Capítulo 7: Uma Jogada com Flores.

1141 Words
Narrador Narrando: Nova Iorque. Cobertura Sienna. O céu sobre Nova Iorque começava a ganhar tons alaranjados quando Sienna se recostou no sofá da sala de sua cobertura, envolta por vidros que refletiam as luzes crescentes da cidade. Um robe de cetim branco cobria sua pele ainda quente do banho, e os cabelos castanhos, soltos e levemente ondulados, caíam sobre os ombros com naturalidade. À sua frente, a tela do notebook exibia as últimas atualizações da produção do desfile. Ela apertou um botão no controle e ogo, a sala foi preenchida pelo som suave do toque do telefone, até a voz alegre e conhecida atender do outro lado. — Alô, minha menina brilhante? Sienna sorriu imediatamente. O calor que aquela voz materna trazia era inigualável. — Oi, mãe... — Ela respondeu, apertando os joelhos contra o peito, como fazia quando era adolescente. — Coloquei no viva-voz. Estou descansando um pouco, mas não queria terminar o dia sem falar com você. — Você tem dormido, Sienna? — A voz preocupada atravessou o apartamento como um cobertor macio. — Ou ainda está virando noites nessa correria de desfile? Ela riu, um som baixo e verdadeiro. — Virando noites! Mas são boas noites, mãe e sabe aquele sentimento de estar cansada e, ao mesmo tempo, viva? Como se estivesse exatamente onde deveria estar? — Hum... você sempre foi assim. Desde menina, com suas listas, seus cadernos, seus sonhos maiores que o mundo. — A mãe fez uma pausa. — Não esquece de respirar, tá? Você já chegou tão longe, meu amor. Os olhos cor de chocolate de Sienna se voltaram para a janela, onde os arranha-céus pareciam tocar as nuvens. Por um momento, ela viu seu reflexo: uma mulher feita de determinação e doçura, vestindo o nome Blake com orgulho, mesmo que o sobrenome não fosse herdado, mas conquistado. — É esse desfile, mãe... — Disse num tom mais baixo. — Eu sei que é só mais um evento na agenda para muitos. Mas para mim... é mais que isso. É como se tudo que eu vivi até aqui tivesse me preparado pra esse momento, a parceria com os Maddox, Nova Iorque assistindo... — Ela respirou fundo. — Quero que seja impecável. Quero honrar tudo o que você e o papai fizeram pra que eu pudesse sonhar tão alto. — Você já honra, filha! Todos os dias, mas lembra: perfeição demais pode apagar a alma das coisas. Deixa seu coração aparecer nesse desfile também. Mostra quem é a menina de olhos brilhantes que queria mudar o mundo. Sienna fechou os olhos por um instante. As palavras da mãe ressoavam como música em sua mente. — Você vai assistir pela televisão, né? — Claro! Seu pai até vai colocar a TV na sala da mercearia, imagina só! Sienna gargalhou, imaginando os velhos clientes dos pais reunidos com sacolas de legumes nas mãos, assistindo ao desfile da filha como se fosse final de campeonato. — Promete que vai mandar foto? — Prometo! E você promete que vai lembrar que, no fim do dia, ainda é a minha Sienna. Aquela que fazia pulseiras com miçangas e vendia pra vizinhança com dez anos de idade. — Eu sou essa ainda, mãe. Só mudei o material. Agora uso diamantes. As duas riram juntas, e por um instante, o mundo parou. Ali, no topo de Nova Iorque, entre contratos milionários e joias raras, Sienna Blake era apenas filha e isso bastava para recarregar as forças que a levariam a brilhar ainda mais. — Vai dar tudo certo, minha menina. — Sussurrou a mãe. — E quando você entrar naquela passarela, mesmo que só para agradecer, você leva com você tudo o que sempre foi. Sienna deixou uma lágrima escapar, discreta, mas cheia de verdade. — Te amo, mãe. — Te amo mais, meu orgulho. Quando a ligação terminou, Sienna respirou fundo, enxugou os olhos com a ponta da manga do robe, levantou-se e olhou para a cidade como quem encara o destino. O desfile estava chegando e ela estava pronta. Manhã seguinte… Dia do Desfile. A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de linho da cobertura como dedos dourados tocando suavemente cada canto do espaço. Sienna acordou antes do despertador, era o dia do desfile. Ainda de camisola de seda, com os cabelos castanhos presos em um coque frouxo, caminhou descalça até a cozinha. O mármore branco da bancada estava frio sob seus dedos quando ela começou a preparar seu café. As máquinas ligaram com um clique automático, liberando o cheiro familiar e reconfortante que ela tanto gostava. Mas ao retornar para a sala de estar, algo a fez parar. No centro da mesa de vidro, onde geralmente havia apenas livros de arte e uma escultura de cristal, repousava um buquê luxuoso e inesperado: flores de lótus roxas, abertas como estrelas noturnas, entrelaçadas com tulipas lilases de hastes longas e firmes. Um arranjo tão ousado quanto sofisticado, impossível de ignorar. Sienna franziu o cenho, seus passos suaves até a mesa. Uma elegância contida, mesmo em sua perplexidade. Antes que pudesse perguntar, a voz da empregada, Ana, veio da cozinha. — Senhorita Blake, o buquê foi entregue ao porteiro bem cedo. Disseram que era urgente. O cartão estava junto. Urgente. No dia do desfile. Sienna estendeu a mão e puxou o pequeno envelope preto com letras douradas. Nada de logo, apenas o nome manuscrito: Sienna. Ela abriu com calma, sem perder a compostura, mas sentiu o coração acelerar quando leu: “Para a mulher que vai ofuscar os holofotes esta noite... tente não brilhar demais, ou o mundo poderá esquecer que existo. — A.G.” As iniciais, o estilo, a ousadia contida. Alexsander Grayson. Ela leu mais uma vez, agora com um pequeno sorriso de canto, que não sabia se era de irritação ou prazer. Ele não havia sequer assinado por extenso, apenas A.G. Como se ela pudesse confundir. — Arrogante… — Murmurou, girando o cartão entre os dedos. — E estrategicamente encantador. Por um segundo, imaginou a expressão dele ao mandar aquele buquê. Imaginou-o debruçado sobre sua varanda em algum canto da cidade, sabendo que ela estaria recebendo aquela provocação antes do desfile mais importante de sua carreira. Era o tipo de jogada que Grayson adorava fazer: silenciosa, elegante, cheia de segundas intenções. Ela apoiou o cartão sobre a mesa, observando as flores como se fossem uma declaração de guerra mascarada de gentileza. — Muito bem, Alexsander. — Disse, cruzando os braços e estreitando os olhos. — Vamos ver quem ofusca quem. Sienna virou-se em direção ao corredor. Hoje, ela usaria um vestido desenhado exclusivamente para a ocasião. A gargantilha de ouro branco esperava em seu cofre pessoal e Sophie Maddox já estava a caminho para o ensaio final. Com ou sem flores provocativas, aquele era o dia dela. E ela faria o mundo inteiro se lembrar por quê.
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