A noite errada

560 Words
Algumas semanas se passaram… E Aline seguiu a vida. Entre crochê, contas e a rotina com Alicia… tentando não pensar demais. Mas, às vezes… a solidão batia. E naquela noite… ela resolveu tentar. Marcou um encontro. Um cara de aplicativo. Nada demais. Só… ver no que dava. Ela deixou Alicia na casa da mãe, se arrumou simples — como sempre — e foi até o barzinho onde tinham combinado. Ele já estava lá. Conversaram. Riram… um pouco. Beberam. Mas… não encaixava. A conversa não fluía. Não tinha química. Não tinha verdade. Era vazio. Aline já sabia: não ia ter segunda vez. Mesmo assim, ficou até o final. Educação. Costume. Ele pagou a conta. E quando levantaram… veio. — Vamos pra outro lugar? — ele disse, com um olhar diferente. Aline já entendeu. — Não… deixa pra uma próxima. Simples. Direta. Sem jogo. Mas ele mudou na hora. O rosto fechou. — Ué… a gente saiu, comeu, bebeu… agora tem que completar a noite, né? Aquilo gelou ela por dentro. — Eu nunca disse isso pra você. A voz dela saiu firme. — E eu não vou. Ela virou as costas. E saiu. Sem discutir. Sem prolongar. Mas quando colocou o pé na calçada… sentiu. Algo errado. Ela começou a andar rápido. Depois… mais rápido. E então ouviu. O som do carro. Atrás dela. Virou o rosto. Era ele. Seguindo. Devagar. Depois acelerando. O coração disparou. Ela começou a correr. Sem pensar. Sem olhar. Só correr. O carro vinha atrás. Insistente. Pressionando. Até que— FREADA BRUSCA. Um carro quase atingiu ela. Aline parou no meio da rua, assustada, sem ar. O outro carro também parou. E quando a porta abriu… ela reconheceu. O homem. O mesmo. O de semanas atrás. O homem de terno. Ele saiu rápido do carro, olhando pra ela. — Você tá bem? Mas antes que ela respondesse… o outro cara desceu também. Tentando disfarçar. — Foi m*l, cara… minha namorada discutiu comigo e saiu do carro… Aline arregalou os olhos. Namorada? Ela nem conseguiu reagir. O homem de terno olhou de um pro outro. Frio. Atento. — Você precisa de ajuda? — ele perguntou, agora olhando só pra ela. E, pela primeira vez naquela noite… ela se sentiu segura. Mesmo sem conhecer. — Eu… posso ir com você? — a voz dela falhou. — Claro. Simples assim. O outro tentou intervir: — Você vai entrar no carro com ele? Mas ela nem respondeu. Abriu a porta. Entrou. E fechou. Como quem escolhe… sobreviver. O carro arrancou. O silêncio tomou conta por alguns segundos. Aline estava tremendo. — Tá tudo bem… — ele disse, com a voz calma. — Eu não vou te machucar. Aquilo desmontou ela. — Eu só… preciso ir pra casa… — Eu vou te levar. Seguro. Sem pressa. Sem perguntas invasivas. Só presença. Depois de alguns minutos… ele falou: — Namorado? Ela respirou fundo. — Não… só… um cara que eu conheci. E então… ela contou. Tudo. Sobre o encontro. Sobre o desconforto. Sobre a proposta. Sobre a recusa. Sobre a perseguição. Enquanto ela falava… a mão dele apertava o volante. Forte. Controlado. Mas dava pra sentir. Aquilo tinha mexido com ele. Quando ela terminou… o carro seguiu em silêncio. Mas não era um silêncio r**m. Era um silêncio… de proteção. E, pela primeira vez em muito tempo… Aline não se sentia sozinha.
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