Narrador Narrando:
Nova Iorque.
Cobertura Alexsander.
O helicóptero pousou suavemente no heliponto do arranha-céu no coração do distrito financeiro de Nova Iorque, a noite já havia tomado conta da cidade e as luzes douradas refletidas nos prédios davam à metrópole um ar quase místico, perigoso e poderoso.
Alexsander Grayson desceu sem pressa, os cabelos escuros perfeitamente alinhados, o terno sob medida impecável mesmo após horas de viagem e ao seu lado, Julian carregava uma expressão levemente entediada, digitando no celular enquanto acompanhava o melhor amigo até a entrada privativa do prédio.
— Você viu a capa do Financial Style? — Perguntou Julian, entrando no elevador de aço escovado que os levaria diretamente à cobertura. — "Blake & Or fecha parceria histórica com a Angel’s Company. Grayson reage com silêncio."
— Silêncio é sempre mais perigoso que barulho; — Retrucou Alexsander com voz baixa e firme, os olhos claros fixos no visor digital do elevador.
A cobertura se abriu para uma sala de pé-direito duplo, linhas retas, vidro e aço, decorada em tons sóbrios de cinza, marinho e preto, a vista era vertiginosa: todo o sul de Manhattan se estendia diante de seus pés. Ali, não havia quadros sentimentais ou lembranças familiares, apenas arte moderna, esculturas discretas e um bar com garrafas raras alinhadas com precisão.
Julian jogou o paletó sobre o sofá de couro e se jogou ali com a naturalidade de quem já havia feito aquilo mil vezes.
— Você devia estar comemorando que ela finalmente se mostra uma ameaça de verdade. Isso torna o jogo mais interessante.
Alexsander afrouxou o nó da gravata e caminhou até o enorme painel de vidro que dominava a parede. Nova Iorque parecia respirar abaixo de seus pés.
— Não é uma ameaça, Julian! É uma provocação. — Disse ele, enfim, enquanto pegava o controle remoto e ligava a grande tela de LED suspensa na parede.
Uma série de manchetes se alinhou na tela: "Sienna Blake ganha o prêmio de Mulher do Ano", "Desfile histórico anunciado entre Blake & Or e Angel’s Company", "Blake sobe três pontos no mercado em uma semana". E então, a imagem dela, de vestido preto escultural, sorriso firme, os olhos cor de chocolate brilhando para as câmeras como se o mundo estivesse em suas mãos.
Alexsander ficou em silêncio por um longo tempo, observando aquela imagem como se estudasse um mapa de guerra. Era uma mulher magnética, determinada e imprevisível.
— Ela sabe jogar com as emoções das pessoas. — Murmurou. — Mas emoção é a fraqueza de qualquer império.
— Talvez, mas sabe o que mais ela tem? Uma história e o público ama isso! Ela veio de baixo, cresceu naquela empresa e você sabe que o nome "Blake" era só coincidência, mas ela transformou a coincidência em destino.
Alexsander não respondeu, apenas pegou um copo de cristal e serviu uma dose de whisky escocês, o líquido âmbar girando lentamente na luz.
— Ela quer a passarela, então que fique com ela! — Disse, finalmente. — Mas o controle do mercado... esse ainda é meu e eu não compartilho o trono.
Julian arqueou uma sobrancelha, curioso.
— E qual é o próximo passo?
Alexsander tomou um gole do whisky, os olhos brilhando com a mesma intensidade cortante da cidade à sua frente.
— Se ela acha que pode fazer aliança com os Maddox, então talvez esteja na hora de eu lembrar a Dominic quem ajudou a Angel’s Company a não afundar há cinco anos. — Ele sorriu, mas não havia nada suave naquele sorriso. — Eu não declaro guerra em público, Julian. Eu a venço em silêncio.
Alexsander apoiou o copo de cristal no aparador, sem pressa e com seus olhos ainda fixos na cidade abaixo, onde cada luz parecia uma peça em um tabuleiro maior, um tabuleiro que ele estava prestes a virar.
Julian, agora de pé, já sabia o que era aquele olhar. Era o olhar de quando Alexsander transformava pressão em planos, derrota em investimento e silêncio em estratégia.
— O que está pensando? — Perguntou o amigo, cruzando os braços.
— Que se ela quer brilho... eu vou dar fogo. — Respondeu ele, já pegando o tablet que estava sobre a mesa de centro.
Com alguns toques rápidos, acessou os últimos relatórios do departamento de inovação da Sterling Grayson. Dados, gráficos e projeções saltaram na tela, um projeto confidencial, batizado de "Ouro Azul", piscava no canto inferior com status: “Viável. Aguardando autorização do CEO.”
Julian franziu o cenho ao reconhecer o nome.
— Isso não era o projeto experimental com safiras cultivadas em laboratório?
— Sim! Lapidadas com precisão molecular, a pureza rivaliza com qualquer joia natural do mercado e o melhor: custo mais baixo, escala maior, impacto ambiental quase nulo. Ainda não lançamos porque esperávamos o momento certo.
Ele deslizou o dedo, revelando imagens de peças-conceito: alianças, brincos e colares em designs modernos, arrojados. Frio e técnico. Como ele, como a Sterling Grayson.
— Você vai jogar isso contra o desfile da Blake & Or?
— Não. — Ele sorriu com astúcia. — Vou jogar antes e não será apenas uma coleção, será um manifesto, o futuro da joalheria de luxo: tecnológico, sustentável, masculino e preciso. O oposto do que a Blake & Or representa com sua aura de feminilidade clássica.
Julian assobiou, impressionado.
— Um desfile também?
— Não! — Disse Alexsander, virando-se enfim para o amigo. — Uma exposição interativa em parceria com o MET. Uma noite para investidores, curadores de arte e nomes que realmente movem o mundo, exclusiva, fechada e impecável. Enquanto ela desfila tecidos e ouro romântico em Nova Iorque... eu trarei a era digital lapidada ao mundo.
Julian sorriu. O jogo havia começado, e o rei estava em movimento.
— Quer que eu acione o departamento de marketing?
— Sim e peça que acelerem o desenvolvimento do protótipo, quero as primeiras peças em mãos antes do fim do mês. E Julian... — Ele pausou, com um brilho calculado no olhar. — Certifique-se de que a primeira imagem vazada apareça sem querer no perfil de Dominic Maddox.
Julian soltou uma risada curta.
— Você quer mandar um recado.
— Não. — Alexsander serviu-se de mais uma dose de whisky. — Eu quero fazer com que ela pense que está sempre um passo atrás. E que ele... talvez tenha apostado no cavalo errado.
A cidade rugia abaixo deles, incansável e insaciável. E Alexsander Grayson acabara de entrar no jogo.