quero passar por isso novamente.
— Por acaso está se afogando?
— Não. Mas pensei que iria.
— Apenas confie. Assim seu corpo flutua na água.
— Corpo flutuar na água? O quê? Um cadáver?
Thiago gargalhou alto.
— Eu não entendo duplos sentidos. Ainda preciso melhorar muito meu português.
— Não. Eu vou te mostrar. Deite-se e confie em mim.
Thiago se aproximou e segurou minhas costas.
— Eu não acho uma boa ideia.
— Só confie...
Inspirei e obedeci.
Ele me fez flutuar naquela água cristalina.
Meu corpo parecia se misturar ao oceano.
Fechei os olhos e relaxei.
Senti as mãos dele se afastarem, me causando mais leveza.
A vontade era cochilar e deixar o mar cuidar de mim.
Mas, alguns segundos depois, senti sua mão tocar meu braço com delicadeza.
Abri os olhos.
A água já não batia mais na cintura dele, e sim acima do peito.
Isso significava uma única coisa.
Eu não alcançava o chão.
O desespero bateu à porta.
Me sacudi, esquecendo completamente como flutuar.
Mas ele riu e segurou meus braços.
— Calma, Maxine. Você está sentindo medo à toa. Estou aqui e nada vai acontecer.
Olhei para ele em silêncio.
— Há meios de curar aquilo que um dia te fez m*l. Não é lutando contra você mesma, nem se isolando ou se cobrando o tempo todo. Aprecie a natureza. Exercite-se até o corpo pedir descanso. Desconte suas frustrações naquele saco de pancadas, mas mantenha o foco na luta.
Ele sorriu.
— Quando se der conta, estará curada. Seja lá o que for que passou.
— Obrigada. — Falei, segurando seus antebraços.
— Vamos, menina Maxine. Podemos treinar boxe mais tarde. E depois nos encontramos no pub.
Sorri.
Naquele momento, percebi que a chegada de Thiago tinha sido importante para mim.
Eu precisava da minha cura.
E essa cura não viria através de remédios.
Ainda não inventaram cápsulas capazes de curar a alma.