CAPÍTULO 6 - MELISSA
Depois do episódio do closet, eu evitei ele o dia inteiro.
Mas a mansão é grande e ao mesmo tempo pequena demais. A gente sempre se esbarra na cozinha, no corredor.
De noite, desço pra pegar água. A casa tá escura, silenciosa. Só a luz da geladeira.
E ele tá lá. Sentado no balcão, de camiseta preta, cabelo solto, mexendo no celular. Parece cansado.
— Ainda acordada? — ele pergunta sem olhar.
— Vou pegar água.
Passo por ele tentando não encostar. Mas ele segura meu pulso. De leve. Só pra me parar.
O choque de novo. Aquela eletricidade que queima.
Olho pra mão dele na minha pele e meu coração dispara.
— Melissa, sobre hoje mais cedo... — a voz dele tá baixa, rouca. — Eu não devia ter entrado. Foi errado.
Fico muda. Ninguém nunca pediu desculpa daquele jeito.
— Tudo bem — sussurro.
Ele não solta meu pulso. Pelo contrário, desliza o polegar de leve, sem maldade, só um carinho rápido.
— Não tá tudo bem — ele diz, e finalmente olha nos meus olhos. Os olhos dele tão claros, quase dourados agora. — Você me deixa louco. E eu não posso ficar louco. Você é... — ele engole seco. — Você é filha da minha esposa.
— Eu sei — minha voz sai tremida.
Ele chega mais perto. Muito perto. Sinto o perfume dele, quente, amadeirado. Ele inclina o rosto, como se fosse me beijar. Meu coração vai parar.
Fico na ponta do pé sem nem pensar. Fecho os olhos.
E ele para. A um centímetro da minha boca.
Ele respira fundo, fecha os olhos com força e se afasta como se tivesse levado um choque.
— Vai pro seu quarto, Melissa — ele manda, com a voz embargada. — Agora.
— Andrei...
— AGORA.
Corro pro quarto e tranco a porta, ofegante. Minha boca tá tremendo, meu corpo inteiro tá quente.
Lá embaixo, na cozinha escura, Andrei dá um soco na parede de mármore, com os olhos totalmente dourados, com o lobo arranhando pra sair.
Ele quase beijou a companheira humana de 18 anos. A enteada. Na cozinha da própria casa.
E ela quase deixou.