O tempo passou rápido, Safira e eu nos tornamos muito amigas. Gabriel, em contrapartida, deixava claro seu interesse por mim. Infelizmente, não era justo ficar com ele, sendo que eu gostava do Noah.
Fazia uns dois meses que ele havia partido e meu coração era só saudades. Nos falávamos com frequência, Noah me contava tudo. Até que o padrinho estava namorando e esse era um dos motivos de ele não poder se mudar para o Brasil quando Noah pediu.
Eu estava satisfeita com aquela pequena evolução, pelo que me contou, ele passou a se consultar com uma psicóloga indicada pela tal namorada do padrinho. Por isso o luto transformou-se em algo menos doloroso. Enfim, ficávamos conversando por horas sobre o que vinha acontecendo tanto aqui quanto lá. Noah ocupava o tempo com ações sociais em orfanatos na Nova Zelândia e sempre que falava sobre as crianças seus olhos brilhavam.
Era bonito de se ver, eu sentia orgulho dele.
Quanto a mim, passei a fazer pequenos shows pela cidade, shows que não me rendiam muito dinheiro. Apenas o suficiente para não depender tanto dos meus pais, havia gravado um vídeo para o canal ontem. Após semanas sem conseguir focar em uma música sem chorar de frente para a câmera. Afinal, Pamela foi quem mais me incentivou com o canal e com tudo o que envolvia música.
Era sobre esse assunto que Noah comentava agora, com os olhos dardejantes de entusiasmo e orgulho.
"Perfeita, eu estou encantado!"
Foi o primeiro a comentar no meu vídeo e me peguei toda boba com o gesto.
— Você devia me dizer o que posso melhorar... — pedi, referindo-me ao cover em questão. — Se apenas me elogiar eu não vou evoluir.
— Você é perfeita, simples assim. O que posso fazer? — respondeu sorrindo para a câmera do celular.
Suspirei, aquele sorriso aquecia meu coração.
— Estou com saudades, Noah. — confessei, não queria pressioná-lo, mas simplesmente escapou.
— Eu também estou, Luana. — afirmou, baixando o tom de voz. — Era sobre isso que eu queria falar com você. Estou com um projeto para arrecadar dinheiro para o orfanato que tem aqui perto de onde eu moro. E... — fez uma pausa, mordendo o lábio inferior — Queria saber se posso contratar um show seu para angariar fundos. Assim você poderia me ver, sabe, se a saudade estiver muito forte. — provocou.
Pisquei, desnorteada. Aquele momento havia chegado? O que tanto esperei? Noah me convidar para ir visitá-lo? Significava que ele estava bem o suficiente para me ver, certo? E sobre a atitude nobre dele em ajudar o orfanato, era tão fofo que fez meu coração doer.
Fiquei muda, minha reação devia entregar o estado absorto no qual eu me encontrava.
— Te deixei sem palavras? — brincou, fiz que sim com a cabeça.
— Então quer me ver somente com segundas intenções? Quer explorar meu talento? — fingi estar brava, ele se empertigou.
— Não é isso, meu anjo.. — eu amava quando Noah me chamava assim. — Só pensei que fosse gostar... estou morrendo de saudades, eu quero muito te ver. Você é a única cantora que conheço, as crianças adoram música e... — explicou entre tropeços, o interrompi com minha gargalhada.
— Te peguei. — ele suspirou.
— Poxa, você me assustou. — retrucou com a mão no coração. — Pensei que tinha te magoado de novo.
Fez um bico.
Argh, por que tão fofo?
— Não me magoou, adorei a ideia. — respondi, por fim, aproveitando a distração para acalmar os batimentos do meu coração.
— Significa que vem me ver? — quase gritou de euforia. — Quando?
— Bom, eu tenho um show marcado para domingo. Não posso furar, depois estou livre. — insinuei, sorrindo feito boba para a tela do celular.
— Vou comprar suas passagens para segunda à noite, pode ser? Assim tem tempo de descansar. — ele fez um movimento, parecia que iria pegar algo.
Era o notebook.
Caramba, nos veríamos, finalmente. Após longos meses só conversando via internet. Meu coração transbordava de felicidade e amor.
(...)
Safira e Larissa me ajudavam com as roupas de viagem, enquanto Gabriel observava a cena com os braços cruzados. Um bico contrariado enfeitando o rosto bonito, também nos tornamos amigos. De um jeito estranho, porque eu conhecia os sentimentos dele por mim. Ainda que Gabriel nunca tivesse pronunciado nada em voz alta. Isso era o de menos, ele respeitava meu espaço, era bom para mim como amigo.
Eu queria "conversar com a Pam" antes de ir, mas ainda não tive coragem suficiente para isso. Queria que Noah estivesse comigo, mas não teria outro jeito. Eu precisava enfrentar, do contrário não conseguiria viajar tranquilamente. Naquele dia, Larissa e Safira foram comigo à floricultura. Compramos um buquê de tulipas, uma das flores preferidas da minha amiga e graças ao apoio delas, tomei coragem de deixá-las no jazigo da família do Noah.
Com lágrimas nos olhos, contei que ele estava melhorando. Mesmo que longe de mim, portanto, eu não tinha sido um completo fracasso. Ali, observando os nomes, finalmente compreendi porque Noah precisou tanto espairecer. Ele não tinha mais praticamente ninguém da família, com o mesmo sobrenome. O padrinho foi tudo o que restou, fui muito egoísta querendo mantê-lo ao meu lado, apenas porque desejava ter um pedacinho da Pam comigo.
Fiquei lá pelo que me pareceu horas, até que ameaçou chover e afastei-me daquele local. Suspirando, segui para casa em silêncio. As meninas não forçaram conversa, agradeci mentalmente por isso.
Contudo, algo especial me animou naquele final de tarde, além da iminente notícia de que eu veria Noah. Ele havia postado um vídeo fazendo menção ao evento no orfanato, indicando que haveria uma surpresa. Conjecturei se a surpresa seria eu e sorri ao olhar o vídeo curto, seus cabelos loiros já estavam grandes novamente.
E, apesar de ele ter retirado o piercing no lábio, por ter inflamado. Meu coração se agitou, nossos poucos beijos não saiam da minha cabeça.
Era como um vício, eu sentia a necessidade de suprir aquela vontade de beijá-lo novamente. Mas compreendia que precisava ser paciente. Não era porque nos veríamos, que eu podia enfiar a língua na goela dele.
Bom, eu queria, de verdade.
O restante dos dias passaram rápido, mesmo com minha ansiedade nível hard aflorando e saindo por todos os meus poros. Fiz o show no automático, quando acabou, corri para dormir. Assim chegaria logo o momento da minha viagem. Noah enviou as passagens para o meu email, fiz todo o processo necessário. Minhas malas já estavam prontas, meus pais estavam cientes, então só me restava esperar e segurar a emoção.
Abri o i********:, porque vi uma marcação do Noah e meu coração derreteu ao ver a última foto. No qual ele escreveu na legenda: saudades.
Eu m*l podia esperar para vê-lo.