3 - Obcessao e Aviso

1193 Words
Guilhermo D'Angelis Entro na ala do meu primo, o novo capo, mas, em vez de seguir direto para seu escritório, vou até a cozinha. Porque, sejamos honestos, se tem um lugar onde Antonella sempre está, é lá. E não por acaso. A mulher faz um café tão bom que até parece feitiçaria. Sem falar que, se eu chegasse até ela com um pedido de favor sem antes trazer um presente (neste caso, minha própria presença encantadora), provavelmente sairia de mãos vazias e, talvez, com um chute no traseiro. Ao entrar, sou imediatamente recebido pelo aroma do café recém-passado. Um verdadeiro abraço quente no coração. Antonella está de costas para mim, ocupada despejando o líquido escuro em uma garrafa térmica, e eu aproveito para me aproximar sorrateiramente. — Prima do meu coração! — cantarolo, escorando-me no balcão com meu melhor sorriso encantador. Antonella nem se vira. Apenas suspira, como se já soubesse que estou aprontando alguma. — Subchefe, você por aqui tão cedo? Precisa de algo? Se for dinheiro, peça para o Vince. Se for uma explicação sobre a vida, procure um padre. Eu rio. Antonella e suas respostas afiadas. É realmente a mulher perfeita para o meu primo cabeça-dura. — Na verdade — continuo, pegando uma xícara e servindo-me do café dela sem permissão —, queria te pedir um favor. — Ah, claro. — Agora ela se vira, cruzando os braços sobre a barriga já evidente da gravidez. — Porque eu, no auge da minha paciência de grávida, adoro favores. — É que vocês bambinas têm essa pegada investigativa, sabem tudo sobre todo mundo... Ela arqueia uma sobrancelha, me estudando com aquele olhar de raposa que faria até o demônio tremer. — Seja direto, Guilhermo. Estou grávida, não posso passar nervoso. Dou um gole no café antes de responder. Está perfeito, como sempre. — Quero que você dê uma sondada entre as mulheres da alta sociedade sobre Aurora Bianchi. Antonella pisca algumas vezes antes de soltar: — Quem diabos é essa? Dou de ombros. — Uma garota que conheci. Ela sorri de lado. — Ahhh, então é isso. O senhor D'Angelis finalmente foi laçado. — Não exagera. Só quero saber mais sobre ela. Pequena curiosidade. — Uhum. — Ela estreita os olhos. — Continua. — Ela está noiva do Domenico Rizzi. Antonella engasga no próprio café. — O velho que já foi viúvo três vezes?! Faço uma careta. — Isso, esse mesmo. — Mas que tipo de pai entrega a filha para aquele seboso? — Então, né... isso que eu quero descobrir. Antonella tamborila os dedos na bancada, claramente já processando todas as informações. — As mulheres dos conselheiros falam horrores sobre ele. — Sua expressão se fecha. — Parece que é um péssimo marido. Machista, controlador, faz as esposas virarem sombras depois do casamento. Raramente são vistas nos eventos depois que se casam com ele. Minha mandíbula aperta. Isso era ainda pior do que eu imaginava. — Eu preciso saber mais sobre ela. Sobre ele, eu mesmo vou atrás. Antonella suspira, pegando a garrafa térmica de café e me entregando. — Guilhermo D'Angelis, o que você está aprontando? Levanto as mãos em um gesto inocente. — Nada, sua raposa perigosa. Só investigando um pouquinho. Ela me encara desconfiada, mas não pressiona mais. — Vai logo, então. Mas avise ao Vince que estarei na casa dos pais dele com a Giulia, vendo uns móveis para a Giovanna. Rio, pegando a garrafa. — Deus que ajude nosso capo tendo uma filha. Ela balança a cabeça, rindo também. — Vai embora, Guilhermo, antes que eu jogue essa garrafa na sua cabeça. Dou um beijo no pequeno Enrico, que está nos braços dela, e saio da cozinha, pronto para encarar meu primo e, quem sabe, começar a mudar a história dessa Aurora Bianchi. Assim que entro no escritório do Vince, já sei que ele percebeu minha visita à cozinha. Meu primo não é bobo. — Se apareceu com café, quer dizer que passou pela cozinha para perturbar minha esposa. — Ele diz sério, olhando para a garrafa térmica que carrego. Me jogo na poltrona em frente à sua mesa, relaxado. — Não perturbei. Pedi um favorzinho. — Tomo um gole do café e, antes que ele possa perguntar, continuo: — Ela está lá na casa da sua mamma com sua sorella. Vince confirma com um aceno. — Inclusive... — Apoio a garrafa na mesa e cruzo as mãos. — Preciso que me ajude a saber mais sobre Máximo Bianchi e Domenico Rizzi. O rosto dele se fecha. — Eles estão aprontando outra vez? — Na verdade, não. Mas conheci uma garota que está ligada a eles e queria saber mais dessa história. O olhar do Vince se estreita. — A filha do Máximo. A que é noiva do Rizzi. Arquejo, chocado. — p***a, todo mundo sabia disso menos eu? Cara, em que mundo eu tava? Ele dá um meio sorriso sem humor. — Nada demais a saber. Máximo é um grande nome no conselho, mas anda no meio do submundo da máfia. Já fiquei sabendo. Agora, Rizzi... — Vince encosta-se na cadeira, pensativo. — Sabe que mantemos aliança com ele apenas porque os cassinos da família dele são bons para os negócios. Mas confiar? Nunca confiei. Inclino a cabeça. — Dizem por aí que já foi viúvo três vezes. Um velho roubando velhas ainda mais velhas. — Brinco. Vince revira os olhos. — Na verdade, eram moças novas. Filhas de grandes nomes de máfias aliadas. O Máximo é o único doido da Nostra Famiglia a entregar a filha para o Rizzi. Balanço a cabeça, incrédulo. — Como se não tivessem homens solteiros nessa máfia... Meu primo me encara. — Guilhermo, você está ficando obcecado. Isso não é bom e você sabe. Solto um suspiro. Eu sabia. Mas ignorava. — Não vai atrapalhar nossas questões. — Mas vai arrumar uma guerra com aliados se você se meter com essa garota. — Ele diz, sério. — Sabe das regras. Desonrou, tem que casar. Bufei. — Você sabe que não saio por aí desonrando garotas. Se quero sexo, vou ao prostíbulo. E outra: não vou começar uma guerra. Só quero ajudá-la. Vince ri, mas sem humor. — Guilhermo, eu te conheço. Crescemos juntos. Você não vai descansar enquanto essa garota não for sua. Sorrio de lado. — Confia em mim? Não será nada grande. Eu prometo. Ele me encara por alguns segundos antes de se inclinar sobre a mesa, apontando um dedo para mim. — Se for, eu juro que te mato com minhas próprias mãos. Jogo a cabeça para trás, rindo. — Qual é? Vai me dizer que não ficou louco com Antonella? Que não daria sua vida por ela? Ele solta um suspiro pesado. — Sim, sou louco pela minha raposa. É por isso que sei que nós, D'Angelis, quando ficamos obcecados, cometemos loucuras. Levanto as mãos, rendido. — Não se preocupe. Agora vamos trabalhar. Temos muita coisa para fazer desde que assumimos nosso cargo. Ele assente, mas seu olhar me avisa: não faça merda, Guilhermo. Mas eu sei que já estou ferrado. Porque Aurora Bianchi já está na minha cabeça. E isso nunca acaba bem.
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