6 - tentativa e falha

1923 Words
Aurora Bianchi Na minha cabeça, tudo parecia simples. Eu faria tudo na calada da noite. Passaria de fininho, pé por pé. Meu pai tomava remédios fortes para dormir, então não acordaria. Fugir dos seguranças seria fácil, bastava sair de casa a pé, com uma mochila simples e uma quantia de dinheiro que eu juntei ao longo do tempo. O suficiente para que eu conseguisse chegar até a rodoviária e comprar uma passagem para o mais longe que eu conseguisse. De lá, pegaria um avião para qualquer outro país, ou, quem sabe, viveria em uma daquelas cidades afastadas, onde ninguém saberia quem eu sou. Poderia arrumar trabalho em uma gelateria, estudar alguma coisa, viver de maneira simples, conhecer o amor... Teríamos filhos, uma vida tranquila. Eu deixaria o nome Bianchi para trás, adotaria o sobrenome da minha avó materna, que era americana, e tudo ficaria bem. Mas como toda história envolvendo a máfia, nada é simples. Eu consegui escapar de casa, consegui me esconder dos seguranças, mas ao chegar na rodoviária, não consegui comprar a passagem. A funcionária não quis me vender a passagem, e quando vi, lá estava ele. Guilhermo. Não sei como, não sei como soube, mas ali, naquele instante, eu sabia que meu plano estava acabado, e eu continuaria na minha gaiola dourada. — Está tentando fugir do meu território, bem embaixo do meu nariz, passarinha? — ele disse, com um sorriso travesso, como se estivesse se divertindo com minha tentativa. Revirei os olhos. — Esse era o plano, mas você estragou tudo. — Achei que era melhor te impedir antes que você gastasse todo o seu dinheiro — ele respondeu com uma calmaria que só me fez sentir mais irritada. — Fugir de mim é impossível. Eu te acharia até em outro planeta. — Eu não vou me casar com aquele psicopata — falei com desdém, deixando claro o quanto detestava a ideia. — Tudo bem, não case com ele — ele disse com um sorriso desafiador. — Case-se comigo, então. Soltei uma risada irônica, balançando a cabeça. — Sair do psicopata para cair nas mãos do d***o? Não, obrigada. Ele riu, quase debochando da minha reação. — Qual é, passarinha? Sabemos que eu não sou o d***o o tempo todo, só quando necessário. Eu já estava farta da sua arrogância. — Eu achei que já tivesse entendido, mas parece que não! Eu não acredito em você, e definitivamente não confio em homens da máfia. Ele deu de ombros. — Uma pena. Eu sou a única pessoa que pode te ajudar, passarinha. Eu ri com escárnio. — Nesse ponto, você está certo. Agora me faça um favor: vamos ali, você libera para mim uma passagem para bem longe daqui, e assim você vai estar me ajudando, certo? Ele me encarou com uma expressão mais séria pela primeira vez. — Não seja ingênua, Aurora. Domenico tem poder para te encontrar onde quer que você esteja. Ele te infernizaria. — A forma como ele disse meu nome me despertou algo dentro de mim, uma sensação estranha que eu não sabia identificar. — Ficar aqui seria a mesma coisa — contra-argumentei, tentando manter a calma. — Ele não ousaria entrar na minha casa, encostar no que é meu. Seu pai também não ousaria! Eles podem até ser peixe grande, cara mia, mas eu sou ainda maior. Eu o desafiei com o olhar, tentando esconder a fraqueza que se espalhava por dentro. — Quem me garante que você não vai ser um marido pior? Quem me garante que não vai me forçar a nada? Ele soltou uma gargalhada, como se tivesse ouvido uma piada engraçada. — Passarinha, se eu quisesse te levar à força, já teria te colocado no ombro como saco de batata. Me pouparia muita saliva. E outra, já viu as damas da minha família reclamarem dos maridos? Pelo contrário, estão todas impecáveis e sorridentes. O segredo do sorriso você só descobre se casar comigo. — Você é muito presunçoso — resmunguei, revirando os olhos. — Se fosse minha esposa, levaria umas palmadas por revirar os olhos para mim — ele disse de forma leve, mas com uma ameaça disfarçada. Arregalei os olhos. Ele se divertia com minha reação. — Relaxa, passarinha. São tapinhas de amor. — Eu me caso com você, mas quero por escrito que você não vai me bater, não vai me forçar a nada e nem me tocar. Ele bufou, impaciente. — Assim eu não quero, não quero um troféu, quero uma esposa. Eu cruzei os braços, determinada. — Então tudo bem. Você não me bate, não me toca sem que eu permita. Pode ser? Ele me olhou, um sorriso malicioso se formando. — Não sou abusador, e relaxa, você vai implorar para ser tocada por mim, querida. Mas agora, vamos. Amanhã converso com teu pai. Eu o desafiei com um olhar penetrante. — Você não sabe onde está se metendo, Subchefe. Ele riu baixo, como se eu fosse uma criança. — Eles que não saibam quem eu viro quando não fazem o que eu quero, e tentam tocar no que é meu. Ele pegou minha mochila com uma facilidade assustadora e entregou para um dos seguranças. Em seguida, me pegou de forma abrupta, como se eu fosse um saco de batatas. — Você sabe que não precisa disso, eu já concordei — falei, irritada. — Mas é divertido — ele respondeu, com um sorriso debochado, enquanto começava a caminhar comigo. Bufei, me perguntando se eu estava cometendo o maior erro da minha vida. Mas, ao mesmo tempo, a sensação de estar completamente fora de controle, de não ter mais escolha, estava me consumindo. Eu sabia que, ao dar esse voto de confiança a Guilhermo, eu estava cruzando um limite que talvez não tivesse volta. Chegamos na mansão D'Angelis, e ela era tão imponente quanto sua família. A estrutura colossal parecia ter vida própria, com seus jardins meticulosamente cuidados e suas janelas altas, refletindo uma riqueza de uma era passada. A opulência da casa fazia o meu coração bater mais forte, e um calafrio subiu pela minha espinha. Eu estava com medo, um medo que eu não sabia explicar. Não sabia o que esperar de tudo aquilo, se ele estava me tratando com essa leveza porque queria me enganar ou se realmente era aquela pessoa, longe dos eventos e dos mafiosos, que ele parecia ser quando estava comigo. — Seus pais não vão falar nada sobre eu estar aqui? — perguntei, minha voz falhando um pouco. Ele deu uma risada baixa, um som suave, quase amável, mas com algo de perigoso nele. — Hoje não. Talvez amanhã, quando eu contar à mamma que sequestrei uma garota que está noiva. Quem sabe ela não me arranca o couro. Soltei uma risadinha nervosa, tentando esconder o desconforto. — O temido subchefe tem medo da sua mamma? Ele deu de ombros, o sorriso desaparecendo, deixando uma expressão séria, mas ainda assim algo imensamente charmoso. — Mamma consegue ser pior que o próprio d***o encarnado quando quer. As palavras dele me fizeram tremer. Talvez não fosse só o Guilhermo que eu devesse temer. Ali, naquela mansão, estavam os pais dele, os tios, a prima e, claro, o capo e sua primeira dama. Se eles quisessem acabar comigo ali, ninguém jamais saberia. — Ei, não se preocupe — disse ele, como se tentando aliviar minha tensão. — Ela nunca te machucaria, ninguém nessa casa te machucaria. Por enquanto, só se preocupe em dormir. Amanhã, talvez você tenha uma pequena visita das mulheres D'Angelis. Elas são fofoqueiras, mas inofensivas. Eu não estava convencida de que fosse tão seguro assim, mas me calei, engolindo o medo. — E você? Onde estará? — Perguntei, a voz baixa. — Lidando com a guerra que meus atos podem causar. — A resposta foi dada com uma leveza que, de alguma forma, me fez sentir que ele estava se afastando emocionalmente de tudo. Nós passamos por uma porta lateral, atravessando uma sala imensa, a cozinha, o lavabo e um pequeno escritório antes de subirmos para o andar superior, onde ficavam os quartos. Estranhamente, havia apenas quatro. Ele parou diante de uma porta, uma porta que tinha uma aura de autoridade, de possessão. — Esse é o meu quarto. O outro será o seu, até você se sentir confortável o suficiente para dormir comigo. Os outros são para visitas e filhos. — Ele disse isso com uma naturalidade que me fez engolir em seco. Aquelas palavras — "dormir comigo" — soaram tão pesadas. Eu ainda não sabia o que pensava sobre tudo isso. Sobre ele. Sobre a nossa "união". — Muito cedo para pensar nisso — murmurei, tentando me afastar da tensão crescente. Ele riu, um riso suave e quase carinhoso. — Tudo bem, passarinha. Escolha seu quarto. No banheiro tem uma escova nova, toalhas limpas... as roupas de cama também estão trocadas. Fique à vontade. — Ele fez um gesto leve, como se tudo fosse natural, sem pressa, sem pressão. Caminhei até o quarto indicado, minha mente girando em mil direções. Coloquei a mão na maçaneta, hesitando por um momento. Olhei para trás, e os olhos dele estavam fixos em mim. Ele deu um passo à frente, e nossos corpos estavam tão próximos que eu quase podia ouvir o bater acelerado de seu coração. — Me diz uma coisa — minha voz saiu mais suave, quase um sussurro, apesar do turbilhão dentro de mim. — Por que criar uma guerra com aliados, por alguém tão pequena quanto eu? Ele se aproximou ainda mais, e a respiração dele quase tocou minha pele. Olhou para baixo, e só então percebi o quão pequena eu realmente era diante dele, a diferença de tamanho entre nós mais imponente do que eu imaginava. — Tem uma coisa sobre mim que você não sabe, mas eu sou obsessivo, pequena. Eu te vi, e isso mexeu com os meus instintos. Eu não estaria em paz enquanto não fosse minha. As palavras dele me atingiram como um choque elétrico, e eu m*l consegui manter o equilíbrio. — Isso não é bom, você sabe. Não é saudável para você — disse, tentando manter minha voz firme, mas a dúvida estava em cada sílaba. — Vai ser, porque agora você está aqui. E eu queimaria essa máfia inteira para que continue assim. — Ele sorriu, mas havia algo em seu sorriso que não parecia totalmente benigno. Minha mente estava em conflito, mas ainda assim, a minha pergunta escapou, como um grito silencioso. — E se eu nunca aceitar ser sua? E se esse casamento não der certo? E se eu não for o que você espera que eu seja? Ele suspirou, um suspiro profundo, como se as minhas palavras não fossem uma surpresa para ele. — Muitas perguntas, passarinha. Se acalme. Vá descansar. Não se preocupe com isso agora. Eu sinto que você vai ser tão obcecada por mim quanto eu sou por você. Ele se inclinou e beijou minha testa com uma suavidade que parecia contradizer toda a intensidade de suas palavras. Meus olhos se fecharam por um segundo, sentindo o calor de seu beijo em minha pele, antes que ele se afastasse lentamente, entrando no quarto dele, do outro lado do corredor, me deixando sozinha. Fiquei ali, diante da porta do meu quarto, com os pensamentos se chocando dentro de mim. Eu queria confiar nele, mas havia algo no ar, algo perigoso, que me dizia que não seria fácil. Algo me atraía para ele, mas ao mesmo tempo, eu sentia o risco de me perder nesse jogo.
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