NARRAÇÃO DE MAXINE...
Pois é... Suspirei. Cheguei à conclusão que estava tão errada.
Julguei um homem inteligente, culto e especialista em conselhos, como um psicólogo. Agora entendo, preciso respeitá-lo. Além se ser o meu treinador, também é doutor e não tenho o direito de invadir sua vida e o diminuir sem saber da sua trajetória, sem saber à fundo do que se passava, assim como ele insinuou que eu não sei nada da vida, pensando se tratar de uma patricinha arrogante que teve tudo na vida. Ele não sabe da minha escuridão, não sabe como meu passado é carregado de maldäde à ponto de enxergar como uma obra satânica, no qual o pai oferece a filha virgem para alguém muito rüim, em troca de poder e riqueza. Ele não sabe disso e não quero descubra. É humilhante e vergonhoso.
Naquela noite dormi com facilidade, mas a ansiedade não me permitiu dormir bem... Acordei antes da hora. quatro da manhã.
Fiquei entediada olhando para o teto, aguardando os minutos se passarem. Mas o barulho do relógio no silêncio do quarto, com meus pés entrelaçados balançando. Me causou mais ansiedade...
Levantei e decidi me arrumar, perdi o sono mesmo, vou chegar mais cedo e aproveitar que o galpão de treinamento estará vazio naquele momento.
Saí do casarão com minha bolsa de treino escutando o barulho da fazenda. Vários insetos e rãs ecoavam por onde passava.
Estranhei quando notei a luz do galpão acesa.
Abri a porta, parei meus passos quando percebi Thiago treinando no saco de pancadas. Seu corpo é totalmente definido, é possível ver pois sua blusa azul clara estava molhada e colava em seu corpo. É um homem que qualquer garota cairia aos pés. Mas eu não. Entrei suspirando, deixando minha bolsa ao lado do tatame azul. Tirei meus sapatos. Ele parou de treinar, podia ouvir sua respiração ofegante, ele fungou com força deixando claro o quando estava em treino à vários minutos sem interrupção.
- Ainda não são cinco Horas Maxine, pode voltar e fazer o que quiser. - Me virei rindo com sarcasmo.
- Não mesmo, perdi o sono. Quando fico ansiosa, quero treinar no box, já me acostumei.
- Então teremos que lutar por ele, porque também faço isso. - Ele falou segurando o riso.
- Não mesmo, cheguei primeiro. - Falei caminhando até o saco de pancadas. Soquei com força.
- Segura a respiração quando for socar. - Thiago falou, me lembrei que Sr. Jhonny aconselhou o mesmo. Percebi que cansa menos e causa mais força.
- Boa! Viu?! Não é difícil Maxine, apenas escute e pratique.
- Então vamos para a defesa. - Pedi colocando as bandagens.
- Beleza. Eu vou atacar, lembre-se! braços na frente protegendo as costelas, qualquer movimento suspeito esconda o rosto nos braços. Pernas elevadas evitando o chute. É por instinto e não automática. Ouviu?!
- Sim! - Afirmei cerrando os punhos.
Foi a melhor luta! Qualquer ataque, conseguia me defender. Até mesmo em um determinado momento consegui o derrubar. Paramos em meio à gargalhada, mas não porque estava engraçado. Era gargalhada de emoção, meus olhos ficaram úmidos, os olhos dele também ficaram molhados comemorando minha vitoria. Coloquei as mãos no rosto desacreditada do que fui capaz de fazer.
- Viu?! Você tem potencial. - Ele falou se levantando. Estendeu sua mão me ajudando.
Levantei orgulhosa.
- Obrigada, você foi primordial pra isso, primeiro com seus conselhos, pude arrumar minhas idéias e nem tive pesadelos essa noite.
- Tem costumes de ter pesadelos? - Congelei com aquela pergunta.
- Não. - Menti. - Só não gosto de ter eles, então fico apreensiva sempre antes de dormir. - Ele soltou uma risada grave. Sua voz é bonita combinando com seu rosto.
- Primeira vez que escuto isso, medo de dormir para não ter pesadelos. Eu já passei por isso, mas foi quando tive minha primeira paralisia do sono. Depois sentia medo de dormir, mas foi questão de dias até o medo sumir.
- Paralisia do sono? - Perguntei curiosa.
- Sim. Primeiro é quando o corpo entra no estado de inconsciência antes da mente. Como os músculos relaxam durante o sono, não é possível movê-los neste estado de “semi-consciência”. Resumindo. É o pior pesadelo, você parece ver coisas ao seu redor, em seu quarto. Mas não consegue se mexer, e nem falar. Passa por minutos terríveis. Dizem que isso acontece em segundos, mas quem sente parece minutos... Sou médico e preciso confirmar que isso passa em segundos, mas por experiência própria, parece ser minutos.
- Vamos treinar?! - Perguntei nervosa, pois sempre passo por isso. Mas não tinha entendimento.
Acho que durante o treino fiquei abalada sobre a conversa do sonho em qu ficamos paralisados em nosso próprio quarto. No começo consegui. Mas durante a luta lembrei de uma paralisia do sono que tive aqui na fazenda. Presa na cama e aquele velho se aproximava rindo. Tentava gritar e não conseguia...
Me dei conta quando levei um golpe e caí no chão imobilizada. Thiago segurava meus punhos ofegante assim como eu. Ele estudava meu olhar, expressou preocupação. Era como se ele pudesse ler minha alma, o empurrei assustada. Com medo de falar com os olhos o que minha boca não queria. Ele não pode desconfiar que sou quebrada!
Ele levantou pedindo desculpas sem nenhum motivo. Pois sei quando recebo um olhar com outras intenções, e o olhar dele era carregado de curiosidades e preocupação.
Ele olhou sobre meus ombros e seu semblante caiu.
- O que está fazendo Thiago? - Ouvi a voz do Sr. Jhonny. Olhei para atrás assustada, ele encarava Thiago irritado.
- Nada, eu, apenas a imobilizei e percebi que ela estava pálida e carragava preocupação - Ela me empurrou e pedi desculpas.
- Estava muito tempo em cima dela. - Ele se aproximou à passos pesados. Entrei na frente pronta para defendê-lo.
- Em nenhum momento ele me desrespeitou, pelo contrário, me ajuda com conselhos e me incentiva. Eu... Só senti que estava passando mäl, ele notou e ficou analisando, é porque não tomei um café da manhã. - Sr. Jhonny se acalmou, voltou olhar Thiago.
- Não ultrapasse os limites. - Ele falou ríspido. Olhou-me brevemente, seu olhar falava que sabia que não queria homens me olhando com segundas intenções. Agradeci com os olhos.
- Com licença, vou tomar um café. Aproveite e os dois dêem uma pausa, e vão tomar um café no casarão. Já amanheceu. - Me espantei. Pensei ter se passado no máximo quarenta minutos, mas não. Ficamos três horas treinando.